Microcréditos, um alívio para os excluídos na República Dominicana

Milhares de dominicanos se beneficiaram dos microcréditos que chegaram ao país caribenho em 1982 pelas mãos da Fundação Dominicana de Desenvolvimento

Santo Domingo – Após romper a barreira da marginalidade social e superar um câncer, Mercedes Arias se transformou em uma pujante microempresária que criou sua família graças a um reconhecido esforço.

Esta mulher, de 44 anos, é uma das milhares de pessoas que na República Dominicana encontraram nos microcréditos um alívio para sua precária situação econômica e para sua condição de excluídas do sistema financeiro local.

Há 15 anos quando lhe diagnosticaram câncer no útero – que já superou -, Mercedes decidiu pôr um ponto final ao trabalho de doméstica que realizou por mais de 25 anos em uma casa particular e iniciar, com um empréstimo de 2.000 pesos (US$ 52 no câmbio atual) que o fez um cunhado, seu próprio negócio: a venda de flores artificiais e artigos para o lar.

Pouco depois, por recomendação de uma amiga, foi à Fundação Dominicana de Desenvolvimento, pioneira do setor de microcréditos no país, e conseguiu um empréstimo de 20.000 pesos, que foi renovando com os anos de acordo com suas necessidades.

Casada e mãe de três filhos adultos, esta mulher, que não sabe ler nem escrever, fez de sua pequena empresa a principal fonte de renda de sua família, mas também a de outras pessoas às quais deu emprego no negócio que gerencia a alguns metros de sua casa no setor de Sabana Perdida, no norte de Santo Domingo.

‘Vendo flores, quadros, liquidificadores, geladeiras, televisores, camas, jogos de refeitório, móveis..’, resume à Agência Efe Mercedes, de 44 anos, premiada em 2009 como Microempresária do Ano pela Fundação Dominicana de Desenvolvimento.

Seus artigos são oferecidos de casa em casa em diferentes bairros da capital e, em algumas ocasiões, assegura, suas jornadas de trabalho se estendem por 15 horas.

Fruto de seu negócio Mercedes tem três casas, que se somam a outra que tinha quando começou a trabalhar de maneira independente, assim como dois veículos nos quais leva a mercadoria.

‘Tudo sai daqui’, assegura a mulher entre flores, jarras, vasilhas e pinturas na casa onde tem a microempresa.

Como Mercedes, milhares de dominicanos se beneficiaram dos microcréditos que chegaram ao país caribenho em 1982 pelas mãos da Fundação Dominicana de Desenvolvimento, como disse à Efe o diretor-executivo da entidade, Francisco Abate.


Esta ONG foi criada por um grupo de empresários com o objetivo de dar resposta à difícil situação que atravessava o país por causa da guerra civil de 1965 que, como assinalou Francisco, ‘pôs em evidência o grande desequilibro social em que vivíamos e o grande abismo entre ricos e pobres (…)’.

Atualmente esta entidade conta com cerca de 15 mil clientes – que espera duplicar nos próximos três anos – e uma bolsa de 190 milhões de pesos (cerca de US$ 4,9 milhões), mas além disso conta com um programa de capacitação a favor de cerca de 3.000 pessoas nas províncias onde dá créditos.

Sua principal fonte de financiamento são bancos locais e organismos internacionais, entre eles, a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Aecid) cujo aporte atual é de 350 mil euros e que poderia chegar a 450 mil em 2012.

‘O dinheiro da Aecid chegou no momento certo e nos permitiu reduzir nossos custos de maneira concreta’, disse Francisco.

Ao mesmo tempo destacou a incidência que tiveram os microcréditos entre os dominicanos de poucos recursos econômicos e que não têm acesso aos bancos privados.

No entanto, esclareceu, o objetivo da ONG não é só dar créditos a pequenos empresários, mas fazer ‘que aquele pequeno negócio que é de pura subsistência se transforme em um de acumulação, onde as pessoas possam ajudar a sua família a sair da pobreza’.

A Fundação também desenvolve um programa que ajuda seus clientes a melhorar suas casas e outro para ajudar ex-presidiários a voltar à vida produtiva.

Sobre a fama de que os pobres não pagam, Francisco assegura que é ‘o contrário’ e argumenta que ‘a capacidade e a vontade de pagamento do empresário de baixa renda é conhecida em nível mundial desde a Índia até a Nicarágua; pagam muito bem’.