Itália, o reino da instabilidade

Lourival Sant’Anna

O ano dos referendos arrasadores fechou no domingo com um sonoro “no, grazie” dos italianos. O primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, conhecido como “O Demolidor”, foi dinamitado por 59% dos eleitores, que votaram contra a reforma constitucional que ele mesmo havia atrelado ao seu futuro no cargo, transformando a consulta popular em um plebiscito sobre seu governo. Com um desemprego de 11,6%, que entre os jovens alcança 36,8%, e popularidade de 23%, a aposta de Renzi, feita quando gozava de muito mais apoio popular, terminou num tiro no pé.

O resultado reforça uma série de dúvidas. Primeiro, sobre a capacidade da Itália, que nos últimos 70 anos teve 63 governos, de manter um período mais longo de estabilidade, como parecia indicar o mandato de Renzi, no cargo desde fevereiro de 2014. E também de realizar reformas estruturais que a coloquem no caminho do crescimento sustentável.

Além disso, a renúncia de Renzi, apresentada na segunda-feira, agrava as preocupações com relação à economia italiana e sobretudo à solvência de seu setor bancário. Por último, representa mais uma vitória da corrente populista e anti-europeia, que já levou à saída do Reino Unido da União Europeia (UE) e pode ter desempenhos sem precedentes nas eleições francesa e alemã do ano que vem. O euro chegou a cair 1% em relação ao dólar nos mercados asiáticos na segunda-feira, mas acabou recuperando a perda ao longo do dia.

Análise de cenário feita pela consultoria americana de risco Stratfor observa que o Movimento 5 Estrelas defende a renegociação da dívida italiana e a realização de um referendo sobre a participação da Itália na zona do euro, e que uma vitória do partido em uma eventual eleição no ano que vem criaria incertezas acerca do futuro do país. “O Banco Central Europeu (BCE) poderia agir para mitigar uma elevação dos custos dos empréstimos para a Itália, mantendo as taxas de juros sob controle”, prevêem os analistas da Stratfor. “Mas o BCE é menos efetivo na assistência ao problemático setor bancário italiano, no qual alguns bancos estão lutando para se recapitalizar e reduzir sua carteira de créditos ruins.”

A reforma transformava o Senado italiano em uma instância de decisão de temas regionais, concentrando as deliberações sobre as leis na Câmara dos Deputados. O objetivo era facilitar a governabilidade e agilizar as reformas, com um efeito positivo sobre a economia. A mudança era a coroação de um conjunto de reformas aprovadas no Parlamento, mediante uma rara aliança da centro-esquerda, à qual pertence o PD, com a centro-direita e a direita, que incluiu a flexibilização das leis trabalhistas, redução de impostos e da burocracia.

Mesmo eleitores que apoiam o governo votaram contra, por considerar que a mudança lhe dava um poder excessivo. O Movimento 5 Estrelas (M5S, na sigla em italiano), do ex-comediante Beppe Grillo, e a separatista Liga do Norte, de Umberto Bossi, fizeram campanha pelo “não”, e emergem como os grandes vencedores.

O presidente Sergio Matarella pediu a Renzi que fique no cargo enquanto ele realiza consultas com os partidos sobre a formação de um novo governo. A situação é paradoxal, porque o Partido Democrático (PD), de Renzi, tem a maior bancada no Parlamento, e portanto seria o candidato natural a liderar uma nova coalizão. Entretanto, foi derrotado politicamente pelo referendo. Mas tampouco aceitaria um governo anti-Renzi e anti-PD. Matarella poderá tentar formar um governo de tecnocratas, com o ministro da Economia, Pier Carlo Padoan, à frente, para acalmar os mercados. Sua primeira tarefa seria supervisionar, já nas próximas semanas, o resgate do Banco Monte dei Paschi di Siena, o que está pior das pernas.

Mas a economia não é o único problema do país e é possível que Matarella e seus interlocutores no Parlamento decidam priorizar a estabilidade política. Para realizar novas eleições, a Itália precisa aprovar uma nova lei eleitoral. A atual, aprovada em 2015, não chegou a ser aplicada, e está sendo questionada na Justiça. Nesse caso, o nome mais indicado para chefiar o governo, segundo a imprensa italiana, seria o do presidente do Senado, Piero Grasso, que tem bom trânsito com a oposição.

Em caso de não se conseguir uma coalizão estável, podem ser antecipadas para o ano que vem as eleições, previstas para 2018. Isso beneficiaria o 5 Estrelas e lançaria a UE em mais um turbilhão de incertezas, representadas pelas eleições na Alemanha e na França e pela negociação dos termos da saída do Reino Unido do bloco. Numa amostra da ansiedade que a saída de Renzi causa no mundo, o presidente Barack Obama disse, durante encontro na Casa Branca com o primeiro-ministro italiano em outubro, que tinha esperança de que “ele ficasse por aí por um tempo, independentemente do que acontecer”.

Renzi, o breve

Mas Renzi se mostra bastante determinado a cumprir sua promessa de deixar o governo: “O ‘não’ venceu de uma maneira incrivelmente clara”, reconheceu o jovem político de 41 anos, normalmente firme e confiante, contendo as lágrimas. “Eu assumo toda a responsabilidade pela derrota. Minha experiência de governo termina aqui.” O comparecimento do eleitorado foi de fato acima do tradicional: 70%, não deixando margem a dúvidas sobre a legitimidade do pleito.

“A propaganda do regime e todas as suas mentiras são os primeiros perdedores deste referendo”, festejou Beppe Grillo, o líder do M5S, em seu blog. “Os tempos mudaram.” Matteo Salvini, líder da Liga do Norte, que se opõe à imigração, qualificou o resultado como “uma derrota não só para Renzi, mas para seus sérvios, lacaios, banqueiros, financistas”.

“O ‘não’ venceu, mas as motivações dos que o apoiaram são múltiplas”, disse a EXAME Hoje Renato Mannheimer, diretor do instituto de pesquisas de opinião Ispo e professor de sociologia na Universidade de Milão. “A questão em si da reforma foi a menos difundida: contou na escolha de alguns extratos de eleitores, mas não foi o motivo principal do elevado comparecimento e do resultado final.” A sondagem que chegou mais próxima do resultado final, do instituto Eumetra Monterosa, mostrou que a maioria dos entrevistados não se sentia suficientemente informada sobre o que estava sendo decidido no referendo.

“A segunda motivação do voto esteve ligada à figura de Matteo Renzi e de seu governo”, analisa Manhheimer. “O nível de aprovação de seu governo diminuiu progressivamente nos últimos meses, até atingir, há algumas semanas, 23%, segundo o Eumetra. A forte personalização imprimida pelo primeiro-ministro sobre a consulta popular levou muitos eleitores a manifestar sua desaprovação ao governo, transformando a consulta num verdadeiro referendo ‘contra Renzi’.”

Mas, segundo o especialista, nenhum desses fatores é a principal explicação para a vitória do “não”, e, sim, “a frustração de amplos setores empobrecidos, com a falta de perspectivas em relação ao futuro, especialmente entre os mais jovens, que foram golpeados pela crise, e atribuem esse golpe não a essa ou àquela força política, mas ao ‘poder’, ao establishment em geral.” Nesse sentido, diz Manhheimer, trata-se de uma manifestação semelhante à que levou ao Brexit e à eleição de Donald Trump.

O estilo de Renzi, visto por muitos como “arrogante”, contribuiu para que muitos eleitores o identificassem com os eurocratas em Bruxelas, aparentemente distantes e insensíveis ao sofrimento das pessoas comuns, observa Antonio Noto, diretor do instituto IPR Marketing. “Há uma forte antipatia em relação a Renzi”, afirma Noto. “Os votos foram contra o establishment, mas também contra o estilo dele.”

O desfecho do referendo na Itália provocou calafrios em várias capitais europeias, não só pelo receio do destino comum de outros líderes, que enfrentarão adversários populistas em eleições nos próximos anos, mas também pelas consequências para a UE. “Estou triste com o fato de o resultado do referendo não ter sido como o primeiro-ministro esperava, porque sempre apoiei o curso das reformas dele”, confessou a chanceler alemã, Angela Merkel.

“O resultado negativo do referendo e a renúncia de Renzi são mais um marco na crise europeia”, avalia o cientista político alemão Lothar Probst, da Universidade de Bremen. “No curto prazo, os efeitos podem não ser tão significativos, mas isso se soma à instabilidade econômica e política na zona do euro.”

Probst recorda que “muitos problemas na UE e na zona do euro não estão realmente resolvidos”, apontando as crises econômicas na Grécia e em Portugal, aos quais o BCE provavelmente terá de emprestar mais dinheiro. “Em outros países europeus, o crescimento ainda está muito baixo. Além disso, a UE precisa lidar com o Brexit, com as incertezas nas relações com os Estados Unidos sob Trump e nas eleições na França”, acrescentou o analista, referindo-se às previsões de que a ultranacionalista Marine Le Pen deve chegar ao segundo turno presidencial, em maio.

É, não está fácil para ninguém.