Guia histórico para entender a série “The Crown”, da Netflix

Série da Netflix busca retratar os primeiros anos de reinado de Elizabeth II de uma forma mais humanizada

A série histórica The Crown, da Netflix, chamou atenção pela produção multimilionária e ganhou elogios da crítica por mostrar os primeiros anos de reinado de Elizabeth II de uma forma mais humanizada.

Certo, a trama não é difícil de entender, não tem 546 personagens principais nem tenta explicar um sistema político com mais peças que um Lego de garoto rico.

Mas muito do que os personagens falam e vivenciam sobre o mundo nos anos 1950 e a situação do Reino Unido passam mais ou menos batido. Selecionei alguns trechos para falar mais a respeito.

Evidentemente, há alguns spoilers, mas nada grave. Se você ainda não assistiu, não vai ter nenhuma grande surpresa estragada com este texto. Afinal, a protagonista não morre.

1 – O triste passado de Philip

“Fugi em uma caixa de abóbora, meu pai quase morreu, meu avô morreu”, diz o Duque de Edimburgo, um tanto preocupado com o fato de a Coroa britânica não dar muita atenção à opinião pública e que isso poderia ser perigoso.

Ele sabia do que falava, já que é grego – e sentiu na pele a ameaça à família real de seu país. O avô, Jorge I, foi assassinado em 1913. O tio, Constantino I, o sucedeu e entrou em choque com o primeiro-ministro, Eleutherius Venizelos, o que provocou a entrada do país na Primeira Guerra.

Constantino fugiu, voltou ao trono e, ufa, foi forçado a abdicar, em 1922, quando Philip tinha 1 ano. Já o pai do bebê, Andrew, foi preso e depois expulso do país.

A Grécia se tornou uma república em 1924, voltou a ser monarquia antes da Segunda Guerra, sofreu um golpe militar em 1967 e, seis anos depois, deixou de ser monarquia de uma vez.

Assim, Philip cresceu longe de seu país natal – ele nem fala grego. Teve uma infância infeliz (a mãe terminou em uma clínica psiquiátrica quando ele ainda era pequeno), e levou esses traumas adiantes, para alertar sua esposa e rainha de que nenhuma monarquia era livre de ameaças.

2 – O nevoeiro de 1952

Como o episódio deixa claro, a grande névoa que cobriu Londres com grossas camadas de poluição em dezembro de 1952 de fato existiu, mas foi menos dramática que na série.

O primeiro-ministro, Winston Churchill, não perdeu a secretária que nutria uma paixonite por ele, mas foi tristemente atropelada porque não se enxergava um palmo à frente.

O nevoeiro também não causou uma semicrise política nem um surto de pânico geral, porque os londrinos já estavam acostumados com neblina e poluição – por isso mesmo o evento demorou para ser sentido e acabou tendo efeitos devastadores.

De fato, algo entre 6 e 12 mil pessoas morreram, e políticas mais agressivas de combate à poluição surgiram a partir disso.

3 – Rodésia

Uma das colônias britânicas mais mencionadas nessa primeira temporada é o país que hoje chamamos de Zimbábue. O Reino Unido estabeleceu um protetorado, em 1889, na região, que era dividida em Rodésia do Norte (a atual Zâmbia) e Rodésia do Sul (que depois seria apenas Rodésia e, por fim, Zimbábue).

Em 1953, as Rodésias e Niassalândia (outro que mudou de nome: Malauí) formaram uma federação, que durou até os anos 60, quando os três países iniciaram o caminho para a independência.

Ou seja, no período retratado na série, essas colônias africanas não eram lá uma grande fonte de estresse em Londres. Diferentemente do próximo tópico…

4 – Egito

Em 1952, ano em que Elizabeth II assumiu o trono (a coroação propriamente dita foi apenas em 1953), o Egito era uma monarquia, independente do Reino Unido desde 1922.

Mas a presença e influência britânica continuaram enormes nas décadas seguintes. Os ingleses ocupavam a zona do Canal de Suez e lutaram em solo egípcio contra alemães e italianos durante a Segunda Guerra.

Nos anos 50, o país estava em crise e bombando de protestos antimonarquistas, até que o coronel Gamal Abdel Nasser e uma cúpula militar depuseram o rei Farouk e instituíram a república.

O coronel aparece no fim da temporada, na tensa visita de Anthony Eden, sucessor de Churchill em Downing Street.

5 – Questão Gibraltar

Em 1954, a rainha visitou Gibraltar, sob alertas do marido e de outras pessoas próximas de que a viagem era um tanto controversa.

Gibraltar é uma ponta de unha de 6,5 km2 , algo pouco maior que Copacabana, encravada no sudoeste da Espanha e importante por ser a porta de entrada marítima da Europa, no estreito de mesmo nome.

Por isso mesmo os ingleses tomaram esse território em 1704 e não largaram mais. E lá foi Elizabeth II marcar os 250 anos de domínio.

O general Franco, ditador espanhol entre 1936 e 1975, não gostou nem um pouco, e as relações entre os países se deterioraram.

A Espanha tentaria, via ONU, recuperar o território nos anos 60, mas Gibraltar preferiu permanecer sob tutela britânica. A questão voltou à tona em 2016, com o Brexit.

A saída do Reino Unido da União Europeia pode significar grandes perdas para os 30 mil habitantes de Gibraltar, que pode chegar a um acordo próprio com o bloco.

Além disso, não faltaram espanhóis para clamar a “salvação” da península ao anexá-la de volta, mantendo-a assim na UE.

6 – O fim do império

“Olha a situação na Índia. Há 20 anos governávamos um quinto do mundo”, diz Philip em dado momento a Elizabeth. A partilha da “joia da coroa” resultou em dois novos países em 1947, Índia e Paquistão, que logo entraram em guerra entre si pelo controle da Caxemira, região no Himalaia de maioria muçulmana, como o Paquistão. Na conversa, eles citam ainda outras ex-colônias:

África do Sul – Em 1910, surgiu a União da África do Sul, estado fiel à Coroa, que só teve governo próprio a partir de 1931.

Birmânia – Ocupada pelos ingleses desde o século 19, foi invadida pelos japoneses da Segunda Guerra, o que aflorou sentimentos nacionalistas. Em 1948, o país conquistou a independência e, em 1989, mudou para o nome atual, Mianmar.

Ceilão – Explorada por portugueses e holandeses, a ilha no Índico foi incorporada ao Império Britânico em 1833. A independência veio em 1948, quando o novo país também ganhou um novo nome, Sri Lanka.

Jordânia – Ao final da Primeira Guerra, o Império Turco-Otomano foi para o beleléu, e ingleses e franceses incorporaram seus territórios na Península Arábica.

Em 1920, a região a leste do Rio Jordão virou um emirado, que proclamou independência em 1923, mas só a atingiu plenamente em 1946.

Em 1948, o mandato britânico na Palestina acabou, e a Transjordânia, com outros países árabes, invadiu o recém-criado Estado de Israel. Mesmo derrotada, a Jordânia encolheu o nome, mas aumentou o território. Em 1951, o rei foi assassinado por um radical. No ano seguinte, o mesmo da posse de Elizabeth II, o novo rei foi deposto.

Iraque – Nasceu em 1920 das cinzas dos otomanos. No ano seguinte, o Reino Unido assumiu a tutela do país, que entrou na Liga das Nações, a ONU do tempo do guaraná com rolha, com status de independente em 1932.

Mas era um “independente” pra inglês ver. Literalmente. Os britânicos controlavam ainda o governo e tinham direitos exclusivos sobre o petróleo. Em 1958, um golpe derrubou a monarquia e instaurou um regime nacionalista.

O império “onde o Sol jamais se põe” ainda daria adeus a muitas colônias nas décadas seguintes, o que esperamos ver nas próximas temporadas – com a rainha-mãe acompanhando tudo ao lado de seus copos de gim com Dubonnet.

Essa matéria foi originalmente publicada na Superinteressante.