Guerra contra drogas nas Filipinas faz primeiras vítimas de 2017

A maioria das "mortes sob investigação"ocorre pelas mãos dos "vigilantes", justiceiros que combatem supostos usuários de drogas e narcotraficantes

Manila – Após uma breve pausa no Ano Novo, o sangue voltou a correr nas Filipinas, principalmente nos bairros mais pobres, onde as balas fizeram novas vítimas em plena cruzada do presidente Rodrigo Duterte para eliminar as drogas a qualquer custo.

Um rio de esgoto divide o “barangay” (como se chamam os bairros nas Filipinas) 132 da cidade de Pasay, na região metropolitana de Manila, e impregna a área com um cheiro irrespirável à meia-noite de terça-feira; em ambos os lados há barracos, e na porta de um deles está o cadáver ensanguentado de Antonio Perez, de 33 anos, mecânico de profissão.

Mari Luz, de 36, vivia com ele há dois anos nesta casa improvisada com chapas de madeira de menos de quatro metros quadrados e de teto tão baixo que não permite ficar de pé. Seus gritos desesperados rompem o silêncio da madrugada à espera do legista para recolher o corpo.

Três tiros nas costas acabaram com a vida de Antonio. “Não sabemos quem fez isso”, comenta um agente, enquanto mostra um relatório preliminar escrito à mão: “objetos encontrados na cena do crime: cápsula de projétil calibre 45 e papelote de ‘shabu’ (metanfetamina)”.

O caso engrossa lista das “mortes sob investigação”, aproximadamente metade das mais de 6.100 execuções extrajudiciais provocadas até o momento pela “guerra contra as drogas” iniciada por Duterte em junho do ano passado.

A maioria das “mortes sob investigação”, que paradoxalmente quase nunca acabam sendo investigadas, ocorre pelas mãos dos “vigilantes”, justiceiros que combatem supostos usuários de drogas e narcotraficantes aproveitando o clima de impunidade no país.

Os vigilantes costumam embalar os corpos de suas vítimas com fita isolante e colar cartazes com frases como “Eu era traficante, não siga meu exemplo”. No caso de Antonio não tiveram tempo; a delegacia fica a apenas 300 metros de distância.

Duterte venceu as eleições presidenciais em maio do ano passado com a promessa de eliminar o problema das drogas nos seus primeiros seis meses de mandato – mais tarde prorrogou para 12 – e convocou em várias ocasiões agentes e cidadãos a assassinar narcotraficantes e usuários de drogas.

Outras execuções da “guerra contra as drogas”, menos da metade, são cometidas pelos policiais, que têm a permissão de atirar para matar se considerarem que o suspeito impõe resistência.

Este é o caso de dois jovens – pequenos narcotraficantes, segundo o relatório policial – que nessa mesma noite, encorajados pelo efeito do “shabu”, invadiram um lava-jato próximo para roubar aparelhos eletrônicos.

Os agentes, que esperavam na porta do estabelecimento, puxaram o gatilho sem perguntar, segundo a imprensa local.

Enquanto isso, no “barangay” 132, após silenciados os gritos de sua companheira, o barraco caindo aos pedaços de Antonio permanece aberto. Há um maço de cigarros, roupa suja, dois ventiladores e um lençol, tudo impregnado de sangue.

Os vizinhos se recolhem em suas pequenas casas e somente María, uma mulher de 62 anos e olhos assustados, está disposta a falar.

“Neste ‘barangay’ há muitos problemas com as drogas. Há pouco um viciado em ‘shabu’ manteve sua filha pequena com uma faca no pescoço durante horas e a polícia teve que intervir”, relata.

Duterte, que em dezembro pediu desculpas pelas vidas de inocentes perdidas em sua campanha particular, defende que os fins justificam os meios; que não é problema acabar com milhares de vidas de forma mais ou menos arbitrária se isso for salvar 100 milhões de filipinos das drogas e crimes relacionados.

Os cidadãos não parecem se importar tanto com a crueldade de seu presidente – 85% da população apoia a “guerra contra as drogas” – como os Estados Unidos, a União Europeia e organizações internacionais, que nos últimos meses apresentaram várias queixas e denúncias por violações dos direitos humanos.

“Sou o presidente de um país soberano e não responderei a ninguém além do povo filipino”, advertiu Duterte em setembro do ano passado em referência ao presidente americano, Barack Obama, segundos antes de chamá-lo “filho da p…” no mais polêmico dos vários excessos verbais do excêntrico líder asiático. EFE