Guarda-costeira italiana teve 2016 como ano de recordes

Novas táticas dos traficantes de pessoas modificaram os trabalhos neste ano, com uma alta de 40% do número de embarcações resgatadas

Cerca de 180.000 migrantes resgatados, dias de trabalho sem precedentes e, apesar de seus esforços, milhares de mortos: 2016 foi o ano de todos os recordes para a guarda-costeira italiana.

Uma fila de telefones vermelhos, paredes cobertas de telas gigantes com mapas marítimos… Nesta sala de um frio edifício ministerial do sul de Roma, a guarda-costeira coordena todas as operações de resgate diante da costa da Líbia.

“Assim que alguém pede socorro, nos tornamos maestros” que utilizam como instrumentos mais ou menos solícitos todos os barcos presentes na região – guarda-costeira, militares, humanitários ou comerciais -, explica seu porta-voz, Filippo Marini.

Na penumbra deste centro operacional, os pedidos de ajuda têm uma aparência virtual, reduzidos a pontos nas telas.

Mas os olhares angustiados, as mãos desesperadas batendo na água, os rostos paralisados pelo medo ou pelo frio não estão distantes: basta olhar as imagens divulgadas sem parar em outa tela no corredor.

Os 11.000 efetivos da guarda-costeira italiana estão espalhados ao longo dos 8.000 quilômetros de costa do país e administram dia a dia a segurança marítima, a proteção dos ecossistemas e o controle da pesca.

40% mais de operações

Sua zona de vigilância engloba cerca de 500.000 km2 ao redor da península e de suas ilhas, mas a incapacidade de seus colegas líbios dá ao Centro de Coordenação de Operações de Salvamento (MRCC) de Roma uma autoridade de fato sobre a maior parte das águas entre Líbia e Itália.

Águas muito movimentadas nos últimos tempos: 170.000 pessoas resgatadas em 2014, 153.000 em 2015 e cerca de 180.000 neste ano, incluindo mais de 4.000 na semana passada, embora a maioria dos barcos de socorristas tenham suspendido suas patrulhas durante o inverno.

E ainda que os números sejam relativamente estáveis, as novas táticas dos traficantes de pessoas modificaram o trabalho da guarda-costeira neste ano, com uma alta de 40% do número de embarcações resgatadas – agora menores – e uma multiplicação das saídas simultâneas.

“Nos últimos seis anos, os traficantes enviavam barcos de maior tamanho, com um telefone por satélite em cada um”, explica Sergio Liardo, chefe do centro operacional. “Agora fazem quatro botes saírem com apenas um telefone”.

O bote que leva o telefone pode ser encontrado de forma bastante simples, mas isso não acontece com os outros três. E estas embarcações se desinflam e fazem a água entrar rapidamente, enquanto os migrantes que se espremem a bordo enfrentam os perigos da hipotermia e das emanações de combustível, com corpos debilitados por suas penosas condições de vida na Líbia.

Mais de 4.800 migrantes morreram ou desapareceram no Mediterrâneo neste ano.

“Uma questão de humanidade”

As ONGs expressam frequentemente seu temor diante da possibilidade de que algumas embarcações afundem sem deixar rastros, já que encontrar um bote no mar é um verdadeiro desafio.

Neste ano foram registradas várias saídas em massa. Mais de 13.000 pessoas resgatadas em uma semana em maio, 14.000 em cinco dias no fim de agosto, incluindo o recorde absoluto em um dia: 7.000 migrantes no dia 29 de agosto.

Na Itália, onde a rede de centros de acolhida está quase saturada, estes números geram descontentamento, sobretudo nas fileiras do antissistema Movimento 5 Estrelas e da xenófoba Liga Norte, que insistem que a Itália não está em condições de acolher estes estrangeiros resgatados a 30 milhas da Líbia.

Segundo os números que Roma enviou a Bruxelas, os resgates custaram 1,5 bilhão de euros neste ano, aos quais é preciso somar 2,3 bilhões para o acolhimento dos demandantes de asilo.

Alguns esforços europeus para formar a guarda-costeira líbia ou colaborar com países de trânsito dos migrantes, como Níger, podem reduzir os fluxos migratórios, mas o centro operacional de Roma permanece alerta, não importa o que aconteça.

“Temos a obrigação de não deixar estas pessoas morrerem. Se não fizéssemos isso, teríamos que responder ante a justiça”, afirmou Marini. “E, além disso, é uma questão de humanidade”.