Estradas da Índia têm uma morte a cada cinco minutos

País possui as rotas mais fatais do mundo, com 15% do total das mortes no trânsito

Mumbai – O mês passado foi lúgubre nas estradas da Índia.

Um dos melhores programadores de informática do país morreu ao ser atropelado por um carro em alta velocidade. Um policial não conseguiu resistir após, supostamente, ter sido espancado por um motorista enfurecido.

Um membro recentemente nomeado do gabinete do primeiro-ministro Narendra Modi morreu depois de uma batida que o deixou com o fígado perfurado e a coluna fraturada.

As mortes exemplificam o lado negativo da motorização da Índia: o país possui as rotas mais fatais do mundo, com 15 por cento do total das mortes no trânsito e apenas 1 por cento dos veículos motorizados, de acordo com o Banco Mundial.

Motoristas destreinados, falta de aplicação das leis de trânsito e estradas mal projetadas estão atiçando o surto de mortes.

Uma pessoa morre a cada cinco minutos nas estradas da Índia, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, e esse número deve aumentar para uma a cada três minutos até 2020.

“Nem os ricos e poderosos nem os pobres podem escapar à fúria das nossas estradas assassinas”, disse Anumita Roychowdhury, diretora executiva do Centro pela Ciência e pelo Meio Ambiente em Nova Délhi, em entrevista por telefone.

Os dados mais recentes disponíveis são de 2012, quando 138.258 pessoas morreram em acidentes de trânsito na Índia, que contava com 159,5 milhões de veículos registrados, de acordo com o Ministério dos Transportes e Rodovias.

Isso equivale a mais de quatro vezes as 33.561 mortes ocorridas nos EUA, com aproximadamente 100 milhões a mais de veículos registrados que a Índia.

A situação está piorando à medida que mais pessoas compram carros. A quantidade de veículos leves vendida anualmente na Índia deve aumentar de 2,93 milhões em 2013 para 7 milhões em 2020, de acordo com a prognosticadora LMC Automotive.

Padrões opcionais

A infraestrutura da Índia aumenta os riscos.

Grande parte das rodovias do país são estradas com duas faixas e não possuem passarelas ou túneis para pedestres nem acessos para o tráfego local, de acordo com Dinesh Mohan, do Programa de Pesquisa de Transporte e Prevenção de Lesões no Instituto Indiano de Tecnologia em Délhi.

Os padrões dos projetos de rodovias não são obrigatórios, e ninguém supervisiona o cumprimento deles, disse.

Um projeto de lei para criar um conselho semelhante à Administração Nacional de Segurança no Tráfego Rodoviário (NHTSA), dos EUA, que recomendaria padrões para as rodovias e a segurança dos veículos, além de realizar auditorias, prescreveu após permanecer estagnado durante quatro anos no parlamento da Índia.

Como resultado, a Índia não conta com profissionais no governo que supervisionem a segurança rodoviária, disse Mohan.

O Ministério dos Transportes e Rodovias da Índia está preocupado com o crescente número de mortes nas estradas do país e trabalhará em conjunto com os governos estaduais para modificar a lei relativa aos veículos automotores, disse K. Syama Prasad, porta-voz do Ministério, por e-mail.

Os detalhes sobre o projeto de lei, incluindo medidas punitivas, estão sendo definidos, disse ele.

Sem teste

B.K. Upadhayay, um dos comissários da polícia de trânsito em Mumbai, a cidade mais populosa da Índia, disse que o governo precisa aplicar penas pesadas para as infrações de trânsito.

Obter uma carteira de motorista também precisa ser mais difícil, disse ele.

As multas de trânsito na Índia muitas vezes são resolvidas com subornos, de acordo com S.P. Singh, membro sênior da Fundação Indiana de Pesquisa e Treinamento para Transporte em Nova Délhi.

Numa visita recente à Secretaria Central de Transporte Rodoviário de Mumbai, diversos homens diziam a possíveis clientes que eles poderiam obter uma carteira de motorista por menos de 2.200 rúpias (US$ 36), sem precisar fazer a prova.

A pista de teste, uma parte necessária do processo para obter a habilitação, estava vazia.

Agressividade no trânsito

A onda de mortes no trânsito demonstra uma “desconsideração absoluta da lei”, disse Singh da Fundação Indiana de Pesquisa e Treinamento para Transporte.

“As pessoas fazem o que querem nas estradas porque não têm medo de serem pegas, e, mesmo se forem, elas podem se livrar com um suborno”, disse Singh. “Precisamos tanto encaminhar bem as pessoas quanto instilar o medo da lei”.