Como a Espanha diminuiu 82% das mortes no trânsito

Espanha apresentou em Brasília o modelo que lhe levou a reduzir as mortes em acidentes de trânsito em 82% desde 1989

Brasília – A Espanha apresentou nesta terça-feira em Brasília, às vésperas da 2ª Conferência Global sobre Segurança Viária, o modelo que lhe levou a reduzir as mortes em acidentes de trânsito em 82% desde 1989 e a ostentar uma das menores taxas de casos fatais no mundo.

A conferência, apoiada pelas Nações Unidas, reunirá na capital brasileira delegações de 140 países que, durante dois dias, analisarão alternativas para reduzir as 1,2 milhão de mortes que os acidentes de trânsito causam a cada ano no mundo.

Nesse sentido, a Espanha é um dos países que mais têm a contribuir, graças a uma experiência que permitiu reduzir a quantidade de mortos em acidentes associados ao trânsito em 82% desde 1989, para situá-la em 1.668 casos no ano passado.

“Agora temos que ser ambiciosos e nos propor a chegar a uma taxa de mortalidade zero”, declarou a titular da Direção Geral de Tráfego (DGT) da Espanha, María Seguí Gómez, em uma atividade prévia à reunião da ONU realizada na sede do Instituto Cervantes em Brasília.

A Espanha se situa hoje entre os dez países com menores índices de acidentes fatais no mundo e é o quinto na Europa, atrás apenas de Suécia, Reino Unido, Holanda e Dinamarca, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Estamos abaixo da média mundial e também da média europeia”, ressaltou Gómez.

“A Espanha chega à conferência com os deveres feitos e uma boa nota”, apontou, ao assinalar que eu país já alcançou a meta de redução de acidentes mortais traçada para 2020.

Os segredos para essa “poupança” de vidas são “simples” e, segundo disse Gómez, não passam por “inventar a roda”, mas por aplicar políticas públicas eficazes e controles rigorosos, acompanhados de campanhas de educação e prevenção permanentes, infraestruturas de qualidade e ferramentas informáticas que ajudem na fiscalização.

Nesse sentido, enumerou alguns pontos do caminho recorrido pela Espanha até os números atuais e citou em primeiro lugar o ingresso de seu país à União Europeia (UE), há três décadas, que o obrigou a adaptar a legislação nacional a novas normativas de segurança.

Também destacou o fortalecimento das instituições associadas ao trânsito, a informatização dos sistemas de fiscalização e, sobretudo, a modernização e reforma da rede de estradas do país.

Essas medidas, segundo Gómez, constituem “um todo” e devem ser aplicadas de forma simultânea para conseguir conscientizar às sociedades e “mudar censos de conduta”.

A titular da DGT ressaltou que essas medidas foram eficazes para controlar o tráfego dos 46 milhões de espanhóis, mas também dos cerca de 65 milhões de turistas que o país recebe a cada ano e que também circulam de forma permanente por toda sua rede viária.

No marco das atividades prévias à Conferência Global, a Fundação Mapfre apresentou hoje em Brasília um relatório sobre a situação em alguns países da América Latina, elaborado junto com a Federação Ibero-Americana de Associações de Vítimas contra a Violência Viária (FICVI).

O estudo se centrou nos casos de Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Espanha, México, Panamá, Paraguai, Portugal, Uruguai e Venezuela, países nos quais sustenta que “a falta de medidas preventivas e de políticas eficazes continua sendo o principal impedimento para diminuir a taxa de acidentes”.

Em todos os casos são países de renda média e alta, nos quais o relatório diz que há “um elevado número de leis e normas”, mas “que não são aplicadas”, assim como são realizadas muitas “investigações” em relação ao trânsito, mas “não se derivam em boas práticas”.

Também assinala que “em muitos países da região a confiabilidade dos dados continua sendo muito deficiente” e aponta que “só o conhecimento real do que ocorre no trânsito permite encontrar soluções”.

O relatório sustenta, além disso, que “o sistema judiciário carece de meios e é lento”, as leis “não são aplicadas”, o que gera uma “sensação de impunidade” e faz com que a sociedade “nem sempre perceba o risco e não veja o acidente de trânsito como um crime”.

Como exemplo, cita que em muitos países da América Latina “não há uma reprovação social contra condutas temerárias, como dirigir com uma alta taxa de alcoolemia”.