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Última atualização 26/05/2017 - 17:20 FONTE

Em meio à guerra de Aleppo, um casal sobrevive no front

A casa de Najah, de 65 anos, e Mohamed Hantay, de 82, se localiza em uma via conhecida como "rua da morte", no centro da cidade

No front de Aleppo, Najah e seu marido ainda não acreditam que os violentos combates travados entre o regime sírio e os rebeldes desde 2012 tenham terminado em seu bairro, recém-conquistado pelo exército.

A casa de Najah, de 65 anos, e Mohamed Hantay, de 82, se localiza em uma via conhecida como “rua da morte”, no centro da segunda cidade da Síria.

Situada entre o bairro de Midan, controlado pelo regime, e a parte de Bustan al-Basha, nas mãos dos rebeldes, o local foi cenário dos piores combates entre os dois grupos rivais.

O exército reconquistou seu bairro, mas o casal ainda treme de medo ao se lembrar dos franco-atiradores, dos bombardeios e da fome que os atingia.

“Estávamos no front (…) Éramos alvos de tiros daqui e de lá”, explica Najah, apontando com as mãos para a origem dos tiros.

‘Esperávamos a libertação’

Em sua rua, a maioria dos imóveis desabaram, e as calçadas estão cobertas de destroços. A fumaça dos incêndios escureceu as paredes e as antenas estão cheias de marcas de tiros.

“Estávamos entre dois fogos, mas sobrevivemos”, afirma Najah, enquanto termina de limpar sua pequena casa no primeiro andar de um edifício.

Durante a noite, seu maior temor era que a estante situada sobre sua cama caísse nela.

“Todos os dias um morteiro caía (muito perto) e as portas quebravam. Esperávamos a libertação”, conta Najah, que usa um véu branco com bolinhas pretas, um casaco e um vestido azul.

“Não podíamos nos mover e ninguém se interessava por nós”.

Como muitos habitantes de Aleppo, o casal levava uma vida tranquila antes que a guerra atingisse a cidade, em 2012, um ano depois do início da revolta em outras zonas da Síria.

“Repentinamente ficamos presos entre duas posições”, afirmou Mohamed, que veste várias camisas para se proteger do frio.

Para piorar a situação, a guerra os separou de sua família, já que a casa de seu filho e de seus seis netos ficou na zona rebelde.

Mohamed, que trabalhou como taxista por 60 anos e gastou suas economias para mobiliar a casa, se negou a abandoná-la.

“Comer plantas”

“Não ficamos apenas para proteger nossas coisas”, afirma sua esposa. “Tínhamos esperança de que a situação não duraria para sempre”.

Mas o pior era a escassez de alimentos em uma zona que o exército cerca desde meados de 2016. O casal não conseguia arranjar comida por culpa dos combates.

“Saíamos muito pouco. Consumimos o que havíamos armazenado em casa até que nossas reservas se esgotaram”, explica Najah.

Precisaram “comer ervas” que haviam plantado, às quais colocavam um pouco de sal para “dar sabor”.

Na residência do casal, as noites demoram a passar e são tristes.

Diante do avanço do exército, seu filho levou a família para outra região, e agora o casal não tem mais notícias dele.

“Ao cair da noite só lembramos dos tempos em que a família estava unida”, lamenta Najah.