EL aproveita ataques em seu nome, dizem especialistas

O grupo se refere aos autores como seus "combatentes", sem especificar qual é a natureza dos vínculos que os unem à organização extremista

O grupo Estado Islâmico (EI) reivindicou vários ataques recentes em países ocidentais – que pode ter inspirado, mas que é pouco provável que os tenha planejado a partir do Iraque e da Síria -, com a intenção de semear medo e ocultar seu retrocesso em terra, dizem especialistas.

O massacre em Nice ou o ataque com um machado contra os passageiros de um trem na Alemanha “ajudam a criar um clima de medo e reforçam a ideia de que o EI está na ofensiva, apesar de suas perdas de território” no Iraque e na Síria, explicou à AFP Aymenn al Tamimi, especialista em jihadismo do centro de estudos americano Middle East Forum.

“Mas a forma pela qual o EI reivindicou estes ataques sugere uma ausência de envolvimento operacional direto”, acrescentou.

A agência Amaq, um de seus órgãos de propaganda, explicou que o ataque na Alemanha havia sido lançado “em resposta ao seus apelos a atingir os países da coalizão” que luta contra a organização no Iraque e na Síria.

Esta linguagem é quase a mesma que usou para reivindicar o massacre em Nice cometido por um tunisiano de 31 anos que avançou com seu caminhão contra uma multidão durante a celebração da festa nacional da França.

O grupo se refere aos autores como seus “combatentes”, sem especificar qual é a natureza dos vínculos que os unem à organização extremista.

Em 2014, o porta-voz oficial do grupo, Abu Mohamed Al Adnani, pediu que seus simpatizantes utilizem qualquer meio disponível, como veículos, para matar infiéis americanos e europeus.

Como parte de sua estratégia, o grupo inunda as redes sociais com textos, fotos e vídeos nos quais elogia este tipo de ações violentas.

“Imprevisíveis”

Para o grupo, esta estratégia oferece muitos benefícios a um baixo custo, já que estes ataques não precisam de um longo planejamento e sua eficácia é máxima.

Por sua vez, para as autoridades, “são mais difíceis de evitar, já que são mais imprevisíveis”, destacou Tamimi.

O investigador Will McCants, especialista em movimentos jihadistas do centro de estudos Brookings Institution, com sede em Washington, explicou que os ataques inspirados no grupo são muito difíceis de parar devido à falta de vínculos operacionais com a organização.

“Além disso, criam mais paranoia que os ataques cometidos diretamente”, já que “o atacante pode ser qualquer um”.

O EI teve que se adaptar às dificuldades que encontra em terra no Iraque e na Síria, onde seus comandantes de alto escalão precisam se esconder e agir da maneira mais discreta possível para evitar ser detectados e ser alvos dos bombardeios da coalizão liderada pelos Estados Unidos, que em dois anos lançou cerca de 14.000 bombardeios na zona.

Segundo Washington, o EI perdeu 50% de seu território no Iraque e entre 20% e 30% das zonas que controlava na Síria em relação a 2014.

No entanto, o grupo “não perdeu a capacidade de realizar ataques oportunistas”, destacou Michael Weiss, do centro Atlantic Council.

Neste contexto, a propaganda cria o contexto ideal para incitar ataques de indivíduos com problemas psicológicos ou propensos a ter impulsos violentos, sem importar se tiveram durante muito tempo vínculos com o extremismo islâmico.

O procurador de Paris, François Molins, descreveu Mohamed Lahouaiej Boulhel como “um indivíduo não religioso, que comia porco, bebia álcool, consumia drogas e mantinha uma vida sexual desenfreada”, mas que “se interessou recentemente pelo jihadismo radical”.

Molins explicou que a propaganda do grupo nas redes sociais tem sua eficácia no fato de que tem como alvo pessoas perturbadas ou indivíduos fascinados com a violência extrema.

Na Alemanha, o ministro do Interior, Thomas de Maiziere, disse que o jovem de 17 anos que cometeu o atentado pode se tratar de um caso no qual o desequilíbrio mental e o terrorismo se misturaram.

No caso do ataque cometido por Omar Mateen, que matou 49 pessoas em uma boate gay na Flórida antes de ser abatido, ele respondia a um perfil de um homem violento, homofóbico, radical, mas alguns testemunhos indicam que utilizava aplicativos para encontros com homossexuais e que também frequentava a boate onde lançou o massacre.