Dunkirk: os acertos e erros do filme de Christopher Nolan

Elogiado por pesquisadores e historiadores, filme mistura fatos reais e ficção, com erros e acertos históricos. Veja aqui o que é o que

São Paulo – Uma derrota colossal dos aliados na Segunda Guerra Mundial que foi habilmente transformada em vitória para os britânicos. É assim que o filme “Dunkirk”, do diretor Christopher Nolan, trata de um dos episódios mais marcantes desse conflito que assolou a Europa entre 1939 e 1945: a Operação Dínamo, também conhecida como “Milagre de Dunquerque”, em que soldados britânicos foram resgatados da costa norte da França.

Na ocasião, maio de 1940, os aliados encontravam-se encurralados nessa região pelos alemães. Milhares de soldados passaram quase dez dias tentando sobreviver aos insistentes ataques da Luftwaffe, a força aérea alemã, enquanto aguardavam resgate do Reino Unido.

Ao fim da operação, que contou com a participação de pequenas embarcações civis, 338.226 homens foram retirados apenas de Dunquerque, mas o total em diferentes pontos da costa francesa eleva esse número para 558 mil.

Em “Dunkirk”, Nolan se propôs a contar a história dessa dramática evacuação sob três perspectivas diferentes (veja aqui a crítica de EXAME sobre o longa) e o resultado é um filme intenso, que leva o espectador para a praia e o faz sentir na pele o drama daqueles que tentavam sobreviver.

Do ponto de vista histórico, pesquisadores vêm elogiando a retratação que o diretor trouxe para as telas e que foi feita com o auxílio do escritor e historiador Joshua Levine, cujo livro “Dunkirk” (já à venda no Brasil) fala sobre os eventos reais que deram base ao filme.

Ainda assim, vale lembrar que muitos dos acontecimentos do filme são ficção, e há acertos e erros históricos. Abaixo, EXAME reuniu alguns desses pontos. Vale notar que as informações abaixo podem ser vistas como spoilers do filme.

Folhetos ameaçadores

Nos minutos iniciais do filme de Nolan, a tensão da história que está por vir é evidente. Enquanto caminhavam pela cidade, esperando chegar até a praia para o resgate, soldados aliados são cobertos por folhetos produzidos pelos nazistas e que alertavam para o fato de que estavam encurralados.

E isso é real: durante a invasão na região, os alemães produziram folhetos em inglês e francês que mostravam o quão séria a situação era para os aliados e incentivava a rendição. No longa, esse folheto é colorido, já na vida real, era preto e branco.

O desespero que leva ao mar aberto

Uma cena marcante de “Dunkirk” e que mostra como a situação naquela praia era de agonia, traz um soldado britânico entrando sozinho e determinado no mar, enfrentando as ondas. Não se sabe se pretendia nadar até o Reino Unido ou tirar a própria vida.

Segundo o livro de Levine, o grau de desespero que a cena traz é real. De acordo com um dos sobreviventes entrevistados por ele, muitos homens correram para o mar em razão da pressão e medo do que viria por trás das dunas de areia, os alemães.

Um caso real foi o de um soldado britânico encontrado nadando já em alto-mar, carregando todo o seu equipamento. Ao ver o bote salva-vidas, ele gritou por ajuda, mas, temendo arriscar a vida de todos os ocupantes, o capitão encarregado dessa embarcação se recusou a dar meia volta para resgatá-lo. Foi deixado para trás.

Tratamento dos franceses

Um ponto que gerou polêmica, especialmente na França, foi a maneira como os franceses foram retratados no filme. Historicamente, o exército exerceu um papel fundamental em terra, segurando os avanços alemães em outros pontos do país durante a evacuação.

Mas, embora Nolan tenha deixado claro que o filme não é sobre a guerra em si, mas sobre a sobrevivência dos soldados, críticos franceses consideraram que o papel de seus compatriotas fora apagado de “Dunkirk”.

Jacques Mandelbaum, do jornal Le Monde, questionou: “Onde estão os 120 mil soldados franceses evacuados? Onde estão os 40 mil que se sacrificaram para defender a cidade contra um inimigo superior em armamentos e números? ”

Outro momento que foi visto com reservas por historiadores foi a cena em que oficiais britânicos impediram soldados franceses de embarcarem, trazendo à tona a sensação de que foram deixados à própria sorte.

O historiador Paul Reed, em entrevista ao veículo France 24, notou que isso poderia fortalecer a propaganda anti-Reino Unido que vigorou na França durante a ocupação alemã e o regime de Vichy, que foi fortemente influenciado pelos nazistas.

“Vichy criou o mito de que os franceses foram abandonados por seus aliados. Mas a verdade é que milhares foram resgatados durante a Operação”, lembrou.

Personagens reais?

O filme está centrado em três perspectivas, cada qual com seus personagens centrais. Não detalha ou aprofunda, no entanto, o olhar de nenhum deles, apesar de existirem registros extensos e relatos de sobreviventes sobre os eventos que aconteceram naquela praia em 1940. Ainda assim, Nolan escolheu construir os personagens, já que a ideia era a de contar a história da evacuação como um todo.

“São personagens fictícios, com nomes fictícios. Não queremos contar a história de ninguém, mas os grandes movimentos retratados são exatos”, disse o diretor em entrevista ao jornal USA Today. “A ficção nos deixa livres para conduzir o espectador para a grande verdade de alguma coisa. E é por essa razão que você escolhe combinar personagens ou inventá-los”, explicou.

Um exemplo dessa composição é o personagem do ator Kenneth Branagh, Comandante Bolton, responsável pela organização da evacuação no Molhe. Na vida real, esse papel foi exercido por James Campbell Clouston. “Ele tinha uma história incrível e não faríamos justiça a ela”, notou o diretor, “espero que aqueles que gostem do filme se interessem em conhecer as histórias reais das pessoas que estiveram lá”.

O papel das embarcações civis

A participação de pequenas embarcações conduzidas por civis britânicos é um dos pontos mais importantes do filme de Nolan. O ator Mark Rylance conduz seu barco com coragem pelo Canal da Mancha e em direção à zona de guerra. O longa deixa, inclusive, a sensação de que foram determinantes para o sucesso da Operação Dínamo.

Essa ênfase, no entanto, está mais inclinada a servir aos fins dramáticos que à realidade. Segundo James Holland, historiador britânico especializado em Segunda Guerra Mundial, essas pequenas embarcações resgataram cerca de 5% do total dos homens na praia. A maior parte dos resgates foram realizados no Molhe e na praia.

O pouso na praia

Foi um dos momentos mais tensos do filme: depois de conseguir abater uma aeronave alemã que tentava bombardear um navio britânico, o personagem do ator Tom Hardy fica sem combustível, pousa na praia e é capturado pelos nazistas. Há tensão durante toda essa cena, já que não se sabia até que ponto os trens de pouso funcionariam adequadamente.

Para Holland, no entanto, na vida real, esse pouso seria uma grande imprudência, já que um piloto treinado saberia que não seria possível precisar como era a superfície da praia, sob risco de os trens de pouso atolarem na areia, fazendo com que a aeronave virasse. “A ação correta em tais circunstâncias seria deslizar de barriga com o trem de pouso para cima”, nota o historiador.