Disputas e traições entre aliados tomam conta da América Latina

Analistas acreditam que alianças oportunistas, corrupção e lideranças militares possam explicar este fenômeno que afeta direita e esquerda por igual

Antes que as séries sobre o poder do Netflix virassem moda, as disputas e traições entre aliados políticos já marcavam há algum tempo a “Realpolitik” na América Latina.

O mais recente episódio abalou o Equador. A ruptura de fato do presidente Lenín Moreno com seu vice, Jorge Glas, suspeito de corrupção, reviveu escândalos que nos últimos anos marcaram países como Brasil, Colômbia e Paraguai.

Mas por que o exercício do poder converte aliados em inimigos?

Com exceção das diferenças entre países, os analistas acreditam que alianças oportunistas, corrupção e lideranças militares possam explicar este fenômeno que afeta direita e esquerda por igual e que supera tramas de ficção como “House of Cards”, ou “Games of Thrones”.

Brasil: aliança precária

A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e seu sucessor, Michel Temer (PMDB), protagonizaram há quase 15 meses uma trama novelesca.

Desgastada pela Operação Lava Jato, que revelou o maior escândalo de corrupção da história do país, Dilma sofreu um processo de impeachment por manipulação das contas públicas, as chamadas “pedaladas fiscais”.

Denunciando ter sido vítima de um golpe, a petista foi destituída e substituída por seu até então vice, Temer, que assumiu a Presidência interinamente até 2018.

Segundo o presidente do think tank americano Inter-American Dialogue, Michael Shifter, o binômio Dilma-Temer é o exemplo de uma “aliança oportunista para ganhar eleições” entre dois políticos com poucas afinidades.

“Quando acontecem as crises, esses acertos demonstram suas falências, porque cada partido da coalizão foi proteger seu próprio interesse políticos, e os vice-presidentes vão aproveitar todas as chances para tomar o poder”, explicou à AFP.

Colômbia: a deslealdade

O ex-presidente colombiano Álvaro Uribe e o atual chefe de Estado Juan Manuel Santos mantêm há anos uma disputa pública.

Em 2010, no final de seu mandato, Uribe promoveu a candidatura à Presidência de seu ex-ministro da Defesa, convencido de que, uma vez no poder, ele prosseguiria sua luta contra as guerrilhas.

As primeiras diferenças não tardaram a aparecer, quando, dias depois de assumir a Presidência, Santos anunciou que restabeleceria as relações com a Venezuela de Hugo Chávez, grande inimigo de Uribe.

A ruptura total se consumou quando Santos iniciou os diálogos de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

“Uribe e Santos encarnam o caso de dois líderes fortes, os caudilhos, que impõem limites a seus sucessores. E, quando estes se afastam e buscam seu próprio caminho, como Santos, terminam em ruptura, em termos de deslealdade e de traição”, afirma o analista político Felipe Burbano, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), com sede em Quito.

Equador: caudilhismo

No Equador, Lénin Moreno afastou Glas das funções para as quais o designou, apesar de a Constituição impedir de destituí-lo. Uma inesperada disputa que dividiu o governo, no poder desde 2007, entre os partidários do atual presidente e os do ex-presidente Rafael Correa.

Como pano de fundo, estão as acusações de corrupção que pesam sobre o vice-presidente, embora a Justiça ainda não o tenha sentenciado em nenhum dos casos.

Para Burbano, o sistema presidencialista imperante na região faz que os partidos e as estruturas de governo se organizem com base em “lideranças muito personalistas” e que a substituição de um pelo outro passe “por uma espécie de assassinato político do antecessor”.

“É o que estamos vendo no Equador, onde, além disso, em pleno vendaval (a construtura brasileira) Odebrecht, a luta contra a corrupção proposta por Moreno implica a luta contra o governo anterior”, destaca.

Paraguai: atalho para o poder

Um processo de impeachment às pressas no Congresso tirou do poder no Paraguai o ex-bispo de esquerda Fernando Lugo, em junho de 2012, e colocou em seu lugar seu vice Federico Franco, de centro-direita, seu companheiro de chapa na Aliança Patriótica para a Mudança.

Em uma jogada para “frear o bolivarianismo”, o partido de Franco retirou o apoio de Lugo no Congresso, que o destituiu “por mau desempenho de suas funções” após a matança de policiais e de agricultores. Com isso, ganhou o repúdio unânime da esquerda latino-americana.

“É o caso do aliado que achava não ter sido suficientemente levado em conta e rompe a aliança, se servindo da letra da Constituição para chegar à Presidência por um atalho”, opina o analista Gabriel Puricelli, do centro de estudos Laboratório de Políticas Públicas.

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