Como os americanos enxergam a demissão de Comey por Trump

Levantamento do Instituto Gallup mostra que episódio, embora controverso, não impactou o índice de aprovação de Trump, que permanece em 41%

São Paulo – A demissão de James Comey, então diretor do FBI, pelo presidente Donald Trump não foi bem vista pela maioria dos americanos. É o que mostrou um levantamento conduzido pelo Instituto Gallup de pesquisas conduzido entre 10 e 11 de maio, dias depois do surpreendente anúncio da dispensa.

De acordo com a consulta, 46% dos americanos reprova a demissão de Comey, enquanto 39% aprova a decisão do presidente republicano. 15% dos entrevistados disse não ter uma opinião sobre o tema.

Embora note que a maioria dos cidadãos se posicione de modo desfavorável sobre a demissão de Comey, a Gallup lembra que o episódio não impactou o índice de aprovação de Trump, que segue em 41%.

Quando se olha para a opinião de republicanos e democratas, os números mostram o quanto esses grupos estão em lados opostos nessa polêmica: 79% dos primeiros se posicionaram favoravelmente, enquanto 78% dos democratas foram contra.

Entre os independentes, nota-se uma tendência de alinhamento com os democratas, uma vez que 45% deles reprovou o ato de Trump. Esse grupo também reúne a maioria das pessoas que disse não ter uma opinião, 24%.

Trump x Clinton

A pesquisa conduzida pelo Gallup fez ainda uma comparação com outro momento histórico polêmico da política americana, quando o então presidente Bill Clinton agiu similarmente ao demitir William Sessions do posto de diretor do FBI em 1993.

Na ocasião, 44% dos americanos disse aprovar a dispensa, contra 24% que se manifestou contra a decisão do presidente democrata. A aprovação de Clinton estava no mesmo patamar que a observada atualmente por Trump, em 41%.

Os republicanos ficaram divididos nesse tema: 34% deles reprovou e 34% aprovou o ato. 57% dos democratas apoiou a decisão de Clinton, assim como 42% dos independentes.

A diferença de opinião em casos aparentemente semelhantes, explica a entidade, pode ser explicada pelo contexto de cada uma dessas demissões. “A demissão de Comey foi muito mais controversa”, notou o Instituto, especialmente por conta da confusão causada pela Casa Branca sobre as razões da dispensa.

Primeiro, a Casa Branca alegou tê-lo demitido por recomendação do procurador-geral, que criticou a atuação de Comey no caso dos e-mails de Hillary Clinton. Depois, afirmou que ele havia perdido a confiança de sua equipe e, por fim, disse que a investigação do FBI sobre a ligação da campanha de Trump com a Rússia visava descreditar a vitória republicana.

Já no caso de Clinton, a entidade percebe que as razões por trás da demissão de Sessions despertaram menos paixões partidárias, uma vez que a dispensa do então diretor foi baseada em um relatório do Departamento de Justiça. O documento questionava a ética da autoridade em temas fiscais e levantava dúvidas sobre um possível mau uso de propriedades do governo.

Impeachment

A controvérsia gerada pela demissão de Comey pode não ter afetado diretamente a popularidade de Trump, mas parece ter dividido os americanos sobre um possível processo de impeachment.

Outra pesquisa, essa conduzida pela empresa Public Policy Polling, aponta que 48% dos americanos querem o início de um processo de impeachment contra o presidente em razão do episódio ante 41% que se opõem ao julgamento político de Trump. Apenas 43% dos entrevistados acreditam que o presidente irá finalizar o seu mandato.

Repercussão

A demissão de Comey aconteceu na semana passada e gerou comparações com o escândalo de “Watergate”, que culminou com a renúncia de Richard Nixon em 1972. Apesar das tentativas da Casa Branca de explicar o caso, ele segue esquentando com a revelação de novos detalhes.

A polêmica não dá sinais de que será esquecida tão cedo pela imprensa americana e membros do Congresso, que agora pedem a abertura de uma investigação independente sobre os laços da campanha de Trump com a Rússia.

Nesta semana, outros dois episódios contribuíram para tornar o clima na Casa Branca ainda mais pesado. Na segunda-feira, o jornal The Washington Post revelou que Trump teria disponibilizado informações sigilosas durante encontro com autoridades russas. A Casa Branca nega e até Vladimir Putin, presidente russo, se envolveu dizendo estar pronto para liberar a transcrição dessa reunião.

Ontem, terça-feira, foi a vez de o The New Times, que divulgou um memorando escrito por Comey no qual relatava que Trump teria pedido que encerrasse a investigação sobre Michael Flynn, ex-conselheiro de segurança nacional do governo. Flynn demitido por ter escondido a dimensão de sua relação com o embaixador da Rússia nos Estados Unidos, Sergei Kislyak.