Como o Japão se recuperará de seu maior desastre

Poupança interna, empréstimos no exterior e emissão de novos títulos deverão financiar a reconstrução da 3ª maior economia do mundo

São Paulo – Poucos países do globo enfrentaram tantos desastres quanto o Japão. Mais de vinte terremotos, uma grande guerra e duas bombas atômicas em menos de cem anos não conseguiram tirar o país do mapa das potências mundiais. E, ao que tudo indica, o terremoto e o tsunami que atingiram o arquipélago nesta sexta-feira também não conseguirão. Com um Produto Interno Bruto (PIB) de cinco trilhões de dólares – uma geração de riqueza surpreendente para um país com singelos 377 mil quilômetros quadrados de extensão, um pouco maior que o estado de São Paulo –, uma poupança interna de 5% do PIB e reservas internacionais que atingem 1 trilhão de dólares, é difícil imaginar que a nação não consiga se reerguer, ainda que muitos analistas acreditem em recessão pelos próximos dois ou três trimestres. Economistas especializados em Ásia e investidores já traçaram cenários para a recuperação no médio e longo prazo e as perspectivas não são assim tão pessimistas.

Segundo o banco suíço UBS, o impacto financeiro dessa tragédia pode chegar a 30 bilhões de dólares. Desse total, uma parte significativa das perdas está na infraestrutura das áreas atingidas, como estradas, pontes, portos e aeroportos – que deverão ser completamente reconstruídos pelo estado japonês. Outra parcela, que se refere às perdas do setor privado, deverá ser financiada pelos prêmios pagos pelas seguradoras. As ações das principais empresas desse setor, como Swiss RE e Munich RE, chegaram a cair até 5% na tarde de sexta feira, devido aos valores que elas terão de desembolsar para a reconstrução.

A grande questão que coloca o Japão em atenção é como o governo japonês financiará a parte que lhe cabe desta tragédia, quando ele tem justamente a maior dívida pública entre todos os países do globo – o equivalente a cerca de 200% do PIB. E a resposta, segundo analistas ouvidos pelo site de VEJA, é que as alternativas são inúmeras. E todas, necessariamente, convergem para um denominador comum: a população japonesa.

Aumento da dívida pública – Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, cuja poupança privada – ou seja, o dinheiro investido por pessoas e empresas – está extremamente vinculada ao mercado especulativo e ao ativos de renda variável (como ações), o Japão é notório por seu conservadorismo. Grande parte dos investimentos dos japoneses são em títulos da própria dívida do governo, chamados de Japan Government Bonds (JGB). Para se ter uma ideia, enquanto os maiores investidores dos títulos do governo americano são os chineses, no caso do Japão, cerca de 95% dos títulos estão nas mãos de investidores do próprio país. Isso faz com que a população seja a grande financiadora da dívida japonesa.

Ou seja, caso o país emita novos títulos para captar recursos para a reconstrução, tais papeis deverão ser absorvidos pelos próprios japoneses. “Isso significa que a exposição do governo a credores internacionais é muito limitada, o que faz com que o mercado para títulos da dívida não seja susceptível ao apetite por risco dos investidores internacionais”, explica um relatório da Economist Intelligence Unit. Desta forma, além de ‘nacionalizados’, os títulos também são estáveis e avessos à especulação – mesmo porque, sua rentabilidade (de 1,5% ao ano) é baixa se comparada aos títulos do governo americano (que rendem cerca de 3,5%), e irrisória ante aos do Brasil, cujos retornos podem chegar a 12% ao ano.

Pela lógica, um aumento da dívida não seria bem visto pelo mercado, levando em consideração que isso pioraria ainda mais a situação fiscal do Japão. No entanto, nem mesmo diante dessa perspectiva, as agências de classificação de risco reduziram o rating do país. Um sinal de que o mercado não só acredita na capacidade da economia japonesa de se reerguer, como também de honrar os compromissos de sua dívida. “Um país com um governo tão rico deverá conseguir cobrir um desastre natural como esse”, afirmou ao site de VEJA o analista Thomas Byrne, da agência de rating Moody’s. Segundo Byrne, mesmo ainda não havendo uma avaliação concreta dos estragos, a entidade acredita que os gastos para a reconstrução serão temporários e não deverão afetar o perfil de risco do país no médio prazo.

Captações no exterior – Ao manter a mesma classificação de risco de crédito (de Aa2), o Japão não deverá ter dificuldades em obter empréstimos no mercado internacional para financiar a infraestrutura afetada. No entanto, tal ato contraria completamente a política anti-endividamento externo adotada pelo governo japonês ao longo das décadas. O mais provável, segundo analistas, é que o país venda alguns dos milhares de títulos do tesouro americano que possui para se capitalizar. Vale lembrar que, depois da China, o Japão é o maior financiador da dívida americana.

Investimento e crescimento – Com base nos efeitos do terremoto que ocorreu em 1995 na cidade japonesa de Kobe, os economistas do banco Nomura esperam que a economia japonesa cresça de maneira mais acelerada após os eventos da madrugada de sexta-feira. Segundo o analista do banco, Peter Westaway, no trimestre correspondente ao desastre dos anos 1990, o PIB japonês avançou 0,8%, recuperando-se de uma retração de 0,7% ocorrida no trimestre anterior. A expansão dos gastos públicos, na avaliação de Westaway, foi o principal motor para a aceleração da economia nos trimestres que se sucederam – fazendo com que o crescimento do PIB japonês fosse de 0,9% ao final daquele ano.

A importância da sociedade – Não há garantias que os acontecimentos do passado se repitam agora, mas, diante da capacidade da população japonesa de ressurgir após tragédias, restam poucas dúvidas que a recuperação não ocorra. Primeiro, porque a região afetada pelo desastre, sobretudo a província de Sendai, não é o principal motor produtivo do Japão e não deverá representar um impacto significativo no PIB japonês, de acordo com analistas.

Em segundo lugar, a capacidade de mobilização presente na cultura japonesa (e Oriental como um todo) tem papel essencial na retomada. De acordo com o filósofo Takeshi Umehara, um dos mais eminentes pensadores contemporâneos do país, há um forte sentimento de responsabilidade do indivíduo em relação à sociedade – e não o contrário. “O individualismo é um valor absoluto no Ocidente, que faz com que se esqueça a responsabilidade que temos em relação aos outros, à sociedade e ao sistema”, escreveu o filósofo em um artigo publicado pela revista Japan Focus, especializada em sociologia e cultura.

Tal componente cultural está diretamente ligado ao fato de os japoneses investirem seus recursos em títulos de pouca remuneração, mas cientes de que isso ajudará a economia nacional. “Eles vão aplicar muitos recursos no país, mesmo sabendo que vão receber pouco retorno por isso. Faz parte do que eles são. Eles pensam no futuro do Japão. De todo o Japão”, afirma o economista e ex-diretor do Banco Central do Brasil, Paulo Yokota, que tem nacionalidade japonesa e trabalhou por muitos anos no país asiático. Segundo Yokota, há uma memória coletiva presente na cultura japonesa que – ao que parece – não se deixa abalar por desastres. Afinal, trata-se de uma sociedade milenar que se desenvolveu em solo pobre e escasso, e que mesmo assim se transformou em potência mundial. Desta forma, Yokota aposta, otimista, e com a parcialidade que lhe cabe. “Quem pensa que eles ficarão chorando o desastre está enganado. Eles irão arregaçar as mangas e construir tudo de novo”.