‘Acho que foi a Rússia’, diz Trump

Sérgio Teixeira Jr., de Nova York

“Acho que foi a Rússia”, disse o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre os escândalos de invasão de computadores do Partido Democrata durante a campanha eleitoral do ano passado. Foi a primeira entrevista coletiva de Trump em seis meses e a primeira vez em que ele admitiu a interferência da potência rival no processo eleitoral americano. Trump refutou as acusações de proximidade com os russos contidas em um dossiê que circula entre jornalistas há meses.

A rede de TV CNN confirmou a existência do documento ontem e, horas mais tarde, ele foi publicado na íntegra pelo site BuzzFeed. O futuro presidente, que assume o cargo em 20 de janeiro, afirmou que o site é uma “pilha de lixo que está falindo” e que a rede de TV fez de tudo para espalhar notícias mentirosas. “É tudo notícia falsa. Coisa falsificada. Não aconteceu. Foi obtido por adversários nossos. Foi um grupo de adversários que se juntaram. Pessoas doentes, elas se juntaram e fizeram essa porcaria”, afirmou o presidente.

O documento teria sido elaborado por um ex-espião do serviço secreto britânico durante a campanha presidencial, supostamente com a intenção de ser utilizado pela campanha de Hillary Clinton. Além de detalhar entendimentos entre emissários de Trump e do presidente russo, Vladimir Putin, há menção a eventuais fotos comprometedoras do presidente eleito, que poderiam ser utilizadas para chantageá-lo. Barack Obama foi informado oficialmente da existência do dossiê na quinta-feira passada, e Trump, um dia depois. Mas os serviços de inteligência americanos não confirmam a veracidade do seu conteúdo.

“É uma desgraça que [o documento] tenha vazado”, disse Trump. “Não vale o papel em que foi impresso.” O presidente eleito continuou criticando as agências de inteligência do governo, dizendo que notícias sobre algumas de suas reuniões – das quais “nem sequer minha assistente sabe” – vazam horas depois. “É uma desgraça que as agências de inteligência tenham permitido [o vazamento do dossiê].” “É algo que a Alemanha nazista faria”, afirmou Trump, quando instado a esclarecer uma postagem no Twitter a respeito do escândalo. “Estamos vivendo na Alemanha nazista”, escreveu Trump horas antes da entrevista.

Além de aumentar o tom das críticas contra os espiões americanos, o homem que vai se mudar para a Casa Branca daqui nove dias também atacou a imprensa – desta vez, de forma mais seletiva. Trump se recusou a atender Jim Acosta, correspondente presidencial da CNN, que estava sentado na primeira fileira e pediu repetidas vezes para fazer uma pergunta. “Não vou lhe dar uma pergunta. Você [divulgam] notícias falsas.” Antes do início da coletiva, Sean Spicer, que será o porta-voz da Presidência, afirmou que a rede de TV e o site BuzzFeed noticiaram o dossiê numa “tentativa patética de conseguir cliques”. Ao final do evento, o âncora Jake Tapper, da CNN, afirmou que a rede não tornou público o conteúdo do dossiê, somente sua existência.

Trump elogiou Putin por ter afirmado que as informações do dossiê são falsas e reafirmou sua posição de campanha: as relações com a Rússia poderão ser boas ou ruins. Mas, se o presidente russo gostar de mim, disse Trump, isso é uma vantagem, não uma desvantagem. Os russos “são parceiros na luta contra o ISIS. E foi este governo [americano] quem criou o ISIS. Hillary seria mais dura? Ora, por favor”, disse Trump. O presidente eleito também afirmou que os hacks partem não só da Rússia, mas também da China e de outros países e que vai fortalecer as defesas eletrônicas do país.

O outro tema dominante da entrevista, concedida na entrada da Trump Tower, em Nova York, foram as medidas que o novo presidente vai tomar para se distanciar de seus negócios. Ao lado direito do pódio, uma mesa continha pilhas e pilhas de papéis que conteriam as garantias da passagem da administração dos negócios do bilionário para seus dois filhos mais velhos, Donald e Eric, e para Allen Weisselberg, executivo de longa data do grupo Trump. A certa altura, Trump simplesmente interrompeu a coletiva e chamou ao microfone Sheri Dillon, do escritório de advocacia Morgan Lewis, para explicar as medidas que, segundo ele, blindarão o governo dos conflitos de interesse com os negócios imobiliários da família.

Segundo o que foi anunciado, Trump não vai se desfazer de seus negócios. Seus filhos e seu parceiro de longa data serão os responsáveis pela gestão. O novo presidente vai saber de quaisquer novos negócios fechados pelo grupo Trump pela imprensa, disse Dillon. Trump também anunciou que não fará novos negócios com parceiros estrangeiros e que todas as atividades do grupo daqui em diante serão submetidas à aprovação de um conselheiro ético, que será anunciado nos próximos dias.

Outro anúncio curioso teve relação com os hotéis que levam o nome do futuro presidente. Se autoridades estrangeiras se hospedarem nesses hotéis, os lucros auferidos serão doados para o Tesouro americano. E Trump disse ter recusado recentemente uma proposta de negócios de 2 bilhões de dólares de um empresário de Dubai. “Eu poderia administrar meus negócios e o país [simultaneamente]”, afirmou Trump, referindo-se a uma interpretação segundo a qual o presidente não tem a obrigação de se desfazer de seus negócios. “As pessoas estão preocupadas? Eu ganhei! Ninguém está preocupado.”