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Última atualização 17/08/2017 - 16:06 FONTE

Wall Street está no mundo da lua?

Thais Folego

Enquanto arranja briga com países aliados de longa data, com a imprensa e com movimentos de direitos civis, o novo presidente dos Estados Unidos Donald Trump parece ter caído como uma luva para o mercado financeiro americano. A cada novo tweet tresloucado do presidente as bolsas do país batem novos recordes de valorização. Faz sentido?

Talvez não. Cada vez mais analistas começam a apontar o risco de os investidores quebrarem a cara – ou se arrependerem de terem torcido pelas medidas prometidas por Trump.

O índice acionário S&P 500 subiu 8% desde o começo de novembro, quando foi anunciada a vitória do candidato republicano. Os índices mais voltados a reunir ações de indústrias e de empresas de tecnologia avançaram ainda mais: o Dow Jones e o Nasdaq ganharam 11% cada um, no mesmo período. Esse otimismo está calcado nas promessas de Trump de cortes de impostos e de desregulamentação de alguns setores da economia, anunciando o seu governo como uma nova era de bons ventos para os negócios. Baseado nisso, Wall Street projeta desde o aumento do lucro das empresas, até um maior crescimento do PIB do país, passando por uma possível onda de fusões e aquisições.

“Há um grande risco de quebra das expectativas se essas medidas não se confirmarem. Se isso ocorrer, vai haver uma venda generalizada de ações nas bolsas de valores no segundo semestre”, diz o professor da Fundação Dom Cabral Paulo Vicente. Ele avalia que esse risco hoje está em torno de 40%.

Entre os otimistas com as políticas de Trump estão grandes bancos, como o americano Goldman Sachs e o alemão Deutsche Bank. Em um relatório a clientes de janeiro, o Deutsche projeta que o crescimento do PIB americano será o dobro do atual sob uma agenda de redução de regulamentação de uma série de setores críticos para a economia, como energia, financeiro, saúde e mercado de trabalho, além de uma reforma tributária que reduz os impostos de pessoas físicas e empresas e um programa de investimentos em infraestrutura de pelo menos 1 trilhão de dólares.

O banco estima que o crescimento da economia poderá atingir 2,4% em 2017 e 3,6% em 2018, em comparação ao crescimento médio de 1,6% na gestão de Barack Obama. Riscos também são previstos, mas minimizados. “Embora Trump introduza maior incerteza, isso é melhor do que a quase certeza da continuação de um status quo medíocre”, avalia o economista-chefe do Deutsche, David Folkerts-Landau.

Já o Goldman Sachs acredita que o ambiente macroeconômico mundial está mudando de baixo crescimento para pró-crescimento, movimento que seria impulsionado pelas mudanças nos EUA, o que reativaria o “espírito animal” dos empresários. “O crescimento econômico mais forte poderia apoiar o crescimento das receitas e dos lucros nos EUA. Acreditamos que as ações vão continuar indo bem enquanto que a força motriz for um crescimento econômico saudável”, escreveu a equipe de análise de ações do Goldman em relatório no fim de janeiro.

O que a maior parte de Wall Street parece não estar levando em conta, segundo analistas, é a complexidade de viabilizar as políticas de Trump, com o risco de elas não se concretizarem ou saírem diferente do esperado. O estrategista do Morgan Stanley, Michael Zezas, vem chamando atenção para isso: que a agenda política pode trazer grandes recompensas, mas também grandes riscos.

Ele avalia que os republicanos finalmente vão conseguir aprovar uma reforma tributária, permitindo alguma expansão do déficit das contas públicas. “No entanto, admitimos que os riscos para este ponto de vista aumentaram, uma vez que as divergências internas dentro do partido poderiam atolar a agenda legislativa”, diz. “Além disso, o potencial de consequências não planejadas que podem atenuar os benefícios macros da reforma fiscal podem estar subestimado”, avisa. A equipe do Morgan Stanley vê, assim, espaço para a valorização de ativos de riscos no curto prazo, mas avalia que as incertezas políticas podem no longo prazo enfraquecer o desempenho do mercado.

Livre comércio

Outro ponto de preocupação que pode afetar o resultado de muitas empresas são as consequências da agressiva política externa que Trump anunciou na campanha e agora parece que realmente vai agir para colocar em prática. Ele já anunciou que quer taxar de forma punitiva as importações de produtos vindos principalmente da China e do México e rever os termos do acordo do Nafta, tratado de livre comércio entre EUA, México e Candá.

Segundo o professor da Dom Cabral, Paulo Vicente, vai haver setores da economia americana ganhadores e perdedores com uma política como esta. Num primeiro momento, ele prevê que o protecionismo vai gerar perda econômica e inflação para o país. Isso porque vai tornar mais caro a importação de insumos e maquinários, impactando cadeiras produtivas inteiras. Já no mais longo prazo, vai forçar que as empresas desloquem suas produções para dentro dos EUA. De qualquer forma, há matérias primas que o país não produz e que terá que continuar importando – e que podem ser encarecidas por tarifas de importação ou por guerra comercial.

A consultoria Albright Stonebridge avalia que as consequências para as empresas e para os trabalhadores americanos seriam desastrosas se Trump levar a cabo a ameaça de renegociar o acordo de comércio do Nafta. Isso porque as atividades relacionadas  ao bloco representam um terço do comércio americano com o mundo e auxiliam na geração de 14 milhões de empregos. O comércio entre os três países somou 1 trilhão de dólares em 2015, volume 2,5 vezes maior do que em 1994, quando o Nafta entrou em vigor. Devido a isso, a consultoria espera que tanto trabalhadores quanto empresas pressionem o Congresso para frear as ações de Trump quanto ao comércio exterior.

Já há quem esteja protestando no mundo dos negócios. O grupo industrial Koch, que atua em diversos mercados, de alimentos a combustível, e é historicamente o maior doador para campanhas republicanas, tocou num ponto sensível aos políticos: o financiamento das campanhas. Mark Holden, co-presidente da Kock Seminar Network, a fundação do grupo empresarial, se posicionou contra ao que está sendo chamado de “imposto de ajuste de fronteira”, proposta que está sendo discutida pela administração de Trump e líderes do Congresso.

Pela proposta, as empresas americanas que importam mercadorias de fornecedores estrangeiros deixariam de poder deduzir essas compras, uma vez que um novo imposto seria aplicado em todas as mercadorias importadas, inclusive sobre o petróleo bruto. A medida aumentaria a receita do governo, compensando em parte os cortes de impostos. Em clara mensagem aos aliados no Congresso, Holden disse que esta será a primeira coisa que o grupo vai avaliar ao decidir quais políticos vai apoiar nas próximas eleições.

Entre expectativas e a realidade, parece que a confiança de setores reais da economia tem esfriado recentemente. Mas a maior parte do setor financeiro ainda parece estar na torcida. As bolsas americanas registraram novos recordes nesta sexta-feira (10), fechando a terceira semana seguida de alta, depois que Trump prometeu anunciar uma política tributária “fenomenal” em algumas semanas. Vamos acompanhar.