Suspensão de oferta de US$ 500 mi aumenta escassez de captações

O ritmo de captações de empresas brasileiras no exterior é o mais fraco em um ano

Nova York – O ritmo de captações de empresas brasileiras no exterior é o mais fraco em um ano. As especulações de que a Grécia pode não pagar sua dívida prejudicam a demanda por títulos de mercados emergentes.

A operação de US$ 500 milhões pelo Itau Unibanco Holding SA foi a única captação internacional de uma companhia brasileira neste mês, segundo dados compilados pela Bloomberg. O total emitido é 95 por cento inferior ao de maio, que chegou a US$ 9,8 bilhões. Nos Estados Unidos, as empresas captaram US$ 29,4 bilhões em dívida em junho, no que deve ser o mês mais fraco nesse mercado desde maio de 2010.

Receios de que a Grécia se torne o primeiro país da zona do euro a suspender o pagamento da dívida levam investidores a rejeitar ativos de maior rendimento. O prêmio exigido pelos investidores para deter títulos corporativos brasileiros em vez de papéis do Tesouro americano subiu para 289 pontos-base na semana passada, o maior desde 6 de dezembro, de acordo com o JPMorgan Chase & Co.

Ontem, a San Antonio Internacional Ltd., prestadora brasileira de serviços na área de petróleo e gás, suspendeu planos de captar US$ 500 milhões com uma emissão de títulos, segundo uma pessoa a par da transação.

“É difícil fazer uma operação quando se depende da base de investidores globais”, disse em entrevista por telefone Douglas Chen, chefe de distribuição internacional de renda fixa do Itaú Unibanco Holding SA em Nova York. “Torna-se mais desafiador e você é forçado a pagar um prêmio. Muitos investidores estão ausentes no momento.”

Os títulos em dólar do governo brasileiro pagam 172 pontos- base, ou 1,72 ponto percentual, a mais do que as notas do Tesouro dos EUA. O prêmio estava em 162 há um mês, de acordo com o JPMorgan.

Crédito ‘congelado’

A San Antonio Internacional havia contratado Deutsche Bank AG, HSBC Holdings Plc, Itaú Unibanco Holding e Pareto Securities para coordenar a oferta, disse a pessoa, que pediu para não ser identificada por não ter autorização para falar publicamente. Um representante da San Antonio em São Paulo, que pediu anonimato em obediência à política interna, se recusou a fazer comentários para esta reportagem.

“Não tem uma relação com o Brasil”, disse Vinicius Pasquarelli, operador de dívida de mercados emergentes da Tradition Asiel Securities, em entrevista por telefone de Nova York. “Quando há este tipo de crise, que é uma crise de crédito, o crédito fica congelado. Se ninguém quer mesmo comprar ou vender, como se consegue fechar preço para uma operação?”


O primeiro-ministro grego George Papandreou recebeu ontem um voto de confiança, aumentando as chances de que o novo governo consiga fazer os cortes no orçamento necessários para que o país possa receber ajuda internacional e evite a moratória. O rendimento de títulos de dez anos da Grécia disparou 429 pontos-base desde abril, para 16,97 por cento. Líderes europeus não conseguiram chegar a um consenso em 19 de junho sobre um pacote de ajuda ao país.

A queda nas captações brasileiras em junho vem após um início de ano com volumes recordes. As ofertas somam US$ 28,8 bilhões desde 1º de janeiro, 89 por cento a mais do que no mesmo período do ano passado, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. As emissões por empresas brasileiras chegaram a US$ 37,2 bilhões em 2010, a maior quantia até hoje.

‘Desaceleração temporária’

“Vemos isso como uma desaceleração temporária e não como uma representação verdadeira do apetite do mercado por emissões da América Latina e do Brasil”, disse Katia Bouazza, chefe de mercados de capitais globais para América Latina do HSBC Holdings Plc, em entrevista por telefone. O banco é o segundo maior na originação de títulos corporativos brasileiros este ano, após o Banco Santander SA.

A captação do Itaú em 14 de junho foi a primeira desde que a Centrais Elétricas do Pará SA levantou US$ 250 milhões com uma emissão de títulos em 27 de maio.

“Não temos visto ninguém sequer tentando vir a mercado”, disse Omar Zeolla, analista de crédito de mercados emergentes na RBS Securities Inc., em entrevista por telefone de Stamford, no estado americano de Connecticut. “A maior preocupação é que os problemas da Grécia se espalhem para outros países e que seus problemas fiquem ainda maiores.”