Nova York - O gerente de hedge-fund Luiz Carvalho não consegue se convencer a torcer contra o Brasil, seu país natal, na próxima Copa do Mundo.

No entanto, isso seria extremamente tentador.

Uma derrota da seleção pentacampeã de futebol no campeonato seria um golpe para a campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff, disse Carvalho, o que reforçaria as possibilidades de um novo governo que fosse mais amigável com os investidores depois do pior desempenho econômico de todas as administrações desde 1992.

Quando as pesquisas começaram a mostrar que Dilma está perdendo popularidade antes das eleições de outubro, as ações brasileiras registraram os melhores retornos do mundo em termos de dólares desde meados de março, rebotando do fundo de um mercado baixista.

“Se tivermos um desempenho ruim na Copa do mundo, haverá maiores chances de ter um novo presidente”, disse Carvalho, sócio-gerente da Tree Capital LLC, como sede em Nova York, em entrevista ontem.

“Tudo o que é ruim para a Dilma é bom para o mercado”.

O fato de Carvalho, um torcedor que se lembra de como se sentiu quando tinha 8 anos e o Brasil venceu a Copa de 1970, estar disposto a considerar os benefícios de uma derrota no campeonato mostra o desespero dos investidores por uma nova liderança.

O apoio a Dilma está caindo depois de 44 meses de uma inflação acima da meta, além dos protestos realizados no ano passado por brasileiros contrariados pelo fato de o governo estar gastando US$ 11 bilhões para sediar o campeonato de futebol em um país onde 7,2 milhões de pessoas ainda vivem com US$ 1,25 ou menos por dia.

Empresas estatais

A queda de Dilma nas pesquisas alimentou ganhos de até 40 por cento em empresas estatais como a Centrais Elétricas Brasileiras, com base na perspectiva de que uma nova administração seja menos intervencionista, de acordo com Luis Gustavo Pereira, 26, estrategista da corretora Guide Investimentos.

“A Copa do Mundo e as eleições são dois eventos que estão movimentando o mercado”, disse ele por telefone de São Paulo.

“Se o Brasil perder, isso pode provocar um impacto positivo nas ações. Mas torcer contra a seleção é pedir demais”.

A assessoria de imprensa presidencial não respondeu imediatamente a um pedido por comentários enviado por e-mail. Neste ano Dilma disse que cumprirá a promessa que fez em sua campanha de 2010 de erradicar a pobreza extrema. 

Cerca de 22 milhões de pessoas saíram dessas condições durante seus três anos no cargo, de acordo com números do governo.

‘Tragédia nacional’

“Quando o Brasil perdeu aquele jogo para o Uruguai, foi uma espécie de tragédia nacional”, disse Jeffrey Lesser, historiador especializado no Brasil da Universidade Emory, em Atlanta, por telefone.

“Até pessoas de vinte e poucos anos comentam aquela derrota de 1950 como se tivessem estado lá. É muito presente”.

Se a história recente servir de guia, mesmo que o Brasil perca a tristeza pode não provocar um impacto duradouro.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato da oposição que ganhou a eleição de 2002 depois que o Brasil venceu a Alemanha e conquistou o pentacampeonato, foi reeleito em 2006 depois de uma derrota para a França.

Dilma, sua sucessora, venceu em 2010 mesmo depois de a seleção ter sido eliminada pela Holanda na Copa da África do Sul.

“Se o Brasil ganhar, acho que ninguém vai esquecer que existem problemas”, disse Lesser.

“Uma derrota talvez ofereça um discurso político muito apropriado para que os manifestantes digam ‘além de ter gastado todo esse dinheiro e de não termos saúde, educação ou transporte, nós perdemos’”.

Protestos no Brasil

Uma greve policial no nordeste do Brasil e os protestos que ocorreram no Rio de Janeiro e em São Paulo no dia 15 de maio marcaram o início de manifestações em todo o país planejadas antes do campeonato.

Os motoristas de ônibus entraram em greve em São Paulo no dia 20 de maio e os trabalhadores da rede ferroviária da cidade disseram que podem entrar em greve na próxima semana, caso as negociações sobre o pagamento não avancem.

Os protestos do ano passado durante a Copa das Confederações levaram a popularidade de Dilma à maior baixa de todos os tempos.

A última pesquisa nacional, uma sondagem da Datafolha publicada no dia 9 de maio, mostrou que 37 por cento dos brasileiros votariam nela, frente a 44 por cento em fevereiro.

Foi a primeira contagem a sugerir que ela não venceria no primeiro turno, o que requer que seu apoio seja maior do que o de todos os outros oponentes juntos.

“Um cenário sem Dilma é muito melhor para o mercado”, disse Carvalho da Tree Capital. “Mas é impossível torcer contra a seleção”.

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