São Paulo – A resposta à pergunta do título desta matéria não é simples e nem única. Uma série de fatores ajuda a explicar a incrível disparada do dólar em relação ao real em setembro. A moeda americana, que no final do mês passada era comprada por 1,59 real, chegou a ser negociada a quase 1,95 real na sessão de hoje, uma valorização de 22,7%. A aversão ao risco por conta da crise da dívida nos países da zona do euro aliada às decisões polêmicas do governo brasileiro têm afugentado as “verdinhas” do país.

A evolução do dólar se intensificou nos últimos dias após os investidores descobrirem que a bastante esperada terceira rodada de ajuda do governo americano para reativar a economia, o chamado Afrouxamento Quantitativo 3 (QE3), era na verdade a “operação twist”. O mecanismo anunciado ontem pelo BC americano, o mais importante do mundo, visa a venda de 400 bilhões de dólares de títulos do governo de até 3 anos e a compra do mesmo montante em notas entre 6 a 30 anos. Assim, a ideia é subir o preço dos títulos de longo prazo, o que reduz o juro.

Apesar de não significar mais dinheiro na economia, a manobra foi desenhada para baixar os juros de longo prazo, o que ajudaria a reduzir também os cobrados em toda a economia, o que poderia dar um estímulo adicional para os consumidores e empresas. Mas a resposta não foi tão boa. “O mercado ficou claramente desapontado com a operação twist do Fed anunciada ontem”, ressalta Steve Barrow, analista do Standard Bank, em relatório. Os investidores correram dos ativos de risco e as bolsas despencaram. Com isso, o dólar voltou a brilhar.

“O dólar não está ficando mais forte, é o mundo que está mais fraco e com isto liquida-se o presente (fugindo para os ativos mais líquidos) em nome de um futuro que não está mais lá”, ressalta o economista-chefe da Gradual Corretora, André Perfeito. Para o economista-chefe da Prosper Corretora, Eduardo Velho, o aumento da compra do dólar não está, desta forma, associado ao ambiente de crescimento da economia americano. “As moedas emergentes tendem a sofrer no curtíssimo prazo, movimento similar ao ocorrido na eclosão financeira de 2008”, afirma. O economista não descarta a possibilidade de o dólar chegar a 2 reais.

A jornada do dólar ante o real em 1 ano mostra a recente reviravolta

Outro trecho do comunicado do Fed, liderado por Ben Bernanke, jogou ainda mais lenha na fogueira de quem está ressabiado com as projeções futuras à economia global. “Existem riscos de deterioração significativa para as perspectivas econômicas, incluindo as tensões nos mercados financeiros globais”, mostra um trecho do comunicado. “No curto prazo, eles direcionaram os mercados para ativos livres de risco e exacerbaram a demanda por dólares”, afirma Andrew B. Busch, estrategista global de moedas do banco BMO.

E no Brasil?

Por aqui, os economistas dizem que o governo brasileiro tem afugentado os investidores ao reduzir a visibilidade sobre a economia do país, tanto por medidas inesperadas como o corte da Selic, quanto por meio de impostos. “No lado macro, as preocupações estão sobre a decisão do BC de cortar em 50 pontos-base a Selic enquanto o relatório Focus mostra uma inflação de 5,5% em 2012. Do lado micro, as medidas como o IOF sobre os derivativos cambiais, a revisão do código mineral, e a nova taxa sobre os carros importados adicionam uma nova camada de incerteza para as análises”, escreveram Alexandre Gartner, chefe de pesquisa no Brasil do HSBC e Francisco Vanzolini, estrategista, em um relatório publicado ontem.

O Banco Central, liderado por Alexandre Tombini, pegou todo mundo de surpresa ao tesourar a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, que agora está em 12% ao ano. A equipe de Tombini afirmou que a decisão foi tomada para mitigar os efeitos de um ambiente global mais restritivo. O HSBC afirma que os investidores têm trabalhado por um longo tempo com a premissa de que o real continuaria a se fortalecer ou, ao menos, se manter estável. “Se o real vai ou não se apreciar outra vez não é o ponto da discussão. O problema é que, até certo ponto, os riscos cambiais cresceram e os investidores precisam considerá-los”, ressaltam.

Com a aversão ao risco, a bolsa brasileira já acumula uma queda de 22% no ano, uma das maiores perdas do mundo. Além disso, há a perspectiva de que os investidores fujam também dos títulos das dívidas dos países emergentes, o que já está acontecendo na Indonésia, por exemplo. O país asiático disse nesta semana que a participação dos estrangeiros na sua dívida caiu de 251 trilhões de rúpias para 234 trilhões de rúpias entre 9 e 19 de setembro. “Parece que os investidores em dívidas de moedas locais dos países emergentes estão começando a liquidar as suas posições”, alerta Mike Riddell, gestor de fundos da M&G Investments em Londres.

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