As investigações envolvendo imóveis supostamente pertencentes ao ex-presidente Lula entraram no radar do mercado por seus potenciais impactos no cenário político e econômico.

O enfraquecimento político do ex-presidente e principal líder do PT gera algum otimismo no mercado com a possibilidade de mudança de trajetória no País.

Contudo, este entusiasmo pode ser excessivo, segundo a consultoria Eurasia, de Nova York, que segue colocando o Brasil como um dos oito maiores riscos do mundo, ao lado da economia da China e do Estado Islâmico.

Lula como alvo das investigações da Operação Lava Jato significa que tanto o ex-presidente quanto Dilma Rousseff tendem a se aproximar da esquerda como tática de sobrevivência, diz João Augusto de Castro Neves, diretor para América Latina do Eurasia Group. O discurso mais radical de Lula nos últimos meses, quando ele pressionou pela saída de Levy e por mudanças na política econômica, já seria um sinal de busca de apoio dos seus aliados tradicionais: o PT e os sindicatos. O mesmo movimento tem sido feito pela presidente Dilma, sucessora de Lula, diz Castro Neves.

À medida que a Lava Jato avança, a prioridade de Dilma passa a ser sobreviver ao processo de impeachment. Por isso, a tendência é de que ela continue com os ”sinais erráticos”, ora acenando ao mercado com a reforma da Previdência, ora aos sindicatos com estímulos econômicos, diz o consultor. “O governo tem de acender duas velas, uma para o mercado, outra para a esquerda.”

O desdobramento mais positivo das investigações da Lava Jato, pela ótica do mercado, não é de curto prazo, segundo Castro Neves. Trata-se do aumento da perspectiva de derrota do PT na eleição presidencial de 2018. “Mesmo que Lula não seja condenado, o desgaste será grande. Acabou a imagem de um líder imbatível”, diz Castro Neves.

O Instituto Lula diz em nota publicada em seu website que "são infundadas as suspeitas dos promotores e são levianas as acusações de suposta ocultação de patrimônio por parte do ex- presidente Lula ou seus familiares."

Enfraquecido, Lula perde o poder de moderador que exercia sobre Dilma, que ajuda em negociações com a base aliada. Dilma não deve retomar as políticas intervencionistas do primeiro mandato, mas também não deve aprofundar as reformas como defende o mercado, diz Castro Neves. ”O equilíbrio ficou mais instável.”

Outro possível desdobramento considerado no mercado, segundo Castro Neves, e que representaria uma visão ”ingênua”, é o de que, com Lula fora de combate, aumentaria a chance de um pacto nacional entre o Congresso e Dilma. A ideia seria que, com o PT ”morto” para 2018, a oposição perderia a resistência que tem hoje em colaborar. Essa visão é ingênua, segundo Neves, porque dificilmente o PT e as demais forças de esquerda aceitariam um acordo no caso, por exemplo, de Lula ser condenado na Lava Jato. A tendência seria de radicalização, e não o oposto.

Para a Eurasia, a Lava Jato ainda deve trazer muitas manchetes negativas e a tendência é de piora da crise em 2016, seja na política, seja na economia. ”A crise ainda não chegou ao fundo do poço”, diz Castro Neves.

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