São Paulo - O analista financeiro Felipe Miranda esteve nos holofotes nos últimos meses. Sócio da Empiricus Research, Miranda fez uma análise polêmica onde cravou: o fim do Brasil estará decretado caso a presidente Dilma Rousseff seja reeleita. 

A afirmação não agradou e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) suspendeu a veiculação de dois vídeos promocionais criados pela consultoria que chamavam a atenção para um “iminente caos econômico”. Mais tarde, o TSE negou o pedido da coligação da presidente Dilma para multar a Empiricus.

Felipe Miranda lançou um livro nesta semana. O título “O Fim do Brasil” é o mesmo de um vídeo que teve mais de 14 milhões de visualizações na internet. Em entrevista ao site Exame.com, o autor fala sobre o livro e reflete sobre como o mercado deve se comportar daqui para frente.

Exame.com – Qual o objetivo com O Fim do Brasil?

Miranda - A tese do fim do Brasil é a de que, basicamente, antes de 1994 o país não tinha história. Não tinha histórico econômico. Não tinha padrão de consumo. Caía o salário e você corria para o supermercado para comprar o que dava. As regras mudavam sempre. Sem regras, não tem como existir investimento. Quem iria investir sabendo que o jogo podia mudar a qualquer hora? Só em 94, com o surgimento do real e a estabilização da moeda, nasce um Brasil. Você dá confiança na sua moeda, controla a inflação, e as pessoas finalmente passam a consumir. E o empresariado, percebendo que o plano deu certo, começa a investir. Os anos de 94 até 99 são a infância do plano real. Em 99, com a adoção do tripé macroeconômico (regime de metas de inflação, fiscais e pelo câmbio flutuante) surge a maturidade do real. Só que vinte anos após o surgimento do real as coisas mudaram dramaticamente. O processo começou em 99 com a crise do setor externo e culminou em setembro de 2008, com a quebra do Lehman Brothers. A partir daí, o governo adotou uma série de medidas para tentar reduzir os impactos da crise. Mas é uma política fiscal gastona que acaba ferindo os três pilares do tripé. São medidas desajustadas. O Brasil começa a morrer por causa da nova matriz econômica.

Exame.com - Mas é possível que o investidor se proteja diante deste cenário? 

Miranda - O livro aponta um diagnóstico do cenário e uma série de medidas para tentar se proteger. Talvez, não é possível que o investidor saia 100% blindado, mas existem maneiras de proteger os investimentos.

Exame.com – Dilma, Marina e Aécio. Em linhas gerais, como a bolsa brasileira deve se comportar em cada um dos três cenários?

Miranda - Neste momento, não tem diferença nenhuma entre Marina e Aécio. Se percebeu que a política econômica de Marina é muito parecida com a do Aécio. O mercado não olha Aécio ou Marina. O mercado olha Dilma e não-Dilma. Com a Dilma é queda forte da Bolsa, com algo em torno de 45 mil pontos - esse era o nível que a Bolsa estava quando a oposição começou a ganhar espaço. Talvez, agora seja até menos, porque há dois novos elementos: a sinalização de que o Fed pode subir os juros antes do previsto e a queda forte do minério de ferro. Com isso, a Bolsa pode ir até 42 mil pontos. Com a oposição, o cenário seria de alta. Com Marina ou com Aécio, a Bolsa poderia ir de 75 mil pontos até 80 mil pontos.



Exame.com – Você enxerga Marina e Aécio como a mesma coisa? 

Miranda - A distinção viria quando o jogo começasse para valer. O Aécio é mais claro na forma em que pensa. Eu não sei se no momento de crise, o PSB teria sustentação para manter de fato esta politica econômica ortodoxa. É mais do que isso. É como seria a governabilidade de Marina. Existem questões que não podem ser respondidas agora. Como ela vai lidar com o investimento em infraestrutura em relação às barreiras ambientais? E como se resolverá questões do setor elétrico que também são sensíveis a isso? Também tem a questão do agronegócio. Embora o peso do agronegócio em Bolsa não seja tão grande. E aqui não é uma questão de maniqueísmo. Mas sim a que custo ela tomará atitudes.

Exame.com – Existe um candidato mais saudável para o mercado?

Miranda - O mercado tem maior alinhamento histórico ao Aécio. Mas neste momento, não acho que haja distinção. O mercado está avaliando a condição Dilma ou condição não Dilma. A rota com o Aécio tende a ser no longo prazo mais favorável ao mercado. É a primeira vez na história que uma petrolífera sobe com a possibilidade de eleição de uma ambientalista.

Exame.com – Falando nisso, a Petrobras chegou a subir 107% de março para cá. Existe racionalidade dentro desta alta?

Miranda - A Petrobras estava bem penalizada. O mercado está exagerando, faz parte do jogo. Existe racionalidade sim. A racionalidade é que este governo destrói valor para a Petrobras. Com a possibilidade de outro governo que gera valor ou destrói menos, a ação se valorizou. Houve um movimento técnico também. Muita gente estava vendida em Petrobras e tinha que cobrir posições short, quando começou a subir você stopa, então isso gerou uma pressão compradora. Somado a isso, teve uma melhora no quadro de produção da empresa.



Exame.com - Mas a ação da Petrobras está cara?

Miranda - As ações estão caríssimas. Eu não sou comprador de Petrobras. A ação deveria refletir um valor esperado de 50% de chance de Marina e 50% de chance para Dilma. Isso daria um preço. As cotações de hoje estão dando 30% para Dilma e 70% para a oposição. As cotações deveriam estar mais baratas dentro deste jogo de probabilidade.

Exame.com - Então o mercado está precificando muito mais a oposição no poder?

Miranda - No caso de Petrobras, eu entendo que sim.

Exame.com – E se a Marina ganhar, a Petrobras dispara ainda mais? 

Miranda - No primeiro momento sim, por causa do aumento de preço da gasolina. Mas algumas questões devem ser analisadas. Há de se lembrar que uma ambientalista estaria sendo eleita. Uma ambientalista não é amigável aos combustíveis fósseis. Esta incerteza de como será o governo dela é uma faca no pescoço. Isso gera uma incerteza grande. E o mercado não gosta de incertezas.

Exame.com - Mas o cenário eleitoral ainda está muito indefinido. Como a Empiricus tem observado essa corrida?

Miranda - Neste momento, a percepção é que a Marina goze de uma força maior para competir com a Dilma em um segundo turno. Mas este cenário pode mudar. Parece que a Dilma prefere enfrentar o Aécio do que a Marina. Porque é mais fácil. Por causa do discurso maniqueísta. Não rola bater em quem é mais pobre do que você.

Exame.com – Como será 2015 para o mercado?

Miranda - Será um ano desafiador. Será muito difícil, independente de quem estiver na presidência. O Fed subirá a taxa de juros, veremos alguns preços represados subirem no Brasil, o que adicionará dois pontos percentuais à inflação. Mesmo com a oposição na presidência é difícil que a Bolsa se mantenha em 75 mil pontos. Estamos com problemas herdados dos governos anteriores. Em maio, eu começaria a botar as “barbas de molho.” O investidor tem que monitorar. Se a Bolsa está em 40 mil pontos, ele pode comprar empresas formidáveis a preço de banana.

Exame.com - Deixando a questão eleitoral de lado, a ação da Vale está em queda acentuada em 2014. O que dá para esperar das ações da mineradora?

Miranda - A Vale tem refletindo a queda do preço do minério de ferro, que esta semana bateu abaixo de 80 dólares por tonelada. Isso tem a ver com questão sazonal, o ano passado também caiu. Eu não estou otimista com a Vale para o curto prazo devido ao cenário de dólar para cima. Mas a Vale observa vantagens competitivas muito interessantes - o que a permite uma rentabilidade mesmo nestes níveis. Para o investidor de médio ou longo prazo, dá para considerar comprar Vale. Mas para o curto prazo ainda é bastante desafiador. A dica é ir comprando aos poucos.

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