São Paulo - O dólar fechou em queda nesta sexta-feira, marcando a maior baixa semanal em mais de sete anos, com a nova fase da operação Lava Jato atingindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e alimentando no mercado a percepção de que teria crescido a chance de afastamento da presidente Dilma Rousseff.

Mas, com a atuação do Banco Central, a moeda norte-americana terminou o dia bem longe das mínimas.

O dólar recuou 1,09 por cento, a 3,7607 reais na venda. A moeda norte-americana caiu 3,87 por cento e chegou a 3,6550 reais na mínima deste pregão, menor patamar intradia desde 1º de setembro de 2015 (3,6192 reais).

Na semana, o dólar acumulou queda de 5,93 por cento, maior recuo semanal desde outubro de 2008. O dólar futuro recuava cerca de 1 por cento no fim da tarde.

"(A presidente Dilma Rousseff) já está muito fragilizada e com isso a oposição ganha mais força", disse o operador da corretora Spinelli José Carlos Amado.

"Se as manifestações do dia 13 forem grandes, a situação fica muito ruim para ela", acrescentou, referindo-se a protestos planejados a favor do impeachment da presidente.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi levado para depor nesta sexta-feira em nova etapa da operação Lava Jato sob suspeita de ser beneficiário de crimes envolvendo a Petrobras, aproximando ainda mais a investigação do atual governo.

Notícias que aumentam a pressão sobre Dilma, alvo de processo de impeachment, vêm sendo bem recebidas pelo mercado, que entende que eventual troca no governo pode trazer de volta a confiança e abrir espaço para mudanças na política econômica.

Além disso, a investigação contra Lula poderia atrapalhar os planos do ex-presidente de concorrer à eleição em 2018.

Analistas da consultoria de risco político Eurasia Group escreveram que agora a chance de Dilma não concluir seu mandato é maior do que 50 por cento. Até então, viam em 40 por cento.

Ainda assim, alguns analistas ponderam que as turbulências políticas podem dificultar ainda mais a governabilidade no presente.

Além disso, não é certo que a saída da presidente abriria espaço para um governo mais apto a promover as dolorosas reformas que muitos acreditam ser a chave para a recuperação.

"O mercado está apostando em retomada da confiança que pode não se concretizar. Há uma certa euforia e acho que algumas pessoas estão indo no embalo, mas tem muita água para rolar ainda", disse o operador de um banco internacional, sob condição de anonimato.

Banco Central

O dólar reduziu as perdas no final da manhã após o BC vender apenas parcialmente a oferta de swaps cambiais, contratos equivalentes a venda futura de dólares, em leilão para rolagem.

O BC vem rolando integralmente todos os swaps nos últimos sete vencimentos. Neste mês, vinha indicando que rolaria integralmente os swaps que vencem em abril, que correspondem a 10,092 bilhões de dólares, vendendo sempre a oferta integral diária de até 9,6 mil contratos. Nesta sessão, porém, vendeu apenas 8 mil swaps, golpeando instantaneamente as cotações.

"Parece que o BC quer segurar um pouco a queda do dólar, está muito intensa", disse o gerente de câmbio da corretora BGC, Francisco Carvalho.

"Ele pode ter espaço para reduzir o estoque (de swaps cambiais). Podemos ver um anúncio de rolagem menor depois do fechamento", acrescentou, referindo-se ao estoque equivalente a cerca de 110 bilhões de dólares em swaps administrado pelo BC.

Com o leilão deste pregão, o BC rolou ao todo 1,790 bilhão de dólares em swaps, ou cerca de 18 por cento do total. Se mudar o ritmo e passar a oferecer 8 mil contratos por dia, vendendo sempre o lote integral até o penúltimo pregão, como de praxe, a autoridade monetária rolará cerca de 85 por cento.

O BC tem dito que atua para garantir oferta de proteção cambial e atenuar a volatilidade. Alguns operadores acreditam, porém, que a autoridade monetária tem em vista também o nível da taxa, já que cotações altas tendem a pressionar a inflação e patamares baixos prejudicam as exportações.

Estrategistas do banco BNP Paribas escreveram em nota clientes que entendem que a rolagem parcial é um sinal de que a autoridade monetária não permitirá que o dólar caia muito além de 3,70 reais.

"Embora a resiliência do real seja compreensível no contexto do fortalecimento do setor externo e dos desenvolvimentos domésticos atuais, acreditamos que o movimento é um pouco exagerado", escreveram os estrategistas, para quem o nível justo do dólar é de 3,83 reais.

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