São Paulo – Ao lado de outras construtoras, as ações da Gafisa (GFSA3) vinham amargando constantes quedas e se destacando entre as baixas do Ibovespa. Na sexta-feira, porém, a empresa teve um pregão de forte alta e os papéis subiram 16,43% naquele dia. Depois de disparar desta maneira, muitos poderiam esperar uma valorização leve ou até queda no pregão de hoje, mas os papéis estão passando bem longe disso. No maior preço registrado até agora durante o pregão, a alta das ações já chega a 12,9%.

A empresa anunciou no início do mês que compraria 20% restantes da Alphaville Urbanismo, assumindo 100% da empresa. Até ai, nenhuma surpresa. Isso porque o processo de aquisição da companhia começou em 2006, com uma fatia de 60% comprada pela Gafisa, continuou em 2010, com mais 20% adquiridos, e, como a própria empresa já havia sinalizado, deve terminar neste ano, com a conclusão da compra anunciada dos 20% restantes.

Tanto não foi surpresa que nos pregões após o anúncio, as ações da Gafisa caíram, como vinha acontecendo há um tempo. Na noite do dia 6 de junho, porém, a empresa informou como faria para pagar a nova fatia comprada.

A Gafisa vai emitir 70,25 milhões de ações para completar a operação, valor estimado com base no preço de 5,11 reais por ação, apurado pela média diária da cotação de um determinado período.

O mercado recebeu bem a notícia e no dia seguinte, feriado no Brasil, os papéis da empresa em Nova York subiram 9%. O primeiro pregão aqui no país após a notícia foi o da última sexta-feira, que terminou com a alta de 16,43%.

O preço por ação foi contestado por acionistas da Alphaville Urbanismo, que acreditam que a compra deveria ser feita por um valor de emissão de 3,70 reais, com a emissão de 97.055.876 ações, o que elevaria a diluição dos acionistas da Gafisa. A Gafisa, por sua vez, acredita que o valor pedido por esses acionistas é contratualmente equivocado, conforme aponta comunicado.

Preço final

“Acreditamos que os detalhes sobre o financiamento da operação descartam uma diluição significativa para as ações, pois os investidores estavam preocupados com o possível aumento na alavancagem se a Gafisa optasse por pagamento em dinheiro”, afirmaram os analistas do Santander Alexandre Amson e Fabiola Gama.

Os analistas David Lawant e Enrico Trotta, do Itaú BBA, também acreditam que a Gafisa finalizará o negócio com o preço anunciado e consideram a notícia boa para os acionistas da empresa.

“Considerando que a estimativa para Alphaville indica um valor total para a companhia que é aproximadamente o dobro do atual valor de mercado da Gafisa, acreditamos que o fato das ações terem sido emitidas com um amplo prêmio (de 140%) em relação ao preço atual de mercado tenha tornado o negócio favorável para os acionistas da Gafisa, apesar de uma diluição de 14%”, afirmaram em relatório para clientes.

A operação aprovada vai resultar numa diluição de 14% dos acionistas da Gafisa e, na opinião da corretora Ativa, o desenrolar do que pedem os acionistas da Alphaville deve ser acompanhado de perto. “Vemos como necessário o acompanhamento do desenrolar da questão acerca da contestação por parte dos acionistas da Alphaville, que pode retardar o processo e elevar para cerca de 18% a diluição para os acionistas de Gafisa”, afirma a analista-chefe da Atvia, Daniella Maia, em relatório para clientes . “No entanto, mesmo com a contestação o preço de 3,70 reais por ação significaria um upside de 73,7% ante o fechamento da última quarta-feira, ainda positivo para os investidores”, pondera.

Fundamentos

Longe de ser a queridinha dos analistas no setor, o que vem prejudicando as ações da Gafisa é justamente outra aquisição. A compra da Tenda levou de brinde para a empresa problemas com obras entregues fora das conformidades e atrasos na execução.

A Alphaville Urbanismo pode salvar a empresa e reverter o quadro? Embora ajude, apontam os analistas, não resolve os problemas da Gafisa. “Mantemos nossa opinião de que os fracos fundamentos da Gafisa continuam a ser um importante desafio para a empresa no curto prazo”, afirmam Alexandre Amson e Fabiola Gama, analistas do Santander, em relatório enviado para clientes.

Para eles, a empresa ainda deve ter problemas relativos a cancelamentos de contratos na Tenda, baixa lucratividade dos projetos fora das áreas metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, e a alta alavancagem e possíveis problemas de liquidez representam preocupação no curto prazo.

“Apesar da notícia ser bem recebida pelo mercado, como observado sobre o desempenho das ações no pregão de sexta, nos mantemos relutantes sobre a companhia, dado seus fracos fundamentos reportados recentemente”, afirmou a analista-chefe da Ativa Corretora.

O Itaú BBA também não vê uma mudança muito significativa no horizonte da empresa e os analistas David Lawant e Enrico Trotta mantiveram a recomendação de market-perform (desempenho em linha com a média do mercado), com um valor justo para o final de 2012 de 6,00 reais por ação. “Preferiríamos nos manter à margem e focar em companhias com um ambiente operacional mais estável e menor alavancagem”, afirmaram.

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