São Paulo - Se você tivesse mais de R$ 1 milhão para aplicar na Bolsa, se arriscaria a comprar ações de empresas menores, fora do Ibovespa, mas com bom potencial de valorização?

Em tempos de forte crescimento econômico, com certeza sua resposta seria sim. Mas na atual crise muita gente está fugindo da renda variável, e quem fica procura papéis mais conservadores. Pelo menos essa é a percepção da XP Investimentos.

Em entrevista a EXAME.com, o responsável pela gestão de fortunas da corretora, Beny Podlubny, contou em quais ações seus clientes estão investindo e falou sobre cenários para os mercados. Confira abaixo os principais trechos.

EXAME.com: A XP tem sob custódia cerca de R$ 30 bilhões. Qual o tamanho da área de gestão de fortunas?

Beny Podlubny: R$ 5 bilhões divididos em aproximadamente 250 mandatos exclusivos [fundos e carteiras administradas].

Temos, atualmente, 4 mil clientes milionários no grupo XP. A meta é chegar a 8 mil clientes acima de R$ 1 milhão e R$ 12 bilhões de recursos até o fim deste ano.

Quanto está alocado em ações?

Atualmente, o percentual alocado em ações encontra-se em torno de 3%. Em 2015, o portfólio foi reduzido de 5% para 3%. Em linhas gerais, a parcela mais arriscada da carteira tem migrado para ativos com exposição internacional.

E o restante?

O portfolio médio é 50% em ativos pós-fixados, 10% em inflação, 27% em fundos multimercados, 3% em renda variável e 10% em ativos internacionais.

As carteiras são construídas em cima de uma política de investimentos desenhada com o investidor na entrada e revista anualmente (ou em qualquer evento extraordinário). Usamos simulações e testes de estresse para dar conforto para os clientes.

E quais são as ações mais procuradas?

Inevitavelmente, os papéis mais procurados são os mais conhecidos pelos investidores pessoas físicas. São eles: Petrobras, Vale, Itaú, Bradesco e Ambev. Outro motivo para essa procura é o fato de alguns desses papéis terem se desvalorizado bastante.

Logo, surge a curiosidade dos investidores sobre um possível ponto de entrada no ativo. Empresas de menor liquidez são menos procuradas, pelo mesmo motivo, pois muitos não conhecem as empresas.

Sempre recomendamos proteção nas carteiras de renda variável para clientes que queriam ter papéis diretos em seu portfólio.

Apesar da recuperação recente, a expectativas para a Bolsa seguem negativas. Qual seu ponto de vista?

O atual cenário segue desafiador para a Bolsa brasileira. Devemos lembrar que ela é composta de empresas que estão inseridas no contexto macroecônomico do país e do mundo. Ainda não enxergamos perspectivas otimistas com relação à recuperação da nossa economia.

Por conta do ambiente político instável e falta de reformas estruturais nos gastos do governo, por enquanto não estamos otimistas para o médio/longo prazo. É claro que essas variáveis devem ser monitoradas e as perspectivas podem mudar ao longo do tempo.

Em resumo, ainda trabalhamos com um ‘base case’ de Brasil desafiador, com risco de calda positivo e com um ‘base case’ global estável, com risco de calda negativo.

A redução dos dividendos pagos eleva a dificuldade de ganhar na Bolsa?

O fato das empresas não pagarem dividendos, em si, não é o motivo para o aumento da dificuldade de ‘ganhar dinheiro na Bolsa’.

A dificuldade está no que isso representa, ou seja, menor fluxo de caixa por conta do cenário adverso e, consequentemente, menores dividendos. Algumas ações defensivas que enxergamos potencial de valorização são Ambev, Itaú, Ultrapar e Cielo.

Fora do Ibovespa, há oportunidades?

Existem oportunidades fora do Ibovespa, mas em um momento de retração da economia e aversão a risco, preferimos posições nas empresas mais líquidas.

Uma fuga de capital tende a penalizar as ações com menor liquidez. Com ações mais líquidas descontadas, preferimos ser mais conservadores, ao menos por enquanto.

E dentro do índice, há alguma ação ‘barata’?

Sim, existem oportunidades. No momento, procuramos empresas com excelente gestão, baixo endividamento, ‘valuation’ atrativo, em um setor mais resiliente. É o caso de Itaú, Ambev, BB Seguridade, Ultrapar e Cielo.

Uma opção interessante para compor a carteira seria algum ativo com receitas atreladas ao dólar. Com isso, o investidor tem uma proteção no portfólio, caso o real se desvalorize. Algumas alternativas seriam Fibria e Embraer.

Como está a procura por exposição ao exterior?

A procura tem sido frequente (...). Temos tido procura tanto por mandatos que são constituídos fora do Brasil e tem uma infinidade de possibilidades de investir, como por veículos locais dos investidores com recursos no país que buscam diversificação internacional.

Tem havido procura por fundos com exposição às Bolsas nos EUA e na Europa, sim, mas também por aqueles com exposição aos títulos de dívida corporativa.

O ambiente global atual, de taxas baixas de crescimento e juros, é bastante atrativo também para os gestores mais ativos de dívida corporativa. (...) Atualmente, a exposição internacional média das carteiras locais é de 10%, com tendência de atingir 30% ao longo do ano.

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