São Paulo/Boston - O bilionário americano Steven Bresky conseguiu por cinco anos se manter longe dos holofotes que normalmente acompanham grandes fortunas.

Em 2007, Bresky herdou a participação de 74 por cento que seu pai tinha na Seaboard Corp., empresa de comércio de commodities e transporte de cargas, que gerou quase um terço de sua receita de US$ 5,7 bilhões no ano passado com o abate de cerca de 5 milhões de suínos. Hoje, a participação do empresário de 58 anos vale US$ 1,7 bilhão.

“Ele lamenta ter que declinar da entrevista”, disse Amanda Doyle, assistente de Bresky, da sede da empresa no estado americano do Kansas, em 14 de março. “É que ele não participa de muitas matérias.”

Um levantamento das participações em companhias abertas dos Estados Unidos e da América Latina revelou Bresky e outros sete bilionários que não aparecem em nenhuma das principais listas internacionais de grandes fortunas. Entre eles, os antigos donos da Casas Bahia Comercial Ltda. A maior parte dos patrimônios desses bilionários é formada por fatias em empresas de capital aberto e ganhos de dividendos.

Bresky, presidente do conselho da Seaboard, conseguiu passar despercebido por manter suas ações, que acumulam baixa de 9 por cento desde que as recebeu como herança, por meio de duas holdings sediadas no estado de Massachusetts, a Seaboard Flour LLC e a SFC Preferred LLC. A Seaboard, que também tem operações nos setores de açúcar e energia elétrica, comprou metade da marca de peru Butterball por US$ 178 milhões no ano passado do Maxwell Group.

Sobrevivente do Holocausto

O crescimento da economia latino-americana está tem dado origem a uma nova leva de bilionários. No Brasil, é o caso de Samuel Klein, imigrante polonês de 88 anos e sobrevivente do Holocausto, e seu filho Michael, que se beneficiaram do aumento do consumo no país. Em 2009, Klein vendeu a Casas Bahia para Abilio Diniz, outro bilionário do varejo.

A família Klein recebeu pelo negócio 47 por cento da Via Varejo SA, unidade da Cia. Brasileira de Distribuição Grupo Pão de Açúcar. A participação vale US$ 2 bilhões, 54 por cento dos quais são de Samuel. Michel Klein, 59 anos, presidente da Casas Bahia e presidente do conselho da Via Varejo, controla o restante.

Os Klein também têm dinheiro em caixa. Como parte do negócio com Diniz, a família manteve a propriedade dos imóveis em que estão instaladas as unidades da Casas Bahia. O valor do aluguel pago por Diniz por esses imóveis é de R$ 140 milhões por ano.

A assessoria de imprensa da Casas Bahia disse que a família não estava disponível para comentar.

Longe do Vale do Silício

O americano Graham Weston, 48 anos, também escapou de das listas de bilionários, em parte por administrar uma empresa de tecnologia em San Antonio, no Texas, a cerca de 2.700 quilômetros do Vale do Silício. Weston é dono de cerca de 15 por cento da Rackspace Hosting Inc., fornecedora de sistema de tecnologia da informação para a Internet. A participação do bilionário na empresa vale quase US$ 1,1 bilhão.

A companhia abriu o capital em agosto de 2008. Desde que as ações da empresa atingiram a mínima histórica, de US$ 4 em fevereiro de 2009, o valor dos papéis se multiplicou por mais de 12 vezes, transformando Weston, o principal acionista, em bilionário.

Weston não gosta de falar sobre seu patrimônio. Há dez anos, ele assistiu à derrocada espetacular de empresas de Internet e, junto com seus sócios na Rackspace, decidiu adotar o que chamam de política sem estrelas.

“Queremos ser julgados por nosso conteúdo, não por nossa aparência”, disse ele em entrevista por telefone em 14 de março.

O bilionário está investindo parte de sua fortuna -- ele vendeu cerca de US$ 60 milhões em ações da Rackspace desde 2008 -- em programas de apoio a empresários e estudantes locais. Weston e funcionários da Rackspace já doaram US$ 2 milhões a esses programas.

“É uma forma de uma empresa interagir de maneira filantrópica, não apenas com dinheiro, mas com nosso próprio entusiasmo”, disse Weston. “Realmente adotamos um novo modelo, a ideia que uma companhia se torna responsável pelas escolas em sua região, e diretamente envolvida com elas.”

Aviões particulares

O magnata do setor de seguros William R. Berkley, de 66 anos, acumulou sua fortuna, avaliada em US$ 1,2 bilhão, com a criação do que é hoje a W.R. Berkley Corp. A empresa, com valor de mercado de US$ 4,9 bilhões e sediada em Connecticut, tem 48 unidades ligadas à operação de seguros, que vão de aviões particulares a segurança cibernética.

Berkley é dono de 18 por cento de sua empresa, participação que vale quase US$ 900 milhões. Ele também recebeu mais de US$ 51 milhões em dividendos desde 1980, assim como US$ 85 milhões em salários e bônus desde 1993. Em 2006 e 2007, Berkley levantou US$ 58 milhões com vendas de ações da First Marblehead Corp., que faz empréstimos estudantis e da qual o executivo é diretor desde 1995.

“Ele é muito reservado em relação a seu patrimônio”, disse Karen Horvath, porta-voz da empresa. “Ele prefere não estar em nenhuma lista.”

Químicos, cobre

O bilionário Antonio Del Valle, de 74 anos, transformou a Mexichem SAB numa das maiores fabricantes de produtos químicos das Américas após a compra de mais de 15 concorrentes desde 2007. O preço das ações da empresa mexicana, sediada em Tlalnepantla, aumentou para mais de 50 vezes o que era em 2002. Com isso, a fatia de 48 por cento na empresa detida pela família, hoje vale US$ 3,2 bilhões.

Del Valle iniciou sua carreira no setor financeiro. Presidiu o Grupo Financiero Bital SA até que seus sócios venderam o banco para o HSBC Holding Plc, em 2002. Como pagamento, recebeu dinheiro e ações da Mexichem, na época conhecida como Grupo Industrial Camesa.

Comunicados enviados às autoridades mexicanas indicam que, desde 2007, a família elevou sua participação na Mexichem ao reinvestir nela a maior parte dos dividendos e dos recursos levantados com uma oferta de ações em 2005.

Del Valle também é dono do banco Grupo Financiero Ve Por Mas SAB, de capital fechado, e da Elementia SA, que fabrica produtos de cobre e alumínio. Nessa última empresa, ele é sócio de Carlos Slim, o homem mais rico do mundo, segundo o Índice Bloomberg de Bilionários. Del Valle controla as três participações por meio de sua holding, o Grupo Empresarial Kaluz SA. A assistente pessoal de Del Valle disse que ele não estava disponível para comentar.

Metais preciosos do Peru

Impulsionados pela alta dos preços do ouro, Alberto Benavides e sua família viram sua fatia de 28 por cento do capital votante da Cia. de Minas Buenaventura SA, maior produtora do metal no Peru, quintuplicar em uma década, para US$ 2,7 bilhões. Hoje, Benavides, de 91 anos, é dono de US$ 1,2 bilhão em ações da empresa. Ele dividiu o restante em partes iguais entre seus cinco filhos.

Analisando dividendos, pagamentos de impostos e desempenho de mercado, a carteira de investimentos da família Benavides é avaliada em mais de US$ 250 milhões.

“Somos pessoas que não estamos interessadas em ostentação ou luxo”, disse Roque Benavides, que preside a empresa desde a aposentadoria do pai, por e-mail. “Somos pessoas trabalhadores cujo objetivo é contribuir para o desenvolvimento social do Peru.”

Alvaro Saieh, 62 anos, tornou-se bilionário após suas ações na Corpbanca, sexto maior banco chileno, se valorizarem 63 por cento em 2009 e mais que dobrarem no ano seguinte. Sua participação de 63 por cento no banco atualmente vale mais de US$ 2,1 bilhões.

Em dezembro, Saieh supervisionou a aquisição de US$ 1,16 bilhão da subsidiária colombiana do Banco Santander SA. O negócio ajudou a Corpbanca a tornar-se a primeira instituição financeira chilena a ser dona de um banco estrangeiro.

A assessoria de imprensa externa que representa Saieh disse que seus ativos de varejo, seguros e mídia, todos com capital fechado, valem US$ 2,6 bilhões, sem contar dívidas. SMU SA, a rede de supermercados e lojas do empresário, gerou receita de US$ 2,2 bilhões em 2010.

O número de bilionários desconhecidos é difícil de se estimar. “É difícil chegar num número. Você deve desconfiar de quem diz que consegue estimar esse dado”, disse Anthony DeChellis, chefe de private banking nas Américas para o Credit Suisse em Nova York. “É algo muito difícil de saber.”

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