Mercado repercute boatos de informação privilegiada no juro

Acusação de que grupo industrial teria usado informações privilegiadas nos juros futuros circulou pelas mesas de operações de corretoras e bancos

São Paulo – O assunto no mercado de juros não foi a esperada alta da Selic na reunião do Copom, mas suspeitas de uso de informações privilegiadas no mercado futuro de juros DI da BM&FBovespa. Uma nota publicada pelo blog Alerta Total, acusando um grande grupo industrial de ter usado informações privilegiadas para reverter na sexta-feira uma significativa posição que apostava na manutenção dos juros circulou pelas mesas de operações de corretoras e bancos, chamando a atenção dos operadores.

Segundo a nota, a empresa teria começado a reverter sua posição antes de o ministro da Fazenda, Guido Mantega, fazer o discurso reafirmando a disposição do governo em subir as taxas e antes também de o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, ter dado declarações sinalizando o possível reajuste.

Assim, a empresa teria passado a apostar na alta dos juros antes dos demais investidores no mercado futuro, que em boa parte ainda colocava suas fichas na manutenção da taxa em 7,15%. As declarações de Mantega e Tombini fizeram o mercado mudar suas posições à tarde, provocando forte alta dos juros futuros, principalmente os mais curtos, com vencimento em janeiro de 2014.

A nota, com acusações diretas a Mantega e ao governo, em tom até ofensivo, não cita fontes, apenas uma “raposa do mercado”. O anonimato da fonte e os ataques até a figuras que já saíram do governo, como o ex-ministro Antonio Palocci e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reduzem a credibilidade das denúncias. Mas elas dão detalhes das movimentações de contratos futuros na sexta-feira, atribuindo-as ao grupo industrial privado, que foram confirmadas por outros operadores que conversaram com o blog Arena.

Sem preocupação em ser discreto

Para um experiente executivo de mercado, que pediu para não ter seu nome citado, essa não é a primeira vez que isso teria acontecido, e o grupo em questão “é apenas o que age de maneira mais grosseira, sem se preocupar com possíveis reações, certo da impunidade, pois quem teria de investigar o vazamento faz parte do governo também”.

Já um operador de uma instituição financeira, que também pediu anonimato, confirmou que houve uma movimentação estranha no dia 12, com um grande volume de negócios que chamou a atenção. “Não é qualquer dia que alguém entra comprando 200 mil contratos de DI futuro em 2 minutos, especialmente para um vencimento só, 2014, quando o mercado está tranquilo”, diz. 


“Também não é todo dia que acontece uma mudança tão drástica na composição dos contratos futuros em aberto por tipo de participante, no caso, pessoa jurídica não financeira”, acrescenta.

Esse operador disse que fez questão de analisar as posições dos investidores pessoa jurídica não financeira no dia e observou que ela havia mudado drasticamente, de uma aposta na manutenção dos juros de 250 mil contratos futuros de DI para 200 mil contratos apostando na alta, de sexta-feira para segunda-feira.

Acusações de insider information no mercado futuro de juros já circularam no mercado no passado, envolvendo pessoas físicas. Mas não houve nenhuma confirmação ou punição até hoje. O blog Arena procurou a BM&FBovespa e o Ministério da Fazenda, que informaram que não iriam se pronunciar sobre as denúncias.

Já a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que fiscaliza o mercado, informou que iria analisar o pedido de informações sobre o caso. Mas informou que acompanha regularmente as informações e as movimentações do mercado futuro.

Choradeira dos perdedores

Especialistas do mercado lembram que sempre que há movimentos bruscos que provocam perdas para alguns bancos ou gestores surgem boatos de informações privilegiadas ou manipulação de mercado.

“Mas quando estão ganhando, os tesoureiros nunca falam disso, só quando estão perdendo”, diz um experiente executivo de banco, que admite, porém que isso não elimina a possibilidade de algo irregular ter ocorrido. Outro executivo de banco lembrou que não era a primeira vez que comentários desse tipo ocorriam nesse mercado.

Pode ser que a movimentação tenha sido absolutamente normal, e que tenha ocorrido com base em outras informações de mercado. De qualquer maneira, a repercussão que a nota teve e os comentários de que as acusações não seriam totalmente infundadas justificaria pelo menos uma análise mais cuidadosa do que ocorreu na sexta-feira, até para garantir a credibilidade do mercado, das instituições e do próprio governo.

“Nos Estados Unidos, no ano passado, os reguladores reforçaram as medidas de controle de vazamento de informações por parte de integrantes do governo”, diz um operador de uma corretora. “Se lá que é um mercado muito mais desenvolvido há essa preocupação, por que não aqui?”, questiona.