HSBC volta a crescer em captações externas após perder primeiro lugar

Empresa está participando de três das quatro ofertas brasileiras de títulos no mercado internacional em curso este ano

Nova York/São Paulo – O HSBC Holdings Plc, maior banco europeu por valor de mercado, está ultrapassando outros bancos no mercado de emissões externas brasileiras de títulos de dívida depois de perder a liderança no segmento pela primeira vez em dois anos para o Banco Santander SA em 2011.

O HSBC está participando de três das quatro ofertas brasileiras de títulos no mercado internacional em curso este ano, enquanto o Santander, maior banco da Espanha, por enquanto não liderou emissão, segundo dados compilados pela Bloomberg. Emissores brasileiros venderam US$ 2,6 bilhões no exterior na última semana, o melhor começo de ano da história e a terceira colocação entre países em desenvolvimento. Em 2011, o Santander coordenou a emissão de US$ 4,1 bilhões em dívidas do Brasil, em comparação a US$ 4 bilhões do HSBC.

O HSBC está correndo atrás de recuperar participação de mercado na maior economia da América Latina, depois que a concorrência com os bancos locais se intensificou e a crise da dívida europeia enxugou o mercado de emissões de dívidas no ano passado. O banco respondeu por 10,8 por cento das emissões externas brasileiras no ano passado, após concentrar 11,8 por cento do mercado em 2010 e 18,2 por cento em 2009. O governo brasileiro foi o primeiro emissor a acessar o mercado este ano, tendo vendido US$ 750 milhões em títulos de dívida com vencimento em 2021, com o rendimento mais baixo da história, de 3,449 por cento, em 3 de janeiro.

“Os participantes locais estão pegando uma fatia maior da torta e o resultado é uma redução nas fatias de mercado de instituições selecionadas de modo geral”, disse Alexei Remizov, chefe de mercado de capitais para Brasil do HSBC em Nova York. “Da minha perspectiva, continuamos a manter uma posição de liderança consolidada.”

Oferta da Vale

O HSBC, sediado em Londres, participou da originação de ofertas da Vale SA e do Banco Bradesco SA na semana passada. A Vale, maior produtora mundial de minério de ferro, captou US$ 1 bilhão em bônus denominados em dólar com vencimento em 2022 e rendimento de 4,525 por cento, ou 255 pontos-base a mais do que títulos de prazo similar do Tesouro americano. O Bradesco, segundo maior banco privado do País, emitiu US$ 750 milhões em notas denominadas em dólar com prazo de cinco anos e rendimento de 4,5 por cento.

O HSBC também está organizando encontros com investidores de títulos para o Banco do Brasil SA, maior banco da América Latina pelo critério de ativos, que ocorrem a partir de hoje, disse uma pessoa a par das conversas que pediu para não ser identificada por não estar autorizada a falar publicamente.


Malásia e Coreia do Sul

As taxas de títulos corporativos do País caíram 78 pontos- base, ou 0,78 ponto percentual, para 6,14 por cento, contra 6,91 por cento em 4 de outubro, que foi o maior nível em dois anos, de acordo com dados do JPMorgan. O rendimento médio de papéis corporativos de mercados emergentes caiu 86 pontos-base no mesmo período, para 6,27 por cento.

O total de emissões brasileiras de títulos no exterior neste ano está abaixo dos US$ 3,59 bilhões captados pela Malásia e dos US$ 3 bilhões captados pela Coreia do Sul, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.

O Santander, responsável por 11,2 por cento das colocações brasileiras de títulos de dívida externa no ano passado, foi um de apenas três bancos entre os 10 líderes que aumentaram sua fatia de mercado em 2011, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. As emissões brasileiras recuaram 5,7 por cento no ano passado para US$ 39,6 bilhões, já que a crise da dívida europeia abalou a demanda por bônus de maior rendimento dos mercados emergentes.

O número de bancos no Brasil que têm as redes de distribuição e vendas globais necessárias para liderar emissões internacionais de títulos para o Brasil subiu de 10 para 25 nos últimos dois anos, disse Eduardo Muller Borges, chefe de mercados de crédito do Banco Santander Brasil SA em São Paulo.

‘Mais difícil’

“A concorrência está ficando mais difícil”, disse Borges em entrevista. “Tivemos um segundo semestre de 2011 difícil e, ao mesmo tempo, vários players novos tentando abocanhar uma fatia desse mercado menor. Alguns bancos podem aceitar comissões menores das empresas de primeira linha porque usam a emissão de bônus para melhorar o relacionamento com os clientes de forma geral e podem ganhar fazendo outros negócios mais lucrativos com eles.”

O JPMorgan Chase & Co., que perdeu a liderança para o HSBC em 2009 e estava em segundo desde então, caiu para o terceiro lugar. Um representante do JPMorgan em São Paulo, que pediu para não ser identificado em obediência à política interna, não quis fazer comentários para esta reportagem.

O HSBC vai ter de se esforçar bastante para recuperar fatia de mercado no Brasil por causa do aumento da concorrência, disse Ricardo Mollo, que foi diretor de banco de varejo e superintendente de finanças corporativas do Itaú BBA SA por oito anos e hoje é professor de finanças do Insper em São Paulo.


‘Estruturas diferenciadas’

“Os bancos olham positivamente nossa economia, também nossa economia real, porque as companhias estão crescendo e estão investindo”, disse Mollo em entrevista por telefone. “Apesar da rivalidade, da competição entre os bancos, eles vão continuar tentando fazer operações aqui porque as companhias vão precisar de recursos.”

O Santander ultrapassou o HSBC em volume de operações em US$ 115 milhões, incluindo as operações que o Santander coordenou para si próprio com quatro outros bancos como coordenadores-líderes. Na metodologia da Bloomberg, os bancos não recebem crédito por suas próprias transações somente quando eles são os únicos líderes. No total, o HSBC coordenou 19 vendas de títulos em 2011 e o Santander, 17. O Itaú, sediado em São Paulo, ficou em terceiro lugar, com 15 operações.

Renato Ejnisman, diretor do Bradesco BBI, disse que os bancos vão procurar liderar emissões com vencimentos mais longos e em moedas diferenciadas para elevar seus lucros e contrabalançar a redução nas comissões decorrentes da maior competição entre eles.

“Os bancos que fizerem emissões menos usuais, com prazos mais longos ou moedas e estruturas diferenciadas, ainda vão conseguir uma boa rentabilidade com os títulos brasileiros no mercado externo”, disse Ejnisman em entrevista por telefone de São Paulo.