Educação a distância se reinventa e conquista o brasileiro

Metodologias especiais, interatividade e foco no aluno multimídia transformam o segmento

Rio de Janeiro – A educação a distância está indo longe no Brasil. Somente em 2008, data do último levantamento realizado pela Associação Brasileira de Ensino a Distância, havia mais de 2,6 milhões de brasileiros estudando online. Até o ano passado, o segmento tinha uma oferta de 1.752 cursos. Atualizados para os dias de hoje, estes números podem ser ainda maiores, mas nem sempre foi assim. A baixa adesão até os anos 2000 era reflexo de um modelo que privilegiava a tecnologia em detrimento de uma metodologia própria, o que hoje faz toda a diferença.

O modelo nascido no século XIX viveu por muitos anos atrelado unicamente à tecnologia de sua época. Primeiro, o ensino era difundido por correspondência. Depois veio o rádio, a televisão, o CD, a transmissão via satélite e, mais recentemente, a internet. Como em muitos mercados, a web revolucionou a forma de estudar a distância. Trouxe um mundo de conexões para o segmento, interatividade, mobilidade e flexibilidade, ingredientes fundamentais para o sucesso de escolas especializadas como FGV online e Englishtown e para a aposta de empresas como Petrobras, Vale, Banco do Brasil e Pirelli em seu modelo mais barato e de maior abrangência.

Mais do que uma plataforma favorável à educação a distância (Ead), a grande revolução está na metodologia. “Durante um bom tempo, o ensino a distância foi visto como de segunda classe porque ele sempre aconteceu a reboque das mídias. Nunca a partir de uma plataforma pedagógica”, aponta Tatsuo Iwata, vice-diretor geral da ESPM-RJ. “Hoje, as instituições estão pensando em como criar programas em que o projeto pedagógico tenha uma metodologia própria, construindo cursos que levem em consideração a linguagem correta”, afirma o especialista no assunto.

Modelo sofre transformação

“O Ead ressurgiu nos anos 2000 com foco no aluno. Antes, o foco era na tecnologia e não pensava no estudante. Usaram o meio como um fim achando que era o suficiente. A tecnologia serve para facilitar a interação entre as pessoas”, ressalta Felipe Spinelli, gerente comercial e de marketing do FGV online. Houve uma transformação no modelo com a entrada na era multimídia e digital, com uma rede como a internet que permite atualização e interação entre as pessoas em tempo real, a partir de uma plataforma social. “Se compararmos o que tínhamos nas décadas de 1960 e 1970, o que vivemos hoje é uma revolução”, completa Persio De Luca, gerente geral da EF Englishtown no Brasil.

O que antes se resumia a papel e texto ou apenas a uma voz, hoje ganhou contornos praticamente infinitos. Há texto, áudio, vídeo, trechos de filmes em alta definição, desenho, animação, cases, hipertexto, fóruns de discussão, chats, reconhecimento de voz e já se cogita até o dia em que o professor se materializará na frente do aluno onde quer que ele esteja com tecnologia de realidade virtual. Só o novo método da Englishtown é resultado de nada menos do que US$ 55 milhões investidos em pesquisa e desenvolvimento realizado em Xangai, Zurique e na Universidade de Cambrigde, sem contar os mais de 500 vídeos produzidos com atores e roteiristas de Hollywood. Tudo isso para atender 100 mil alunos, sendo 20 mil corporativos e dar conta de um crescimento de 60% ao ano.


No FGV online, o modelo é semelhante a uma turma tradicional. Cada um de seus cursos de graduação e pós-graduação segue um formato de grupo de alunos que fazem trabalhos juntos e chegam a trocar até 500 mensagens em dois meses, tempo de duração de uma disciplina. A escola tem 19 cursos de marketing, entre programas de curta duração e uma pós-graduação. Em 2000, a plataforma online de uma das instituições de ensino mais tradicionais do país tinha 16 funcionários e formava dois mil alunos por ano. Hoje, a equipe conta com 200 funcionários para atender a 40 mil alunos por ano em cursos pagos.

Modelos para o desenvolvimento

Há um ano e meio, o FGV online criou uma versão de cursos gratuitos. Neste período, o projeto foi acessado por dois milhões de alunos, dos quais 400 concluíram uma disciplina. Até pouco tempo atrás 2/3 dos clientes eram corporativos. Hoje, 50% são conquistadas no varejo com estratégias de marketing segmentadas. “As pessoas e as empresas estão confiando e valorizando mais o ensino a distância. O Ead aproxima as pessoas que não têm mais tempo de se deslocar em grandes cidades como Rio e São Paulo. Com ele, você ganha flexibilidade e mobilidade”, conta Felipe Spinelli, do FGV online.

A educação a distância é vista como um dos motores de transformação educacional do Brasil, capaz de colocar o país em outro patamar de desenvolvimento. A utilização da metodologia ganha um empurrão com a realização da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Uma parceria entre a Fundação Roberto Marinho e o Ministério do Turismo deu origem ao projeto Olá, Turista!, cujo objetivo é qualificar profissionais ligados ao trade turístico. Um dos treinamentos é na língua inglesa, realizado pela plataforma da Englishtown, a mesma utilizada na China para os Jogos Olímpicos de Pequim 2008.

O Olá, Turista! será implementado em seis cidades-sede da Copa de 2014, com capacidade para atingir até 80 mil profissionais de turismo. Desde o início, no ano passado, já atendeu 500 participantes no Rio de Janeiro e em Salvador. Estudar a distância é um caminho sem volta. “Hoje os adolescentes já estudam com a TV ligada, com o iPod no ouvido e falando com os amigos pelo MSN ao mesmo tempo. É um público mais preparado para receber esta metodologia”, explica Tatsuo Iwata, da ESPM, cujo modelo é direcionado apenas a cursos oferecidos para empresas e está criando um núcleo de estudos para implementar o Ead para o varejo.


Modelo presencial será mantido

A ESPM atua desde 2000 no segmento corporativo. Já treinou funcionários da Embratel e da Vivo em cursos focados em gestão e marketing, com aulas de negociação, estratégia, marketing de serviço e empreendedorismo. Ao todo, a escola já deu aula para cerca de seis mil pessoas online. “As empresas usam porque estão presentes em boa parte do país e, com o ensino a distancia, conseguem ter capilaridade”, aponta Iwata.

O avanço da educação a distância não significa que as aulas presenciais deixarão de existir. “O curso online oferece uma flexibilidade muito grande. O caminho não é um curso 100% virtual, o presencial não vai acabar de forma alguma, mas cada vez mais as pessoas estão ocupadas e não conseguem estar dois dias da semana em uma sala de aula. Por isso flexibilidade é a grande chave deste modelo”, avalia Spinelli, do FGV online. “Você pode estar com a sua família ou viajando. Muita gente que trabalha com marketing estuda na FGV online porque é impossível garantir que esteja em uma sala sempre. O foco não é estar dentro da sala de aula, mas obter conhecimento”, pondera o executivo.

O desafio do marketing é identificar momentos para levar o conteúdo certo no momento certo. “O aumento de alunos nos últimos anos está relacionado com uma percepção de que o Ead é mais atraente do ponto de vista de custo”, informa Persio De Luca, da Englishtown. Um curso de EAD chega a ser 50% mais barato do que os cursos tradicionais. “Além da questão do custo, as empresas buscam produtividade e eficiência nos investimentos. O Ead traz benefícios para todo mundo que precisa de um treinamento”, garante em entrevista.

Ainda existe uma grande oportunidade para o e-learning na medida em que ele é misturado ao conceito de redes sociais. O Englishtown Friends é uma plataforma própria da escola de idioma que conta com uma comunidade que permite às pessoas que têm interesse em praticar o inglês encontre outras com o mesmo objetivo. Elas se falam por meio de chat, têm blog, fórum e ferramentas de comunicação com áudio e vídeo. “Certamente teremos um boom nos próximos anos também com os dispositivos móveis”, adiciona De Luca. “O Ipad como dispositivo para e-learning é uma realidade. Os netbooks também são extremamente convenientes”, completa o gerente geral da empresa no Brasil. “Todos nós já fazemos ensino a distância. Se temos uma dúvida vamos no Google e podemos cair na Wikipédia”, reconhece Spinelli, do FGV online.
 
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