Como acabar com um crowdfunding – e as dicas para salvá-lo

O ZeBeléo não vai abrir as portas tão cedo, mas sua história ajuda a entender os erros de marketing fatais para um crowdfunding

São Paulo – Pedir dinheiro para desconhecidos e tirar seu projeto do papel: a proposta do financiamento coletivo, ou crowdfunding, parece a chance perfeita para um negócio de sucesso. Afinal, o que pode dar errado?

Como mostrou a recente campanha da hamburgueria ZeBeléo, muita coisa.

O projeto da Bel Pesce com seus amigos, o ganhador do Masterchef Leonardo Young e o blogueiro Zé Soares, foi cancelado após receber fortes críticas. Do nome do negócio às recompensas e reputação dos criadores, nada foi poupado pelo público.

Só pedir ajuda não é problema, afinal, diversas campanhas nos sites como o Kickante e o Catarse são exemplos de sucesso. A questão é como é feito o pedido.

O profissional de marketing Ivan Costa, veterano no Catarse com dois projetos bem-sucedidos, aponta que houve um erro no tom da campanha.

“Muitos projetos têm um lado social ou despertam o desejo do público. É preciso ter uma narrativa que faça sentido com o seu produto”, explica Ivan.

Quando o projeto “dos sonhos” é um negócio, esse público precisa ver um benefício tangível para ajudar, já que não existe uma identificação por um causa.

Segundo uma pesquisa feita pelo Catarse com sua base de usuários, 88% das pessoas colaboram financeiramente com um projeto porque se identificam com sua causa e valores.

Já para Candice Pascoal, presidente e fundadora da Kickante, o ZeBeléo falhou na transparência do projeto.

“O contribuidor quer entender porque vai dar seu dinheiro”, explica. “Na campanha, eles deixaram de explicar qual era a inovação ali”.

O ZeBeléo não vai abrir as portas tão cedo, mas sua história ajuda a entender os erros de marketing fatais para um crowdfunding.

Veja os principais erros e as sugestões de quem soube aproveitar a plataforma:

1. Não conhecer o público-alvo

Não saber quem é o público para sua campanha torna impossível entender como divulgá-la e organizá-la.

No Gotas no Oceano, criado pelo escritor Robson Pinheiro, a proposta de construir uma sede para o instituto filantrópico já arrecadou mais de R$ 250 mil.

Mas ele explica que a comunidade conhece seu trabalho há mais de trinta anos. “A ideia é fazer a pessoa se sentir parte de uma comunidade”, diz.

2 . Não passar confiança

É difícil convencer estranhos a confiar em um projeto. Mas Diego Reeberg, sócio-fundador do Catarse, garante: a principal moeda de troca do financiamento coletivo é a confiança.

Segundo ele, é essencial uma boa apresentação do projeto, com vídeo e texto bem explicados, com bastante transparência. “As pessoas precisam confiar que o projeto será bem executado”.

3. Ter um produto indesejável 

Sua ideia parece muito legal, mas se ninguém quer comprar, há um problema. Nas plataformas de crowdfunding, tem espaço para todo tipo de projeto, mas as pessoas querem uma razão para apostar nele.

Além do gosto, geralmente elas se mobilizam por causas nobres ou inovações.

Na campanha do Ivan Costa, que ultrapassou a meta de R$ 20 mil em quatro dias, seu público ama quadrinhos e arte. Então, o livro com artes inéditas de seus artistas favoritos foram mais que bem recebidos.

Nesse caso, o crowdfunding funcionou como uma pré-venda com a oportunidade de prêmios extras e exclusivos, como conhecer os artistas.

4. Não ter boas recompensas

Toda o esquema do crowdfunding gira em torno do retorno que o contribuinte recebe. O incentivo não precisa ser material, mas precisa ser condizente com o produto sendo oferecido.

No Gotas do Oceano, cada contribuição é associada à forma como aquele dinheiro irá ajudar, além das recompensas de audio-livros, aulas, palestras e homenagens. “Criamos cotas que iniciam em vinte reais e chegam até vinte mil reais e todas elas receberam doações”, diz Robson Pinheiro.

5. Perder a oportunidade de viralizar

Não dá para deixar passar a chance de divulgar sua campanha. Todos os entrevistados concordam que um dos maiores erros é depender somente do site para chamar a atenção dos contribuintes.

Antes de fazer a campanha, os criadores do Bluelux, um sistema de controle remoto para as luzes de casa, pesquisaram modelos feitos no exterior.

O vídeo do projeto também conta muito. “Ele tem que ir direto ao ponto”, conta o co-fundador da empresa, Wellington Soares. “A gente tinha que demonstrar que o produto já estava desenvolvido”.

A presidente da Kickante recomenda ao criadores usar as redes sociais e ter persistência na divulgação. “Arrecadação é distribuição e repetição”, explica.