Por dentro do armário chinês

Cibele Reschke, de Pequim

A sociedade chinesa é repleta de paradoxos. Muitos deles estão todos os dias nos jornais mundo afora – a queda de braço entre campo e cidade, entre comunismo e capitalismo, entre burocratas e empreendedores, entre poluição e sustentabilidade. Mas um duelo tão importante quantos esses para definir a cara da sociedade chinesa nas próximas décadas se dá dentro de casa, longe dos curiosos ocidentais: o crescimento da comunidade LGBT em famílias essencialmente confucionistas.

Confúcio foi um filósofo chinês que no século V a.C. pregava o relacionamento heterossexual com a finalidade de procriar como o estilo ideal de vida. As ações contemporâneas do governo em relação à comunidade gay ainda refletem esses valores. No início deste ano, cenas homoafetivas foram banidas da televisão nacional, sob a justificativa de que iriam de encontro à normalidade social. Embora predominantemente não religiosa, a China se revela um terreno hostil para quem sai do armário.

Em um sistema político que restringe a liberdade de discurso, ativistas LGBT são a exceção da exceção. Nascido na zona rural da província de Jiangsu, no sudeste do país, o cineasta Fan Popo, 31 anos, dedica sua carreira à causa LGBT. Como consequência, a exibição doe seu trabalho foge dos caminhos tradicionais. Seus mais célebres documentários, Mama Rainbow, de 2012, e Papa Rainbow, que acaba de ser lançado, jamais foram exibidos no cinema e enfrentam dificuldades até de se manter disponíveis online na China. A série Rainbow conta a história de mães e pais de homossexuais que apoiam a opção dos filhos, uma atitude ainda considerada excepcional no contexto chinês.

“Não tenho a intenção de carregar o título de revolucionário, apenas quero mostrar a harmonia estabelecida dentro famílias que aceitam parentes gay e a normalidade com que levam suas vidas”, afirma Popo a EXAME Hoje. De acordo com o relatório do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP) sobre diversidade de gênero na China, que acaba de ser lançado, quase 80% da visibilidade da comunidade LGBT na mídia de massa nacional é acompanhada por preconceitos, negativismos e estereótipos.

O incomum retrato positivo do relacionamento homossexual no contexto chinês levou Mama Rainbow a ser retirado da internet no ano passado pela State Administration of Radio Film and Television of China (SARFT), principal órgão de censura do país. A ação sem justificativa legal provocou Popo a processar o próprio governo e ganhar a causa, episódio inédito na história. Já que não existe lei que permita ou proíba a instituição de organizações e eventos pró-LGBT, assim como não há regulação para proteger essa comunidade contra agressão, a censura acontece de forma arbitrária, o que abre espaço para o questionamento.

“Jamais achei que fosse possível vencer a SARFT, mas nesse caso a falta de legislação me ajudou”, diz Popo. “Sirvo como exemplo para que as pessoas lutem por seus direitos.” Essa não foi a primeira vez que o artista enfrentou dificuldade na condução de seu trabalho. Diretor do Beijing Queer Film Festival, o maior festival de cinema gay do país, Popo já teve várias atividades relacionadas ao evento canceladas.

As justificativas para a censura integram um contexto em que a expressão da sexualidade é vista como um tabu, fruto de uma falta generalizada de conhecimento. Apenas 10% da população recebe qualquer espécie de orientação sexual na escola – educação pró-diversidade sexual é ainda mais rara, segundo o estudo do UNDP. “Sexo de forma geral é muito pouco discutido por aqui, e ainda é muito estigmatizado nos veículos de mídia. Ninguém se sente à vontade para se expressar”, diz James Yang, oficial do programa LGBT da UNDP na China, e um dos autores da pesquisa.

Ainda que o homossexualismo tenha sido descriminalizado em 1997 e que tenha deixado de ser considerado uma desordem mental em 2001, apenas um terço das aproximadamente 20.000 pessoas que responderam ao questionário não se importariam em se aproximar de uma pessoa LGBT ou considera um homossexual apto a criar uma criança.

Atualmente, 5% da população chinesa se declara gay (no Brasil são cerca de 6%). Entre eles, 58,8% são homens gay, 16,5% são pessoas bissexuais, 13,7% são mulheres lésbicas e 6,5% são transexuais. Existe uma irrisória proporção de pessoas que se consideram pansexuais, assexuais e intersexuais. Os números tendem a variar conforme a região analisada, já que há uma grande desigualdade social, cultural e econômica entre o interior e as zonas de desenvolvimento especiais da China. “É difícil quantificar a diversidade sexual e a sua devida aceitação, já que os censos realizados por aqui levam em conta a mínima parcela da população que se dispõe a falar sobre o assunto”, diz Zeqi Qiu, diretor do Center for Sociological Research and Development Studies in China da Universidade de Pequim.

A estimativa informal, no entanto, é que no país mais populoso do mundo, com 1,3 bilhão de habitantes, o número de pessoas LGBT seja três vezes maior, já que a grande maioria teme sofrer a rejeição social embutida na atitude de sair do armário. Esse medo levou 84% das pessoas gay casadas que responderam à pesquisa a se engajar em casamentos heterossexuais, e 13,2% delas a entrar em casamentos de “conveniência” (um homem gay se casa com uma mulher lésbica). Apenas 2,6% desses respondentes se uniram a uma pessoa do mesmo sexo com registro feito em um país estrangeiro onde a prática é legalizada.

Dentro de casa, não 

Diferentemente de outros países, onde pessoas LGBT tendem a sofrer mais preconceito no trabalho e na escola do que dentro de casa, na China a família é a instituição que mais reprime essa parcela da população. Mais da metade dos participantes da pesquisa do UNDP tem baixa aceitação ou completa rejeição entre seus familiares, enquanto menos de 30% deles se sentem igualmente rejeitados por professores, chefes ou líderes religiosos.

“Aqui as pessoas são educadas para seguir as normas e agir conforme a família espera, por isso a maior incidência de violência contra os gay já acontece dentro de casa”, afirma Trude Sundberg, norueguesa e professora da escola de políticas sociais na Universidade de Kent, em Londres, que passa um semestre por ano desenvolvendo pesquisa sobre minorias vulneráveis na China. “Por isso pode ser mais difícil assumir a homossexualidade na China do que seria em outro país ocidental.” Não são raros os casos em que jovens homossexuais são enviados a clínicas que falsamente prometem “reverter” o caso, relata Trude.

Entre os estrangeiros residentes na China que se assumem LGBT, existe a percepção de que o preconceito por parte da sociedade chinesa é menor, já que muitos assumem a diversidade sexual a valores capitalistas ocidentais. Ainda assim, há um grande choque cultural entre os expatriados. “Enquanto no Brasil eu converso abertamente sobre homossexualidade em qualquer situação, aqui em Pequim eu opto por maior discrição em um ambiente de trabalho”, diz Ítalo Alves, 24 anos, mestrando no Schwarzman College da Universidade de Tsinghua e fundador do TODXS, um think tank de diversidade LGBT no Brasil. O medo de ser prejudicado profissionalmente por causa da opção sexual assombra cerca de 45% dos homossexuais chineses, segundo a última pesquisa anual da Comunidade LGBT na China, lançada em 2015 pela WorkForLGBT, uma organização que pretende dar voz a profissionais LGBT no país.

A realidade é dura, mas a sociedade chinesa tem se dinamizado e há sinais de que a aceitação da comunidade LGBTI tende a melhorar nos próximos anos. A pesquisa da WorkForLGBT também mostra que, com a ascensão econômica, os homossexuais podem garantir melhor status social. Os resultados revelam que quase 50% deles têm nível superior completo. Enquanto o salário mínimo na China em 2015 fechou em aproximadamente 1.500 RMB, o salário médio da comunidade LGBTI em 2015 foi de cerca de 10.300 RMB. O potencial de consumo dessa parcela da população tem incentivado empreendedores a apoiar a causa LGBTI. O mercado gay chinês fatura 300 bilhões de dólares, segundo a consultoria LGBT Capital, o que faz da China a terceira mais rentável economia gay, atrás dos Estados Unidos e da Europa.

A população heterossexual jovem demonstra, segundo o relatório do UNDP, maior nível de aceitação a uma futura prole homossexual. “Percebemos também que grande parte das pessoas que entrevistamos ainda não tem certeza de que pode aceitar a comunidade LGBT, simplesmente porque não possui conhecimento suficiente, diz James Yang. “Para nós isso significa uma oportunidade de trabalhar com informação e solucionar o problema.”

Ainda não se sabe quando o casamento gay será legalizado na China, mas 85% das pessoas heterossexuais que responderam à pesquisa apoia a causa, ao passo que 80% é a favor da criação de leis que garantam a proteção dos direitos LGBT. Se os participantes do estudo têm uma mentalidade mais progressista do que a maioria da população chinesa é impossível saber. O que se tem certeza é de que existe não só uma demanda interna por direitos, mas também uma tendência internacional de busca por políticas públicas mais inclusivas. A criação de leis que amaciem as tensões sociais pode se tornar, nesse sentido, uma estratégia de legitimidade a ser considerada pelo partido em exercício.