Parar de comer alimentos com glúten melhora a saúde?

Segundo especialistas, não há qualquer evidência de que abolir o glúten ofereça vantagens a corredores saudáveis

São Paulo – Dê uma volta no supermercado, repare nos rótulo de pães, biscoitos, massas e farinhas. A quantidade de produtos com a inscrição “não contém glúten” é considerável. Pesquise na internet e lá estão sites e livros sobre a dieta livre do glúten. O apelo é tão grande que muitos corredores, sem qualquer restrição alimentar, andam se perguntando: será que vale a pena embarcar nessa onda?

O glúten é a principal proteína dos grãos de trigo, aveia, centeio e cevada, além do malte (subproduto da cevada). E cortar esse item da alimentação é fundamental para os celíacos. “Os portadores dessa doença genética têm intolerância permanente ao glúten. Quando ele chega ao intestino dessas pessoas, provoca alterações que impedem a absorção dos nutrientes da dieta, como proteínas, carboidratos, gordura — além de vitaminas, ferro e cálcio —, provocando sintomas como diarreia, perda de peso, anemia, dores articulares e osteoporose, além de infertilidade e depressão”, afirma Vera Lucia Sdepanian, chefe da Gastroenterologia Pediátrica da Unifesp. Após o diagnóstico de um médico, os celíacos devem retirar totalmente o glúten da dieta, por toda a vida. E consumir alimentos preparados com outros grãos, como arroz e soja (veja opções no quadro “Sempre à mão”).

Mas e quanto aos corredores sem restrições, deveriam abrir mão dos pães e massas tradicionais em busca de benefícios na saúde ou no desempenho? De acordo com especialistas, não. Lara Field, nutricionista que trabalha com pacientes celíacos na Universidade de Chicago (EUA), diz que não há qualquer evidência de que abolir o glúten ofereça vantagens a corredores saudáveis, em comparação a uma dieta equilibrada e com glúten. “A teoria de que eliminar o glúten vai melhorar a digestão e acelerar a recuperação dos exercícios não se comprova para a maioria”, afirma Lara.

É claro que você estará fazendo um favor a si mesmo ao trocar alimentos altamente processados por opções naturais e mais saudáveis, como frutas, vegetais, castanhas e grãos. Alguns dos grãos mais nutritivos — incluindo amaranto, arroz, soja e quinua — são naturalmente isentos de glúten e repletos de fibras, proteínas, vitaminas e minerais.

Muita calma

Lara Field alerta ainda que uma mudança mal planejada para a dieta sem glúten pode trazer prejuízos. Você pode acabar ingerindo quantidades insuficientes de carboidratos, vitaminas e minerais. “Algumas pessoas associam ‘sem glúten’ a ‘mais saudável’. Mas, se não tomar cuidado, o corredor pode acabar consumindo muitos carboidratos refinados e gorduras a mais, o que leva ao ganho de peso.” Além disso, não é fácil nem barato seguir uma dieta isenta de glúten. A proteína do trigo está presente em uma série de produtos, como sopas, molhos de salada, queijos cremosos, barras energéticas, sorvetes, achocolatados e temperos.

A nutricionista Julie McGinnis, que dirige o site theglutenfreebistro.com, encoraja os corredores que acreditam que o glúten esteja lhes causando problemas a consultar um médico. Aqueles que não forem diagnosticados como celíacos, mas continuarem apresentando sintomas, podem tentar eliminar totalmente o glúten da dieta por sete a dez dias para testar sua sensibilidade. “Se sentirem que isso aliviou o problema e a corrida melhorou, talvez o glúten seja o culpado”, diz Julie.

No entanto, antes de fazer alterações radicais, procure a orientação de um médico. Só um profissional pode ajudá-lo a formular um novo plano alimentar que atenda a todas as suas necessidades nutricionais. E corredores que comem alimentos com glúten sem efeitos colaterais podem ficar tranquilos. Esses são ótimos combustíveis para a corrida e o dia a dia.