O que está por trás do sucesso do coquetel Manhattan

Em 1880 um jornal da pequena Olean, em Nova York, apresentou o coquetel como “mistura de uísque, vermute e amargura”

Recentemente, fui até o bar Porchlight na 11ª Avenida, em Manhattan, sob os edifícios em construção de Hudson Yards. Nick Bennett, o principal bartender do lugar, estava atrás do balcão preparando um coquetel Manhattan.

Em outras palavras: Bennett estava de pé em meio às garrafas de bebidas que simbolizarão esse século na vida do distrito, agitando um drinque que sintetiza seu glamour desde os anos 1880.

Foi naquela época que um jornal da pequena Olean, em Nova York, apresentou essa “mistura de uísque, vermute e amargura” em seu registro jornalístico.

“Esses coquetéis são tão antigos que deixaram de ser uma simples receita. Viraram uma categoria”, disse Bennett, falando sobre o Manhattan e seus muito poucos pares comparáveis, como o Martini e o Old Fashioned.

Em uma noite movimentada, seu bar serve 30 ou 40, para todos os tipos de clientes. “A bebida está nesse estranho período de transição em que tanto mulheres jovens quanto homens velhos a pedem.”

Evidências anedóticas sugerem fortemente que pessoas de todas as idades e gêneros estão pedindo mais Manhattans do que nunca — embora as poções sejam feitas com novos centeios e velhos bourbons, componentes envelhecidos de forma variada em barris e engarrafados.

Os pares de Bennett da parte de trás do balcão criaram uma onda sem precedentes de variações válidas do Manhattan nos últimos anos. “Trata-se de um formato que todos gostam de desenvolver”, disse ele, “e que todos respeitam, por isso querem fazê-lo brilhar, acho eu. Mas não tem como comparar com o original”.

O coquetel resume a elegância, oferece um equilíbrio especial simples entre ervas e grãos, especiarias e frutas, um toque vibrante e forte.

Além disso, considerado um artefato da história social da indulgência, ele satisfaz a mente com sua opulência modernista. As pessoas bebiam antes do Manhattan — cerveja e vinho, bebidas a base de xerez, ponches e juleps, todo tipo de bebidas coloniais e prazeres primitivos –, mas não bebiam exatamente da mesma forma.

“Seu advento representa um momento divisor de águas na história dos coquetéis”, escreveu Philip Greene no livro The Manhattan: The Story of the First Modern Cocktail, de 2016.

“Pela primeira vez, um vinho importado, fortificado, aromatizado conhecido como vermute modificava a estrutura do coquetel, adicionando equilíbrio, nuance, sofisticação e doçura ao destilado usado como base. Ele completou a revolução e iniciou uma nova época.”

Além disso, não se tratava de algo para tomar em um bar de fronteira, e sim um combustível da cidade, incomparavelmente urbano em sua decadência casual e profundidade exuberante.

As histórias sobre as origens de muitos coquetéis clássicos envolvem trivialidades intrigantes (mesmo que pouco substanciais) e mitos esclarecedores (mesmo que sem fundamento).

A do Manhattan é, como deve ser, mais grandiosa. Arranhar sua suntuosa superfície é descobrir uma lenda fundadora de entretenimentos urbanos duradouros.

Esvaziando o copo, descobre-se, intacta, uma narrativa sobre a Era do Ouro da cidade de Nova York.