São Paulo – Depois de um mês inteiro fazendo sua arte de rua em Nova York, o grafiteiro britânico Banksy encerra hoje suas intervenções na cidade. Desde o dia 1º de outubro, ele desenhou em paredes, gravou vídeos e arquivos de áudio, fez quadros e esculturas, montou banca para vender obras (a preço de banana) e caminhões de arte itinerante e de protesto.

Cada uma das ações diárias foi registrada em seu site oficial. Lá expôs as contradições da sociedade atual, instigou reflexão sobre consumo e criticou práticas e hábitos comuns, pouco questionados pela maioria das pessoas.

Uma de suas mais recentes propostas, realizada no dia 29 deste mês, foi a reformulação de um quadro de paisagem comprado em um brechó por 50 dólares. Banksy pintou sobre a tela a imagem de um soldado nazista sentado, admirando a vista, e, em seguida, devolveu a obra ao brechó e colocou a obra à venda em um leilão online. Os fundos arrecadados serão revertidos para a caridade e, até a publicação desta matéria, o lance maior tinha sido de 310,4 mil dólares.

Provocações

No dia 27, a provocação se direcionou a um aspecto delicado da memória dos nova-iorquinos. Junto com a imagem de um muro onde foi escrita a frase “Este local contém mensagens bloqueadas”, ele divulgou um texto cuja publicação foi vetada pelo jornal The New York Times. Com uma formatação parecida com a página do periódico, o artigo escrito pelo artista chama o projeto One World Trade Center, que está sendo construído no Marco Zero da cidade, de “monstruosidade”.

Com frases de impacto, ele criticou a ideia de construir um prédio de 104 andares como forma de responder aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. "É fácil enxergar o One Trade Center como uma traição a todos que perderam suas vidas no 11/9, porque claramente reconhece a vitória dos terroristas", afirmou em uma passagem do texto.

No final, ele disse ainda “One World Trade Center declara que os dias de glória de Nova York se foram. Vocês realmente precisam levantar um prédio melhor na frente dele imediatamente. Ou, melhor ainda, deixem as crianças com rolos de pintura terminá-lo. Porque vocês atualmente têm sob construção uma placa de mil pés de altura em que se lê ‘Nova York – nós perdemos nosso nervo’”.

Em outra obra, registrada no dia 24, ele desenhou, sem permissão, a imagem de um homem com um buquê de flores murchas em uma das portas do Hustler Club, do editor de publicações pornográficas Larry Flynt. Dois dias antes, ele juntou alguns tijolos e fez sua própria “Grande Esfinge de Gizé”.

Uma galeria com duas obras de Banksy, em parceria com os brasileiros Osgemeos, foi montada debaixo de uma ponte, no dia 18. A inspiração veio do movimento Occupy, que levou jovens às ruas da cidade para protestar contra as desigualdades e a corrupção. Com a exposição em lugar tão incomum, ele quis alfinetar as mostras tradicionais.

Nas legendas das imagens, ele escreveu: "Você é o tipo de pessoa que gosta de ir a galerias de arte, mas gostaria que elas tivessem um pouco mais de cascalho? Então, esse espaço de exposição temporária é para você. Com apenas duas pinturas, mas possui também um banco, alguns tapetes e bebidas de cortesia. (...) As pessoas perguntam por que eu mostro minhas obras nas ruas, mas você foi a alguma galeria de arte recentemente? Elas estão cheias".

Consumo

Entre as mensagens mais provocativas, está a escultura de um Ronald McDonald mal-humorado, cujo enorme sapato vermelho é engraxado por um jovem humano, sujo e desanimado. A intervenção, publicada no dia 16, passou por diferentes unidades do restaurante McDonald’s durante a hora do almoço, naquela semana.

A ação revelada no dia 13 também levou o público a refletir sobre arte e seu preço. Naquele dia, uma banca instalada no Central Park tentou vender quadros feitos por Banksy a 60 dólares cada (130 reais), sem, claro, informar que eram originais do próprio artista. Até 18h, apenas três pessoas fizeram compras, algo completamente inusitado para um artista que já vendeu desenhos por mais de um milhão de dólares.

No dia 11, outra arte de impacto rodou pelas ruas de Nova York. Um caminhão “frigorífico” repleto de bichos de pelúcia que choravam e gritavam “desesperados” simbolizaram animais indo para o abate. Já no dia 5, outro caminhão recheado de plantas e desenhos que representaram um arco-íris e uma cachoeira com borboletas se tornou um jardim itinerante, em uma cidade cheia de prédios, mas com bem menos verde.

Veja no vídeo abaixo como foi o dia de vendas das obras de Banksy, no dia 13.

Veja também como foi a travessia do caminhão "frigorífico", com animais de pelúcia para o abate, no dia 11.

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