São Paulo - Em 2009, no mês de lançamento do filme Moscou, o documentarista Eduardo Coutinho disse que se sentia como um “velho de fraldas”. O longa foi a experiência mais dolorosa de sua carreira. Nas três semanas em que acompanhou a montagem de uma peça do russo Anton Tchékhov – objeto do documentário –, ele não deixou de questionar o que estava fazendo ali.

Limitado a observar a direção teatral de Enrique Diaz e o trabalho de improvisação dos integrantes do Grupo Galpão, Coutinho quase não fez entrevistas, atividade que compara ao exercício de um ator. É assim, interpretando, construindo cumplicidade, que ele estabelece com o entrevistado uma relação de entrega. “Se não estou falando com a pessoa, nada me interessa”, disse. Passados dois anos e superados o que ele definiu como “oito meses no inferno”, Coutinho encontrou alívio em As Canções, que estreia neste mês e foi resultado de uma escolha regida pelo prazer.

Nesse trabalho, 18 pessoas cantam e contam as histórias das canções que marcaram sua vida. Já Coutinho reassume seu papel: o de entrevistador, ou seja, ator. E é dessa fase de felicidade, na qual tudo parece voltar ao lugar, que o documentarista fala a seguir.

Na época em que você lançou Moscou (2009), li entrevistas nas quais dizia que depois de Jogo de Cena (2007) não havia mais sentido voltar a fazer o tipo de documentário que realizava antes. Como decidiu por esse novo projeto?

Eduardo Coutinho - A verdade é que queria fazer um filme que seria demasiado intelectual, o oposto de As Canções. Mas, ao mesmo tempo, me perguntava se queria realizar esse trabalho, que era caro e complicado e teria centenas de atores. Quando se faz essa pergunta, é melhor não prosseguir.

Dois meses antes de iniciá-lo, desisti, e daí havia uma equipe contratada. Optei então por algo fácil e no qual eu teria prazer. A pesquisa foi feita nos meses de dezembro e janeiro, filmamos em seis dias e a montagem demorou pouco mais de dois meses. Nenhum filme meu foi tão barato, rápido e simples.

Não sofri nesse processo e amo As Canções porque escolhi sabendo que não havia nada de difícil nem de original, embora seja original em sua forma. Sei que a crítica irá dizer que é uma diluição de Jogo de Cena e que não fui adiante, mas existe nele algo sobre música que nenhum outro filme possui, pois é possível entender que a canção e o Brasil têm algo de particular. É também um trabalho em que deixo de perguntar às pessoas coisas como “onde você nasceu”. Não quero fazer mais isso e dessa forma sinto que parei.

“Nunca fui tão desconhecedor do que fiz como em Moscou”, você declarou dois anos atrás. A sensação influenciou na escolha de algo simples?

Eduardo Coutinho - Não sei dizer. Em Moscou, houve um momento em que ninguém achava que existia um filme e foi o João (João Moreira Salles, cineasta) quem nos deu uma lógica, sem a qual não teria achado o caminho. Eu gosto de Moscou, mas sabendo que é para poucos. Não me arrependo nada de tê-lo feito, mas a experiência foi a mais dolorosa que tive.

Na Mostra de Cinema de São Paulo deste ano, você definiu As Canções como um longa mais para o afeto do que para o intelecto. Por quê?

Eduardo Coutinho - Sempre adorei que uma pessoa cantasse à capela. Se há uma pessoa ligada à música, eu peço que cante. Santa Marta – Duas Semanas no Morro (1987), por exemplo, tem dez músicas. A diferença é que, na montagem, eu não deixava somente a câmera na pessoa. Embora o cinema seja audiovisual, a fala ligada à imagem de quem a produz vale mais do que tudo. Se você tem pessoas que contam uma história, para que filmar um prédio? Passei a considerar abominável que isso fosse feito.

Como foi a seleção dos personagens?

Eduardo Coutinho - Alguém da Videofilmes (produtora) fez uma placa com um escrito dizendo: “Se você tem uma música que mudou sua vida, cante e conte sua história”. Duas pesquisadoras ficaram nos lugares mais variados, com uma câmera, esperando que alguém fosse até elas. Vi quase 250 vídeos, dos quais 200 foram eliminados.

E dos 42 selecionados, 18 ficaram. Houve gente que de cara eu já sabia que não iria entrar porque, nos primeiros cinco minutos de conversa, já estava com ódio da pessoa. Toda vez que entrevisto alguém ruim, o doloroso é ter que fingir que essa pessoa irá entrar. Se gosto, é diferente. Aí quero entender a pessoa, embora saiba que não vou entendê-la porque tenho apenas um fragmento. Os que estão em As Canções, os amo, o que não quer dizer que consiga passar dois dias com eles. Se passar, fico louco, mas o personagem construído é extraordinário.

Você disse que em Peões (2004) não conseguiu lidar com o silêncio de um personagem e o interrompeu. Já se emocionou em uma conversa?

Eduardo Coutinho - Vontade de chorar? Nunca. O fundamental é saber guardar a distância, é preciso estar ao lado do outro sem se fundir. Em O Fim e o Princípio (2006), um cara católico me perguntou se eu acreditava em outra vida. Para manter o diálogo, tenho que mentir e respondo que sim. Ele pergunta de novo e, como não há tempo, digo: “Gostaria de acreditar que houvesse muitas”. Fui verdadeiro sem romper a possibilidade de que a relação continuasse. Outras vezes, para manter a comunicação, falo bobagens. Em As Canções, digo para uma das mulheres: “Você não sabe que a vida é triste?” A frase escapou, mas é uma tolice.

Soube que na única vez em que refez uma entrevista, detestou o resultado. Como foi?

Eduardo Coutinho - Foi no filme Santo Forte (2002). A mulher tinha uma história espantosa, mas era prolixa. O marido entrou contando o episódio, mas eu achava que era ela quem deveria contar. Tentei a segunda vez. Não deu certo. Comecei irritado porque já sabia as respostas. Não fui suficientemente ator para fingir que não sabia. Quando você finge mal, não dá. É preciso ser um ator. Eu sou um ator, aliás. Você acha que na vida real sou como nas entrevistas? Sou mal-educado! Pobre das pessoas que me conhecem.

Uma mulher que está em As Canções havia participado de Babilônia 2000 (1999), não?

Eduardo Coutinho - Em Babilônia, a Fátima cantava Janis Joplin com um inglês que só ela entendia e era sensacional. Mas eu não queria repetir a mesma música. Fizemos então uma entrevista de uma hora, na qual ela cantou uns sete louvores, entre eles, um lindíssimo. Em uma primeira versão, ela entrava cantando esse louvor. Acontece que era tão poderoso que esmagava os outros. No fim, ela disse que iria cantar para mim e cantou Ternura, da Wanderlea. Ela se lembrou do pedido que eu havia feito na época de Babilônia. É a única fraude do filme porque Ternura não é a canção da vida de Fátima.

Em Moscou, também pediu aos atores que cantassem Ternura. Por quê essa música?

Eduardo Coutinho - A primeira ficção que fiz foi em 1967, O Pacto. Começava em um bar, onde um homem e uma mulher dançavam. Eu precisava escolher uma música e achei um LP chamado Hits da Jovem Guarda. Nesse álbum, estava Ternura e a escolhi para essa cena.

Mal sabia que ficaria como um fantasma na minha vida. Talvez seja porque o filme não funcionou, mas me dá a impressão de que era algo que tinha que ser: um LP que encontrei numa loja, o coloquei no longa e de repente passou a ter um significado maior. Não possuo música da minha vida, mas, se tivesse, Ternura seria uma delas. E há uma parte em que a Wanderlea fala “engratidão”, em vez de ingratidão. Tenho a tese de que ingratidão você perdoa, mas “engratidão” não.

Você costuma cantar?

Eduardo Coutinho - Não, canto mal, mas adoraria ser um grande cantor. E talvez tenha feito esse filme por causa disso. Acho que ser um cantor é algo fascinante. Parei também de escutar música há 20 anos. Não teve nenhum motivo específico. Deixei também de ir ao teatro, a recitais. A invenção do CD coincidiu com a época em que decidi me afastar do mundo. Há pouco tempo, descobri que o CD toca também em DVD. Se você perguntar o que sei dos Beatles para cá, não sei de nada. Então não me pergunte o que é house e o que é techno porque não saberia dizer.

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