São Paulo – A indústria já lançou diferentes produtos para incentivar crianças a comer de maneira saudável sem fazer cara feia, mas um projeto conceito elaborado pela designer brasileira Luiza Silva levou o desafio a outro nível. A jovem de 24 anos inventou o Atomium, uma impressora 3D de alimentos, que tem como ingrediente a base molecular da comida. Essa ideia fez com que ela conquistasse o segundo lugar no concurso anual Design Lab, promovido pela Electrolux, cujo tema proposto foi “Vida Urbana Inspirada”.

O prêmio foi entregue em outubro, em Estocolmo, na Suécia, onde ela explicou como funciona sua engenhoca. “A partir do pedido de sabor e formato desejado da comida, Atomium constrói o alimento a partir de dados médicos do usuário, preparando uma refeição com balanço nutricional, conforme as necessidades de cada usuário”, disse Luiza em entrevista a EXAME.com.

Quem determina o formato da comida é a própria criança (principal público alvo) que opera a máquina, uma vez que basta mostrar um desenho ao aparelho para que ele identifique a estrutura e construa cada camada de acordo com o pedido. O projeto teve base em uma vasta pesquisa sobre tecnologias existentes, sustentabilidade e comportamento das famílias.

Durante um ano e meio, Luiza desenvolveu o trabalho, que foi apresentado para concluir a graduação na Universidade Tecnológica Federal do Paraná e aproveitado no concurso da Electrolux. Ao longo deste período, ela realizou testes e dinâmicas com 40 crianças em duas escolas de Curitiba para saber os motivos da má alimentação dos pequenos.

“Tentei unir características como a criatividade e o lúdico das crianças na alimentação saudável, incluindo verduras e alimentos frescos nas refeições, e consegui resultados e conclusões muito interessantes que fortaleceram o conceito e a ideia da proposta Atomium”, afirma. Com relação à tecnologia, mesmo parecendo impossível, a realidade do trabalho da designer está mais próxima do que se pode imaginar.

Segundo ela, atualmente já existem impressoras 3D para uso doméstico e há pesquisas que também mostram a possibilidade de “construir” alimentos, usando comida triturada e líquida, dividida em cartuchos e colocada em camadas. Mas ainda há caminho a percorrer até um possível lançamento no mercado. “Acredito que o caso de aplicação com alimentos precisaria de mais testes para validá-las viáveis comercialmente para o mercado atual. O projeto necessitaria de mais estudo na área química, permitindo mais pesquisa com ligação de moléculas e desenvolvimento de alimentos a partir disso”, afirma.

Para Julio Bertola, diretor de design da Electrolux no Brasil, a aplicação de projetos vencedores como o de Luiza não é necessariamente imediata. Antes de chegar às prateleiras, os produtos passam por avaliações sobre sua viabilidade, sobre a tecnologia existente para torna-lo viável e sobre se o consumidor está preparado para lidar com algo assim no cotidiano. Mesmo sem muita pressa, a ideia é sempre aproveitada.

“É um processo lento. Muitas coisas estão muito à frente. Para nós é muito importante para ver os caminhos que aparecem, ver como esses jovens estão pensando o futuro, porque eles são base do futuro. Eles já estão vendo essas tendências na convivência deles, nas universidades, na internet, nos diversos aspectos da vida”, diz.

A colocação obtida por Luiza nesta edição do Design Lab foi a melhor já alcançada por um brasileiro na história do concurso, que existe desde 2002. Na visão de Bertola, esse é apenas um sinal dos avanços que o país tem mostrado nos últimos anos na área do design. “Já que temos tantas dificuldades para resolver, como em casa, no transporte, as pessoas no Brasil estão achando soluções que são para nós, mas podem ser globais. Nós queremos pegar essas pessoas e fazer junto com elas”, afirma.