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Desfile | 22/02/2012 10:29

Carnaval na Gaviões: foi tudo um sonho

O jornalista da ALFA desfilou na Escola de Samba da maior torcida organizada corintiana e conta como foi

Roberto Amado, da

“Vamos arrebentar, gente. Isso aqui é coisa séria!”, evoca ele. “Todo mundo cantando. Quem não souber a letra, mexe a boca”. A mulher do meu lado, choraminga: “Tá pesado, não agüento mais”. Ninguém consegue se mexer direito, a não ser para caminhar, alguns passos de cada vez, em direção à avenida. Não se vê nada do desfile. Nada. Estamos apenas perfilados esperando a hora da entrada.

O desânimo já seria geral mas, de repente, a bateria liga o motor. Uma onda de energia, quase visível, se desloca em nossa direção e tudo muda. O rosto das pessoas se transforma, a fantasia fica mais leve, e apesar das dificuldades, todos começam a se mexer. “´Tá chegando a hora”, grita o chefe. “Vai Corinthians!”, se manifesta um integrante da ala. Dizer que a fantasia já não pesava mais é mentir. Mas a partir daquele momento o desconforto e o cansaço já não prevaleciam.

Entramos na avenida e o espírito corintiano da Gaviões toma conta de vez da ala. Todos cantam e fazem a tímida coreografia: impossível realmente dançar. Há uma intensa integração com o público. Mandam beijos, acenam, cantam junto, batem com o punho fechado no peito. Se você não se deixar emocionar, não tem graça.

Eu já não sinto os meus pés no chão — porque se sentisse, não conseguiria dar sequer mais um passo. Estou exausto. Mas continuo, intenso, movido por aquela onda de energia. É tudo muito rápido. E quando você chega na dispersão, a impressão é de que aquele trajeto na avenida foi apenas um sonho.

A lembrança é fugidia. Afinal, o que aconteceu mesmo? Eu não vi nada, nem sequer a bateria. Lembro apenas de alguns rostos e olhares do público emocionado. Alguém comenta: “desfilar é como a vida. Você sofre antes e depois e aquele instante parece mágica”.

Na dispersão, não há tempo para mais nada. Você é simplesmente evacuado em menos de trinta segundas. E de repente está na rua, entre ônibus, vendedores de bebidas, policiais e todos aqueles extra-terrestres, exaustos, carregando suas fantasias. Há um longo retorno a pé até chegar ao meu destino. Arrasto-me, no limite das forças, carregando os ornamentos na mão.
Pronto, o sonho acabou. A vida continua.

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