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Perfil | 01/02/2012 12:20

Nelson Rodrigues foi mais do que um tarado e reacionário

Rótulos simplistas como esses escondem um homem tão contraditório quanto qualquer mortal

Marcella Franco e Valmir Santos, da
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Chico Nelson/Veja

Nelson Rodrigues

"Querem me chamar de reacionário, chamem. Querem me pichar como reacionário, pichem", dizia Rodrigues

São Paulo - "Querem me chamar de reacionário, chamem. Querem me pichar como reacionário, pichem. Querem me pendurar num galho de árvore como ladrão de cavalo, pendurem.” Em uma exaltada retórica que terminaria obviamente por afirmar o contrário do que sugeria no início – “Realmente, eu sou um libertário” –, Nelson Rodrigues assume, ironicamente, o epíteto que lhe reservaram para o final da vida. Apoiador declarado da ditadura militar brasileira e anticomunista ferrenho, o “reacionário” Nelson provocava arrepios na esquerda.

Mas, durante boa parte de sua vida, quem fazia o sinal da cruz à menção de seu nome eram os que resistiam a uma época de mudanças constantes nos padrões de comportamento e que, por sua vez, lhe cunharam o apelido de “tarado” por causa de suas peças e folhetins recheados de adultérios e incestos. Atacado pelo flanco esquerdo na política e pelo direito na área dos costumes, o tarado de suspensórios, o reacionário amigo do general Emílio Garrastazu Médici, que presidiu o Brasil no auge da tortura, era bastante mais complexo e contraditório do que os rótulos podem cravar.

Longe, por exemplo, do fervor sexual de uma Engraçadinha, a fogosa adolescente capixaba do folhetim Asfalto Selvagem (1960), Nelson Rodrigues conduzia a vida de maneira a estar sempre nos conformes do compêndio da moral e dos bons costumes – em termos rodriguianos, naturalmente, mas de qualquer forma bem longe do que se podia imaginar de um tarado. Com dois casamentos em seu currículo e alguns pares de casos extraconjugais, Nelson era machista com a época em que viveu – ao mesmo tempo que marcava encontros vespertinos com amantes, adulava com flores e bombons a Amélia que o aguardava em casa. E ai de Elza, sua primeira mulher, se ousasse uma roupa mais curta ou pintura no rosto. Enquanto isso, o “tarado” declarava acreditar no amor eterno e lamentava a banalização da nudez pelo biquíni.

Acreditar que sua obra seja uma cartilha de pecados e tabus é também apenas uma leitura rasa dos homens universais que Nelson punha em movimento no subúrbio carioca. Ele mesmo afirma que suas peças são obras morais, que “deveriam ser encenadas na escola primária e nos seminários”, ao que os estudiosos, em uníssono, respondem relativizando qualquer moralidade nos textos, para o bem ou para o mal. “Ao chamar-se de tarados os personagens, arquétipos de Nelson Rodrigues, cai-se no mesmo e profundo ridículo que corresponderia a uma acusação desse tipo feita a Édipo, do Édipo Rei, de Sófocles”, escreveu o psicanalista e escritor Helio Pellegrino em texto do volume Teatro Completo – Nelson Rodrigues.

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