Hollywood reage à declaração de Bertolucci sobre cena de estupro

Na cena, a atriz Maria Schneider contracena com Marlon Brando um frame em que o ator usa manteiga como lubrificante nas partes íntimas da jovem

“Eu não queria que Maria fingisse a sua humilhação, a sua raiva. Eu queria que Maria sentisse.”

É com esse argumento que o diretor do filme O Último Tango em Paris, Bernardo Bertolucci, admite ter planejado a cena de estupro da atriz Maria Schneider.

Na cena do filme de 1970, a atriz, com 19 anos, contracena com Marlon Brando, na época com 48, um frame em que o ator usa manteiga como lubrificante nas partes íntimas da jovem.

“Depois do filme a gente quase não se viu, porque ela me odiava. A sequência da cena com a manteiga foi uma ideia que eu tive com Marlon Brando no dia da filmagem pela manhã. Mas eu me comportei de uma maneira horrível com Maria porque eu não contei a ela o que iria acontecer. Eu não contei porque eu queria sua reação como menina, não como atriz. Eu queria que ela reagisse a cena em que ela se sentiria humilhada, que ela sentisse e gritasse ‘não, não’. E eu acho que ela nos odiou, a mim e ao Marlon, porque não contamos a ela esse detalhe da manteiga como lubrificante. Eu ainda me sinto muito culpado por isso. Eu não me arrependo de ter feito essa cena dessa maneira, mas me sinto culpado. Para fazer filmes, algumas vezes você precisa obter coisas e para isso você precisa ser completamente frio. Eu não queria que Maria fingisse a sua humilhação, a sua raiva. Eu queria que Maria sentisse. E por isso ela me odiou o resto da vida.”

A declaração feita pelo diretor italiano em 2013 a uma televisão holandesa foi republicado pela ONG EL Mundo De Alycia no Dia Internacional contra a Violência de Gênero.

Com mais de um milhão de visualizações, o vídeo se tornou pauta de discussão nas redes sociais, nas organizações em defesa dos direitos da mulher e em Hollywood.

Apesar de não ser recente, a declaração chocou atores e outros diretores da indústria do cinema.

Nomes como Jessica Chastain e Chris Evans publicaram no Twitter que não voltarão a assistir ao filme e nem devem respeitar Bertolucci ou Brando como antes. A diretora Ava DuVernay classificou a cena como “indesculpável”.

Schneider nunca mais gravou cenas de nudez após Último Tango em Paris, e enfrentou problemas com drogas e depressão.

Ela morreu em 2011 devido a um câncer e, em 2007, revelou em entrevista ao Daily Mail que havia se sentido “humilhada e violentada” por Bertolucci e Brando.

“Deveria ter chamado a meu agente ou fazer meu advogado vir ao set porque não se pode forçar alguém a fazer algo que não está no roteiro, mas, naquela época, eu não sabia disso. Marlon me disse: ‘Maria, não se preocupe, é só um filme’, mas durante a cena, embora o que Marlon fizesse não fosse real [não houve penetração], eu chorava de verdade. Senti-me humilhada e, para ser honesta, um pouco violentada por Marlon e Bertolucci. Pelo menos foi só uma tomada”.

De acordo com a Lei 12.015/2009 do Código Penal brasileiro, o estupro é caracterizado por o “emprego da violência ou grave ameaça, em que o sujeito constrange alguém a ter conjunção carnal ou praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso […] com a penetração completa ou incompleta do pênis na vagina, com ou sem ejaculação […]”.

Separamos alguns depoimentos sobre o caso:

“Para todas as pessoas que amam esse filme, o que vocês estão vendo é uma garota de 19 anos ser estuprada por um homem de 48. O diretor planejou o ataque.”

“Os dois são indivíduos muito doentes para pensar que estava tudo bem.”

“Eu nunca vou olhar para este filme, Bertolucci ou Brando da mesma forma. Isto é além de nojento. Sinto muita raiva.”

“Eu sentiria muita raiva também. Os dois deveriam estar presos.”

“Todas as copias desse filme deveriam ser destruídas. Ele contém cenas de estupro.”

“Maria Schneider, que se internou num hospital psiquiátrico por alguns dias para que pudesse estar com sua namorada Joan Townsend. Mesmo lá foram assediadas e fotografadas. Descanse em paz, bela senhora. Eu sinto muito que a arte se tornou dor ao invés de libertação para você.”

“Ele sente zero remorsos. Só reclama que ela odiou ele.”

“Indesculpável. Como diretora, mal consigo entender. Como mulher, fico horrorizada, enojada e enfurecida.”

Essa matéria foi originalmente publicada no portal HuffPost.

Comentários

Não é mais possível comentar nessa página.

  1. Paulo Rodrigues

    *