Exclusivo: “Trump é um grande ator”, afirma Alec Baldwin

Ator americano fala sobre como é interpretar o presidente americano no programa de humor Saturday Night Live

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LOS ANGELES — A primeira vez que Alec Baldwin se transformou em Donald Trump ele não sabia o que fazer. “Eu me lembro de ser levado pelas coxias do estúdio, na escuridão completa – temos uma pessoa que nos guia, para podermos chegar até o palco sem a plateia ver – e ir sentindo um nó no estômago cada vez mais apertado. Fisicamente, a transformação era perfeita — eu tinha a peruca, a roupa, a gravata ( a gravata e a peruca são muito importantes) eu tinha a parte física dele, mas não tinha a menor ideia de como eu iria me aproximar dele, como personagem.”

Isso foi em 1 de outubro de 2016, na abertura de um episódio do programa de comédia Saturday Night Live (SNL). A ideia tinha sido de Lorne Michaels, criador e produtor do SNL, e grande amigo de Baldwin — Kate McKinnon, uma das comediante principais do programa, seria Hillary Clinton, e o Donald Trump de Baldwin iria debater com ela na abertura fria (o começo de um programa ao vivo, antes da entrada do apresentador) do episódio. Na época, Baldwin estava comprometido com um projeto de longa-metragem de outro amigo, o director Rob Reiner, que deveria começar a ser filmado em Nova Orleans, no mesmo período. “Eu tinha dito a Lorne que não conseguiria fazer o esquete do SNL, ele me ofereceu um jato particular para me levar de Nova Orleans a Nova York, eu continuei dizendo que não, que era muita confusão. Só que de repente houve algum problema e o projeto do filme não estava mais acontecendo. Foi uma espécie de conspiração cósmica, sei lá…”

Desde aquele sábado de outubro Baldwin já se transformou em Donald Trump dez vezes para Lorne e o SNL – sem contar uma aparição ao vivo, em janeiro, num protesto anti-Trump em Nova York. Seu Trump, um bufão arrogante e desconexo assutadoramente próximo do personagem real, é, possivelmente, seu papel mais icônico desde o chefe de Tina Fey na série 30 Rock, o poderoso e vagamente surreal Jack Donaghy (que, segundo Fey, foi inspirado em Lorne Michaels).

“A maioria dos atores não gosta de fazer esses papéis de pessoas duronas e mandonas, possivelmente antipáticas”, Baldwin diz, numa conversa ao fim de tarde em Los Angeles, onde veio promover o lançamento do longa de animação Boss Baby, no qual ele dubla o bebê mandão do título. “Atores preferem o herói que luta, que sofre, que vence obstáculos, com quem a plateia se identifica. Meu sonho é fazer um papel assim, também. Mas, enquanto isso, não tenho receio de fazer esses sujeitos abrasivos.”

Donald Trump, contudo, representou um desafio a mais. De volta àquela jornada na escuridão dos estúdios da NBC, Baldwin recorda a mistura de sensações, do pânico à ansiedade, que levara, afinal, a chave para criar o “seu” Trump: “Eu detestava profundamente o personagem. Detestava e, é claro, ainda detesto. Como todo ator, eu buscava algo de humano que eu pudesse usar para abordar o personagem. E simplesmente não conseguia achar.”

A chave veio no último minuto. Baldwin finalmente percebeu que Donald Trump é uma pessoa profundamente triste. “Ele é uma pessoa amarga, vingativa, profundamente infeliz, não importa o que aconteça”, diz. “Ele venceu uma eleição na qual investiu tudo, e continua se comportando como se tivesse perdido. Continua amargo, raivoso e infeliz.”

Baldwin, um típico liberal democrata de família de origem irlandesa de Nova York, nunca se encontrou pessoalmente com Trump a não ser, ele diz, “de passagem”. “Já estivemos juntos em eventos em Nova York, no passado, mas não passou disso. Não me lembro de ter trocado palavras com ele. Mas ele se relaciona apenas com um pequeno círculo de pessoas que ninguém sabe bem quem são. Durante algum tempo as elites de Nova York tinham por ele aquele mínimo de respeito por ser, afinal, um homem de negócios bem sucedido, que tinha herdado e expandido o império do pai. Mas aos poucos até esse mínimo foi desaparecendo. As pessoas passaram a, no máximo, tolerá-lo”, diz Baldwin. E como está essa Nova York de elite na era Trump, pergunto. “Sabe o 11 de setembro?”, Baldwin responde. “É complicado comparar com o 11 de setembro, mas é o mais próximo. Há uma sensação de catástrofe no ar.”

Prestes a completar 59 anos em abril, Baldwin sempre foi engajado politicamente no espectro oposto de seu irmão caçula, Stephen, um conservador que apoia Trump (“nossos jantares de família estão ficando acalorados demais, então banimos o assunto política”, diz o ator). Antes de se tornar ator Alec pensou em seguir uma carreira política – em 1980, aos 22 anos, ele trabalhou como estagiário no escritório de um congressista democrata. “Infelizmente, na minha juventude, eu estava focado em ganhar dinheiro. Achei que ser ator era o caminho mais rápido. Como estava enganado!”

O interesse e o envolvimento com política, contudo, continuaram ao longo de sua carreira artística – Baldwin participou ativamente de todas as campanhas presidenciais do partido democrata, e esteve particularmente envolvido com a eleição de Barack Obama, em 2009. É por isso, ele diz, que Trump lhe provoca repulsa que vai além da simples polaridade do espectro liberal/conservador. “Eu conheço conservadores. Eu respeito muitos conservadores, sou amigo de conservadores. Trump não tem motivação política. Tudo nele são negócios, vendas, dinheiro em caixa, marketing, enriquecimento dos amigos. Nunca vi isso em minha vida – essa completa violação dos nosso princípios mais básicos. Se era a hora de o pêndulo ir para o lado conservador, não entendo por que os republicanos não escolheram um ser mais humano e uma pessoa mais estimável. Estive com Mitt Romney numa estação de esqui, durante umas férias com minha família, e ele me pareceu um ser humano de verdade, uma pessoa perfeitamente abordável. Por que não ele? Eu ainda estaria na oposição, mas pelo menos seria um diálogo compreensível.”

Uma parte das raízes da atual era sombria dos Estados Unidos está, segundo Baldwin, em questões mais profundas: “A verdade é que os norte-americanos têm que aprender a viver realmente melhor – de um modo mais simples, com menos gasolina, menos carros, menos consumo, menos lixo, menos carvão. E menos trabalho insano – mais lazer, mais tempo para a família, para o convívio. E o país tem que abrir mão de ser a polícia do mundo, se meter onde não é chamado, criando um ciclo infindável de guerras e destruição. É uma palavra que detestamos, mas precisamos sacrificar muitas coisas que tomamos como certas se quisermos sobreviver como nação.”

A outra parte, ele acrescenta, está num feito que, como ator, ele é obrigado a reconhecer: “Tenho que admitir que Donald Trump é um grande ator. Como ele pôde convencer milhões de eleitores que ele era, de verdade, aquele homem de negócios brilhante que ele interpretava na TV (no reality show O Aprendiz)?”