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A escritora na Academia Brasileira de Letras: “Nunca fui de puxar muita angústia”
São Paulo - A carioca Ana Maria Machado não consegue dizer ao certo quanto tempo trabalhou como jornalista, quantos livros escreveu nem quantos países conhece. Mas sabe exatamente o que significa para sua obra e seus 70 anos de idade o número 201 da principal avenida de Manguinhos, uma aldeia de pescadores com pouco mais de 1,5 mil habitantes, a 30 km de Vitória (ES).
No vilarejo, quando nem luz elétrica havia, a hoje presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) já passava as noites cantando e ouvindo as histórias dos vizinhos.
Agora é para lá que retorna, uma vez por mês, em busca de sossego, caranguejo, casquinha de siri com cerveja, bobó de camarão, peroá com banana frita, banho de mar ao fim da tarde e inspiração – porque, nas palavras dela, Manguinhos é excelente para visitar os reinos silenciosos.
“Aqui eu leio muito, penso muito, fico muito quieta, trabalho muito. Tenho certeza de que, sem os verões em Manguinhos, eu escreveria de um jeito bem diferente”, diz a autora, na simpática casa que mantém no balneário capixaba. Moradora do Rio de Janeiro, ela ganhou em 2000 o Hans Christian Andersen, o mais importante prêmio do mundo destinado à literatura infantojuvenil.
“Sem Manguinhos, meus livros seriam diferentes pelo simples fato de que minha vida inteira também seria. Este recanto está ligado à minha família há cinco gerações.”
A casa fica de frente ao mar e exibe uma extensa varanda, cercada por goiabeiras, pés de maracujá, uma casuarina centenária e a pitangueira, que determinou em qual parte do terreno o imóvel seria erguido. Do tio Guilherme Santos Neves, renomado folclorista do Espírito Santo, Ana Maria herdou o gosto pelas manifestações populares que presenciava em Manguinhos na infância: o congo, a folia de reis e a festa do padroeiro são Sebastião. Com o avô, engenheiro que abriu a estrada de acesso à vila (antes só se chegava até lá de canoa), aprendeu a conhecer o jeitão da maré e o movimento das correntes.
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