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Palco do Theatro da Paz. O maestro Carlos Gomes, a cantora lírica Bidu Sayão e a bailarina Ana Pavlova se apresentaram nele
São Paulo - Tinha tudo para dar errado. Ou ser de forma diferente. Com o clima abafado típico da Região Amazônica, Belém do Pará não poderia, pelo menos na teoria, produzir vozes límpidas e agudas de tão boa qualidade. “Pela umidade, pelo calor, deveriam ser vozes mais robustas, mais graves. O calor mexe com as cordas vocais. E, no entanto, olha a quantidade de grandes tenores e sopranos que temos. De cada dez cantoras, oito são sopranos”, espanta-se o pianista Paulo José Campos de Melo, diretor da Fundação Carlos Gomes, que abriga o conservatório de mesmo nome.
Campos de Melo refere-se, principalmente, às novas estrelas do canto lírico: a soprano Adriane Queiroz, 38 anos, que faz parte do elenco da Staatsoper, a mais importante entre as três casas de ópera de Berlim, e o tenor Atalla Ayan, 25 anos, que hoje mora em Nova York e foi comparado a Plácido Domingo quando jovem pelo crítico Allan Kozinn, do jornal The New York Times. São os nomes mais sonantes e que instigam uma questão óbvia: por que Belém tem uma tradição operística tão enraizada? “A origem vem da época áurea da borracha”, opina o diretor. É esse período de riqueza que possibilitaria, entre outras coisas, a inauguração, em fevereiro de 1878, do Theatro da Paz, um dos mais grandiosos do país. Projetado à semelhança do Teatro alla Scalla, de Milão, ele é reconhecido pela acústica impecável. “O teatro foi construído especialmente para receber o canto lírico”, diz Campos de Melo.
É uma explicação. Há outras. A jornalista e pesquisadora Rose Silveira, autora do livro Histórias Invisíveis do Teatro da Paz, afirma que, além do gênero lírico, o dramático e o cômico passaram a dividir a preferência do público de Belém no século 18. “A mudança ocorreu paulatinamente quando a cidade tornou-se capital do Estado do Grão-Pará e Maranhão e experimentou um primeiro projeto de modernização, promovido pela Coroa Portuguesa a partir de 1750. Era o momento de afirmação política e econômica da metrópole, que gradualmente se tornou uma praça artística atraente para companhias brasileiras e estrangeiras”, explica Rose.
Esses grupos apresentavam-se na Casa da Ópera, chamada também de Teatro Cômico, construída pelo arquiteto bolonhês Antônio José Landi ao lado do jardim do Palácio do Governo. Funcionou de 1780 a 1812. Os espetáculos voltaram a acontecer na década de 1830, abrigados no Teatro Providência, um casarão particular adaptado para essa função, na Praça das Mercês.
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