Trump, Hillary e o ataque à globalização

O bilionário Donald Trump arrebatou multidões em seus comícios e derrotou adversários de peso na disputa para se tornar o candidato do Partido Republicano atacando a inserção dos Estados Unidos na globalização e os efeitos supostamente perversos do comércio. Bernie Sanders, senador por Vermont, derrotou Hillary Clinton — ex-primeira-dama, ex-senadora por Nova York, ex-secretária de Estado e candidata do establishment democrata — em 19 estados com um discurso contra a “exportação de empregos” por meio do comércio global. Até Hillary andou se queixando e prometendo ajustes. Da direita à esquerda, o comércio virou vilão entre os americanos. Afinal, o que está acontecendo com os grandes campeões da competitividade, da liberalização do comércio — enfim, do capitalismo?

Trump tem feito algumas confusões a respeito do tema. Num debate na Fox News, ele qualificou a recém-assinada Parceria do Transpacífico (TTP, na sigla em inglês) de “um acordo horrível”, e explicou: “Foi desenhado para a China entrar como sempre fez, pela porta dos fundos, e tirar total vantagem de todo mundo”. Não foi bem assim. Iniciada em 2006 e firmada em fevereiro deste ano, a TTP foi impulsionada pelo presidente Barack Obama como forma de isolar a China, que está excluída do acordo. Ele próprio explicitou essa estratégia em seu discurso sobre o Estado da União em janeiro deste ano: “Forjamos a Parceria do Transpacífico para abrir os mercados, proteger os trabalhadores e o meio ambiente e impulsionar a liderança americana na Ásia. Com a TTP, a China não estabelecerá as regras naquela região, nós o faremos”.

Não é que Trump não saiba disso. Ele apenas está sugerindo que a China — mais uma vez — enganará os Estados Unidos. E isso tem profundo impacto sobre o imaginário de milhões de americanos que acreditam que seu país age de boa fé, mas é traído por malfeitores, bad guys que não seguem os mesmos princípios morais. “Viramos um país de Terceiro Mundo”, apregoa Trump, e promete impor tarifas de importação de 45% sobre os produtos chineses.

A pregação da desindustrialização

Além da China, o pré-candidato, que lidera com folga as primárias republicanas, também tem voltado sua artilharia contra o México — duplamente, por exportar imigrantes para os Estados Unidos e por importar empregos. O que também parece contraditório: se as coisas estão tão melhores no México e tão piores nos Estados Unidos, por que os mexicanos ainda quereriam cruzar a fronteira? O magnata do ramo imobiliário afirma que, se eleito, vai romper o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), que os Estados Unidos mantêm com México e Canadá desde 1994. Ao celebrar sua vitória na primária de Indiana, no dia 3 de maio, que levou à desistência de seus dois últimos adversários republicanos, Trump disse que o Nafta provocou uma “carnificina” de trabalhadores americanos.

Sanders também tem angariado apoio, sobretudo nos estados que sofreram com a desindustrialização, acusando Hillary de ter apoiado o Nafta — assinado por seu marido, Bill Clinton — e a TTP, já como secretária de Estado no primeiro mandato de Obama, quando o acordo de livre comércio foi costurado. “Ela apoiou cada acordo de comércio desastroso, que nos custou milhões de empregos com salários decentes”, acusa o candidato de esquerda, apoiado por sindicatos. Ideologicamente à direita de Obama, Hillary tem tentado evitar o estrago reconhecendo que muitos americanos “mal estão sobrevivendo” e prometendo “vencer a concorrência global por empregos industriais”.

O desempenho do governo Obama na geração de empregos deveria ser um dos ativos de Hillary na sua corrida presidencial. Quando o presidente assumiu o governo em janeiro de 2009, em meio à crise, o desemprego estava em 7,8%; hoje, o índice é de 4,9%. As vagas no setor privado aumentaram nos últimos 73 meses consecutivos, somando 14,4 milhões de novos empregos. Como resultado, a renda média dos trabalhadores contratados subiu 2,5% em dezembro em comparação com o mesmo mês de 2014, para 878,49 dólares por semana. O mais importante é que o desemprego caiu mais entre as pessoas sem ensino médio completo: 1,2%. Para os formados no ensino médio, caiu 0,1%; para os que frequentaram faculdade mas não concluíram, a queda foi de 1,0% no desemprego; e para os formados, de 0,3%. Entretanto, o desemprego na categoria sem ensino médio continua o mais alto: 7,4%. E a escala desce continuamente: para os que têm o ensino médio, o índice é de 5,3%; para os que frequentaram faculdade e não concluíram, 4,2%; e para os com ensino superior completo, 2,5%.

Em janeiro, havia 2,4 milhões de americanos empregados na agricultura, 19,7 milhões na manufatura e 123,6 milhões no setor de serviços. A agricultura perdeu 1,3% das vagas de janeiro a janeiro por causa da desaceleração da demanda mundial; enquanto a manufatura gerou 0,9% de novas vagas; e os serviços, 2,1%.

Entretanto, o estoque de perda de empregos na manufatura revela o que, de fato, tem ocorrido na economia americana e de outros países avançados: foram fechadas 5,4 milhões de vagas de 1998 a 2015. Entre 1964 e 2014, o poder de compra real dos trabalhadores urbanos sem funções gerenciais (os chamados blue collars) permaneceu inalterado: a hora de trabalho média valia 19,18 dólares em 1964 e 20,67 dólares em 2014, em valores atualizados para 2014, segundo um estudo do Pew Research Center. Enquanto isso, os ricos ficaram mais ricos. Entre 1979 e 2010, segundo o Budget and Policy Priorities Center, um instituto independente, a renda do 1% no topo da faixa aumentou 200%; dos 19% seguintes, cresceu 67%; dos 20% na base da pirâmide, 48%; e a renda dos 60% que representam basicamente a classe média foi a que cresceu menos, 40%.

O capitalismo em debate

No fundo, toda essa retórica revela uma luta entre duas fases do capitalismo: industrial e pós-industrial. “Acho que os políticos estão reagindo corretamente ao fato de que os últimos 35 anos foram ruins para os americanos de colarinho azul”, analisa David Autor, especialista em economia do trabalho do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Em contrapartida, a economia em geral tem sido beneficiada pelo comércio.

De acordo com a Business Roundtable, associação de CEOs de grandes empresas americanas, os empregos relacionados ao comércio cresceram três vezes e meia mais depressa do que o índice geral nos Estados Unidos entre 2004 e 2013. Isso porque as exportações têm crescido mais rapidamente do que o PIB. Hoje, segundo a associação, 39,8 milhões de empregos são gerados pelo comércio exterior, o que representa uma vaga em cada cinco. O setor responde por 14% do PIB, o que sugere que ele é relativamente intensivo em mão de obra, já que gera 20% dos empregos. Nessa mesma linha, a associação afirma que suas empresas filiadas — que faturam 7 trilhões de dólares ao ano e empregam quase 16 milhões de pessoas — proporcionam 495 bilhões de dólares em vendas realizadas por pequenas e médias empresas.

Esse quadro sugere que os benefícios do comércio exterior são espalhados pela economia, enquanto os prejuízos atingem um grupo minoritário, porém estridente: os operários das indústrias, mobilizados em sindicatos e cuja atividade ainda tem um alto simbolismo, associado às conquistas trabalhistas e ao desenvolvimento do país. “Tarifas alfandegárias baixas e outras políticas para impulsionar o comércio com países mais pobres de fato aumentam a renda total nacional dos Estados Unidos”, reconhece Josh Bivens, diretor do Economic Policy Institute. “Mas essa expansão distribui muito mais renda do que cria. E a direção dessa distribuição é de baixo para cima. A situação da maioria dos trabalhadores piora. Os perdedores não são só os diretamente dispensados por causa das importações, mas todos os trabalhadores da economia inteira com o mesmo perfil socioeconômico.” Bivens argumenta que trabalhadores braçais de setores não afetados pelo comércio, como pedreiros e jardineiros, passam a disputar o mercado com operários demitidos por causa das importações, que recorrem a essas atividades para sobreviver, aumentando a oferta de mão de obra e diminuindo a renda.

Além disso, segundo o pesquisador, os Estados Unidos exportam mais bens intensivos em capital e importam mais intensivos em mão de obra. “Ao nos concentrar no que somos relativamente melhores para produzir, bens intensivos em capital, e ao trocarmos esse excedente de produção por bens intensivos em mão de obra de nossos parceiros comerciais, a renda nacional cresce em ambos os países”, admite Bivens. “Mas cada dólar que deixa de ser investido em bens intensivos de mão de obra e é direcionado a bens intensivos em capital causa excesso de oferta de trabalho e de demanda por capital. O retorno do capital aumenta, mas o salário dos trabalhadores diminui.”

Bivens observa ainda que a liberalização do comércio não tem sido igual para todos os setores. Ao mesmo tempo que expôs os trabalhadores americanos a uma “feroz competição internacional”, protegeu as patentes e os direitos autorais de indústrias poderosas, como a farmacêutica, a de software e a de entretenimento. Por fim, a China, segundo o especialista, aproveitou o enorme superávit na balança comercial para comprar ativos dos Estados Unidos, empurrando para cima o valor do dólar e tornando os produtos americanos menos competitivos.

Num estudo publicado em março de 2013, Bivens chega a três conclusões:

1) O aumento do comércio com países menos desenvolvidos diminuiu em 5,5% — ou cerca de 1.800 dólares por ano — o salário médio de um trabalhador com diploma superior em 2011. Um terço desse impacto se deve ao crescimento do comércio com a China.

2) O comércio com países que pagam salários baixos responde por aproximadamente um terço do aumento do rendimento dos trabalhadores com curso superior em relação aos que não têm diploma desde 1979. A partir de 1995, esse impacto passou a ser de 90%.

3) Para trabalhadores contratados em tempo integral sem curso superior, as perdas anuais no rendimento causadas pelo comércio com países que pagam baixos salários são maiores do que as causadas por cortes nos programas de transferência de renda, seguro-desemprego e assistência à saúde promovidos pelo governo de George W. Bush.

De acordo com um levantamento do MIT, de 1999 a 2011 foram perdidos quase 2 milhões de empregos nos Estados Unidos por causa do comércio com a China. Por outro lado, uma pesquisa da filial do Federal Reserve em São Francisco mostra que, de cada 1 dólar destinado a um produto chinês, 0,55 dólar vai para operações de comércio, transporte e marketing nos Estados Unidos. E há os efeitos perversos das tentativas de intervenção.

O Peterson Institute for International Economics fez um estudo de caso sobre as consequências da aplicação de uma tarifa de 35% sobre pneus importados da China pelos Estados Unidos. A medida foi tomada em 2009, com validade de três anos. Por causa do aumento de preço resultante, os consumidores americanos gastaram 1,1 bilhão de dólares a mais com pneus. Em contrapartida, o aumento do imposto evitou a demissão de 1.200 empregados. Ou seja, cada emprego custou 900 milhões de dólares. Seria interessante calcular, no Brasil, quanto custou cada emprego salvo na indústria automobilística com a renúncia, pelo governo, do imposto sobre produtos industriais (IPI).

Em qualquer caso, o que teria acontecido se os Estados Unidos tivessem se isolado? O desenvolvimento tecnológico, intensamente criado no próprio país, não teria de qualquer forma matado empregos, com ou sem a concorrência da China? O economista Joseph Stiglitz, da Universidade Colúmbia, acredita que sim. “O emprego na manufatura global está diminuindo porque os incrementos de produtividade estão excedendo significativamente o crescimento da demanda por produtos manufaturados”, disse Stiglitz em entrevista ao jornal The New York Times. Para o prêmio Nobel de Economia, nem o protecionismo, proposto por Trump, nem as mudanças tributárias para conter a saída de empresas do país, anunciadas por Hillary, terão resultado. “A probabilidade de virmos a ter uma recuperação da manufatura é próxima de zero”, estima Stiglitz. “O mais provável é que teremos uma fatia menor de uma torta que está encolhendo.”

Portas fechadas

De 1950 para cá, os empregos urbanos gerados pela manufatura diminuíram de 24% para 8,5%. É um processo inexorável, que afeta não só os Estados Unidos mas todos os países avançados. Bruce Greenwald, especialista em investimentos da Escola de Negócios da Universidade Colúmbia, aponta que a estagnação do Japão é em parte consequência da insistência do país em manter artificialmente atividades industriais — além de fatores mais conhecidos, como o envelhecimento da população e a cultura de poupança em detrimento do consumo. “Eles não estão eliminando horas de trabalho na manufatura no ritmo da diminuição do trabalho requerido”, sintetiza Greenwald. Na medida em que o poder aquisitivo e o consumo aumentam, mesmo a China tem reduzido a participação do setor industrial na geração de empregos — o que prova que essa redução, hoje pelo menos, não é mais propulsionada pelo comércio.

Na verdade, esse é um tema muito complexo e não há estudos suficientes para chegar a uma conclusão definitiva sobre a relação custo-benefício do comércio exterior. “Entre os imponderáveis dificilmente quantificáveis está o fato de que, nos regimes de mercados mais abertos, empresas de países desenvolvidos são capazes de capturar fluxos de dividendos de royalties, e certamente estão gerando empregos em outros lugares, mas contribuem para o estoque de riqueza total daqueles que detêm suas ações, que costumam ser em sua maioria os países onde estão as matrizes”, pondera Fernando Sotelino, ex-presidente do Unibanco e professor da Escola de Relações Internacionais da Universidade Colúmbia.

“Isso é mais verdade para países que são sede de empresas com capacidade tecnológica e se beneficiam da colaboração universidade-empresa, que permite atrair talentos do mundo para impulsionar a inovação e reforçar esse fluxo de acumulação de riqueza”, descreve Sotelino. “Até que ponto isso beneficia o operário do Missouri, não sei, mas certamente beneficia o acionista da empresa. Há uma injustiça interna, mas o estoque total cresce.”

Quanto aos países em desenvolvimento, “fechar as portas perpetua o atraso”, acrescenta Sotelino. Mas ao mesmo tempo, segundo o economista, esse processo evidencia quanto a China é concorrente do Brasil, e daí a “cegueira” da diplomacia comercial brasileira no governo Lula de tratá-la como parceira preferencial. Países como Estados Unidos e Alemanha recebem boa parte da receita das vendas de produtos industriais fabricados na China, como a remuneração pela patente, marca, projeto, etc. A China fica com o valor da manufatura, que é uma fatia menor nessa composição. “O Brasil não recebe nada.”

(Lourival Sant’Anna)