Por que o mundo inova menos

The Innovation Illusion: How So Little Is Created
by So Many Working So Hard

Autores: Björn Weigel e Fredrik Erixon
Editora: Yale University Press. 312. págs.

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David Cohen

É difícil não perceber que o mundo está acelerado. Os empregos duram menos, os casamentos duram menos, as pessoas estão conectadas o tempo todo. Isso gera uma angústia generalizada, mas é por um bom motivo, dizem os apologistas do progresso: trata-se do funcionamento dos mecanismos da inovação, e a tecnologia que acelerou nossos relógios internos vai nos levar mais rapidamente a um futuro dos sonhos.

Só que não, dizem Fredrik Erixon e Björn Weigel, um economista e um consultor suecos, autores do livro The Innovation Illusion: How So Little Is Created by So Many Working So Hard (A ilusão da inovação: como tão pouco é criado por tantos trabalhando tanto).

Erixon e Weigel não são os típicos contestadores do avanço tecnológico – aqueles que preveem que a evolução das máquinas vai trazer desemprego, desigualdade e, no limite, a escravidão ou aniquilação da raça humana. Ao contrário, eles acreditam piamente que a inovação é responsável pelo aumento da riqueza e, consequentemente, pela melhora no nível de vida das pessoas. O que eles contestam é que nós estejamos vivendo uma era de inovação.

Não é uma tese inteiramente nova. Há quase 80 anos, o economista Alvin Hansen sugeriu que os Estados Unidos (e provavelmente o mundo ocidental como um todo) estavam vivendo o que ele chamou de estagnação secular – uma combinação de baixo crescimento populacional e pífia evolução tecnológica, cujo maior efeito era o baixo investimento em bens, empregados e serviços. Era por isso, dizia ele, que a recessão dos anos 30 era tão persistente.

Como sabemos todos nós que tivemos o privilégio de viver depois dos anos 30, a recessão passou. A explosão de nascimentos e o esforço de reconstrução do Ocidente no pós-guerra foram duas das principais causas. Isso fez com que quase todo mundo esquecesse do termo inventado por Hansen… até os anos de crise pós-2008, quando o ex-secretário do Tesouro no governo Clinton, Larry Summers, professor de economia de Harvard, o ressuscitou.

Mas como esse pessoal pode negar todos os avanços tão visíveis a olho nu? Eles não têm smartphone, não usam redes sociais? Não acompanham a evolução dos carros que não precisam de motorista? Seu argumento principal é o que o Nobel de economia Paul Krugman chamou de “grande pfff”: segundo ele, a maior parte da nova tecnologia é mais divertida do que fundamental, e portanto não anima a economia tanto quanto a mídia e os empresários do setor proclamam.

A régua de Schumpeter

Erixon e Weigel fazem um abrangente diagnóstico para explicar por que a atual onda de inovações é, segundo eles, mera ilusão. “O problema não é que o capitalismo está empurrando as sociedades para o ápice das mudanças tecnológicas rápidas e furiosas, mas que ele está desacelerando em sua tarefa de promover a mudança inovadora”, afirmam.

Uma das evidências de que a inovação estagnou é que há poucas empresas novas entre as mais importantes do mundo. Das 30 principais companhias alemãs, só duas foram fundadas depois de 1970. Das 40 principais francesas, só uma. Na Suécia, 30 das 50 maiores companhias foram criadas antes da Primeira Guerra Mundial – e as demais 20, antes de 1970. “Se você compilar uma lista das 100 empresas europeias mais valiosas, nenhuma foi criada nos últimos 40 anos.” Nos Estados Unidos, a taxa de empresas com mais de 16 anos aumentou 50% entre 1992 e 2011

Essa estatística desafia a noção de “destruição criadora”, que o economista austríaco Joseph Schumpeter definiu como a essência da inovação – e do capitalismo.

Não é que não haja invenções. Há. Só que as invenções são apenas a primeira parte da inovação. De acordo com Schumpeter, a inovação exige outras três fases: sua aplicação prática (a inovação em sentido estreito), a difusão e a cópia – que disseminam os efeitos do invento e o transformam em riqueza. Esses três estágios posteriores à invenção é que estão em crise, dizem os dois autores.

A culpa recai sobre quatro vilões do mundo moderno: o “capital cinzento”, o “gerentismo”, a globalização e o excesso de regulamentações.

O capital cinzento

O primeiro vilão é a filosofia rentista que, para Erixon e Weigel, tomou conta do capitalismo. Trata-se do controle anônimo das companhias, por instituições de investimento como fundos de pensão e fundos soberanos, que não exercem o papel de donos como os capitalistas originais. É um “capitalismo sem capitalistas”.

Tome a GE, por exemplo. Seu maior acionista é o Vanguard Group, que detém 5,6% de suas ações. E quem controla o Vanguard Group? Essa é uma pergunta errada, dizem os autores, “porque o Vanguard não investe seu próprio dinheiro”. O grupo gere ativos de quase 3 trilhões de dólares, de cerca de 20 milhões de poupadores.

A maior parte desse emaranhado de donos sequer sabe que está investindo na GE: são gente que põe seu dinheiro em fundos de pensão. E vários desses fundos de pensão alocam seu capital em empresas concorrentes.

Essa tendência já era verificada há muitos anos. Tanto que o austríaco Peter Drucker, um dos criadores da ciência da gestão, fez uma provocação em meados dos anos 1970: “se o socialismo é definido como o sistema em que os trabalhadores são donos dos meios de produção, então os Estados Unidos são o primeiro país verdadeiramente socialista”.

Esse capital cinzento, sem cara definida, faz com que os lucros deixem de ser retidos pelas companhias e migrem para fora da empresa – em movimentos de recompra de ações que estão no mercado ou distribuição de dividendos.

“As empresas costumavam reter uma proporção maior de seus lucros para reinvestir, mas as decisões de investimento se mudaram em larga medida da liderança corporativa para os mercados financeiros”, afirmam. Nos anos 1960, estima-se que entre 50% e 60% dos lucros ficasse na empresa – uma verba à disposição para investir em inovação. Neste milênio, a taxa caiu para um dígito.

No mundo pós-crise, o custo do capital caiu para próximo de zero, e as empresas têm liquidez quase infinita nos mercados, mas isso não tem se refletido em investimentos produtivos. Entre 1979 e 2011, dizem os autores, a razão entre caixa e ativos totais das companhias passou de 9,4% para 21%. A Apple, para ficar apenas num exemplo, tem reservas de mais de 200 bilhões de dólares.

Não é só que o capital cinzento retira do jogo a vontade de arriscar do capitalista. Ele também funciona de acordo com uma lógica de rentista – porque tem de distribuir resultados entre os acionistas tão diversos.

Não se trata do capitalismo rentista clássico da teoria marxista, definido pela usura, dizem Erixon e Weigel. Nem a sociedade rentista descrita pelo economista francês Thomas Piketty, que aponta a crescente desigualdade entre o retorno do capital e do trabalho. É um rentismo derivado de um novo tipo de donos, “que dá pouca importância à propriedade, à renovação do mercado e à inovação”.

Essa filosofia freia os investimentos em iniciativas de risco – e a inovação está intimamente ligada ao risco. “Qualquer criança de oito anos sabe que a soma de seis e três é maior do que a soma de quatro e quatro. Mas qualquer investidor profissional vai preferir o segundo caso, se os números refletirem retornos anuais estáveis sobre o investimento”, dizem os dois.

“Quando as companhias tentam capturar o interesse dos investidores, elas têm de mostrar suas credenciais como contas de poupança onde o dinheiro pode ser guardado e de preferência multiplicado. Mas as plataformas de poupança têm de ser conservadoras.”

O gerentismo corporativo

Uma consequência do capital cinzento é que os gestores da empresa precisam demonstrar previsibilidade. Para fazer isso, transformam as companhias em entidades burocráticas, pouco afeitas ao empreendedorismo.

Não é apenas o problema de agência, que acontece quando alguém (o executivo) é contratado para atuar nos interesses de outro (o acionista). Como seu sucesso é medido pela lógica rentista, a direção da empresa tende a atuar na defensiva, dizem os autores.

Eles apontam que os gastos em pesquisa e desenvolvimento, nos países desenvolvidos, têm caído, quando avaliados como proporção dos lucros. Mais do que isso, as empresas têm “terceirizado” seus departamentos de P&D: em vez de investir, elas observam pequenas empresas, que tomam riscos maiores, e quando alguma iniciativa dá certo, compram-nas.

O aumento do número de fusões de empresas, segundo eles, é um sinal de “corporações de meia idade que perderam sua habilidade de se reproduzir pela inovação e têm de absorver a vitalidade de outras firmas para se manter no mercado”. É como se o mercado de ações se tivesse transformado num mercado casamenteiro.

Jogar na defensiva é uma ducha de água fria na inovação porque o foco está em outras coisas. Segundo um estudo da consultoria BCG citado no livro, 40% do tempo de um gestor é gasto em relatórios e até 60% é consumido na coordenação de reuniões. Segundo a mesma consultoria, em 1955 os gestores tinham entre quatro e sete “imperativos de desempenho”, e agora eles têm entre 25 e 40. Ou seja, são menos focados. E inovação exige dedicação quase exclusiva.

Globalização e regulamentação

Um vilão inesperado, para autores que revelam um pensamento liberal, é a globalização. Mais especificamente, a segunda fase da globalização.

Na primeira fase, horizontal, em que as grandes empresas se espalham pelo mundo, Erixon e Weigel consideram que há um impulso para a inovação – pela disseminação e cópia das invenções. As empresas locais, expostas à concorrência das multinacionais, são obrigadas a se adaptar.

Na segunda fase, porém, os mercados estão saturados. E as multinacionais mudam de estratégia: em vez de agressoras, tornam-se defensivas. Uma das táticas mais comuns é a consolidação dos mercados, com a compra de competidores que as ameacem. Entre 1997 e 2012, nos Estados Unidos, a concentração de mercado e o domínio de grandes companhias aumentou em 10 de 13 setores analisados pelo censo do país.

Ou seja: se na primeira fase da globalização o interesse das grandes empresas é chacoalhar o mercado, na segunda fase, mais atual, o interesse é manter o status quo.

O último dos vilões é o mais conhecido: a regulamentação. Uma cidade como Paris, que em 1937 concedeu licenças para 14.000 táxis e nos 70 anos seguintes, apesar de todo o desenvolvimento e expansão demográfica, aumentou esse número em apenas 2.000, não poderia reagir bem a uma inovação como o Uber, que desafia suas regras.

Mas os autores dão exemplos ainda mais contundentes. Na Flórida, um designer de interiores precisa cursar quatro anos de faculdade e tirar uma licença para atuar profissionalmente. E, se você tiver cumprido essas exigências em outro estado dentro dos EUA, será barrado pelo Conselho de Arquitetura de Design de Interiores da Flórida.

No Alabama, uma aspirante a manicure precisa passar por 750 horas de treinamento e fazer uma prova. Claro, o Brasil também poderia fornecedor exemplos encantadores, sendo o país em que as empresas gastam o maior número de horas de trabalho de funcionários para cumprir exigências burocráticas do governo.

Esses casos costumam gerar consenso sobre os exageros da regulação. Outros, nem tanto. A medicina é um exemplo. Um estudo de Harvard aponta que o processo de aprovação de aparelhos de saúde é tão cheio de exigências que corta 8% do retorno das inovações. Tornar as regras mais flexíveis, porém, traria certamente outro tipo de problema, potencialmente grave para a saúde pública.

Na área de saúde, a escolha é mais complicada. A maioria das pessoas é favorável a um controle que impeça as empresas de lançar remédios que, depois se descubra, tenham efeitos colaterais perversos. Mas a maioria das pessoas, tendo algum caso de doença grave na família, também estaria disposta a tentar um tratamento experimental – algo que as regulamentação impede.

No mercado financeiro, a desregulamentação também é vista com dúvidas. Muita gente credita à falta de regras o festival de instrumentos financeiros que levou à bolha de empréstimos sem lastro que estourou em 2007 e desatou a crise mundial.

Talvez seja necessário ter regulamentação no mercado financeiro, dizem os autores, “mas junto com a política fiscal e outras regulações ela torna o mercado de capitais e seus produtos mais homogêneo”. Assim, uma parcela maior do capital tende a buscar os mesmos portfólios, reduzindo a variedade de estratégias de investimento – o que também impacta na inovação.

A resposta dos otimistas

A resposta que os dois autores sugerem a essa falta de inovação é bem menos sólida que sua argumentação na apresentação do problema. Ela envolve Impedir que os fundos de investimentos retirem fundos das empresas (o que só seria possível com… regulamentação); controlem as companhias e evitar que o capital cinzento controle as companhias (incentivando a existência de duas classes de ações, uma com e outra sem poder de voto, uma solução que enseja alguns problemas, como jogar para escanteio os interesses de sócios minoritários).

Uma questão que os dois suecos abordam apenas de raspão é a demografia. Uma população mais velha, em alguns casos decrescente, é um entrave à inovação em particular e ao crescimento econômico de modo mais geral. Uma solução seria o que o Canadá promove há décadas: a imigração controlada, para oxigenar a sociedade e garantir vitalidade para a economia.

E sempre há a hipótese de que o pessimismo de Erixon e Weigel esteja equivocado. Os estudiosos que acreditam na tese de que vivemos tempos extraordinários não são poucos nem tolos. Eles reconhecem que a revolução digital ainda não produziu nada parecido, em termos de progresso, com o que houve na virada do século 19 para o 20 – com a luz elétrica, o avião e o carro, o petróleo etc. Mas dizem que a era digital está apenas começando. E os resultados serão sentidos nas próximas décadas. Tomara que eles estejam certos. O mundo está precisando.