Estudantes se rebelam contra o ensino de economia atual

Manifesto assinado por 65 associações acadêmicas de 21 países pede para que "o mundo real seja trazido de volta" para as aulas de economia

São Paulo – “Não é apenas a economia mundial que está em crise. O ensino de economia também está, e as consequências disso vão muito além do âmbito acadêmico.”

É assim que começa uma carta aberta assinada pelo ISIPE (sigla em inglês para Iniciativa Internacional de Estudantes para o Pluralismo Econômico) e divulgada no início do mês.

O grupo é formado por 65 associações de 21 diferentes países – entre eles Estados Unidos, Rússia, Índia e Reino Unido. O Nova Ágora assina pelo Brasil. 

Os estudantes afirmam que o currículo da disciplina sofreu um “estreitamento dramático” nas últimas duas décadas e que isso prejudica a habilidade dos formados de encontrar soluções para os desafios do século XXI – como a “estabilidade financeira, a segurança alimentar e o aquecimento global“.

Pluralismo

Eles pedem três tipos de pluralismo. O primeiro é teórico: a ideia é que o ensino deveria expor os alunos a perspectivas econômicas variadas – clássica, pós-keynesiana, marxista, institucional, ecológica, feminista – que hoje são excluídas em favor de uma visão única (a neoclássica).

Afinal, “ninguém levaria a sério um curso superior em psicologia que focasse apenas no Freudismo”

O segundo pluralismo é metodológico: a crítica é que hoje os estudantes só aprendem métodos quantitativos e nunca são expostos a métodos qualitativos que os fariam questionar seus pressupostos e conclusões.

O terceiro pluralismo é interdisciplinar: “economia é uma ciência social: fenômenos econômicos complexos raramente podem ser entendidos se apresentados em um vácuo, removidos do seu contexto histórico, político e sociológico.”

Movimento

Esta não é a primeira iniciativa do tipo: a crise de 2008 causou um surto de reflexão em todas as facetas do mundo econômico, incluindo a educação. 

Já no ano seguinte, o Instituto para o Novo Pensamento Econômico (INET) foi fundado com o apoio de figuras como George Soros e Paul Volcker. Entre seus objetivos está estimular a renovação da pesquisa e do currículo de economia.

Em 2011, estudantes de Harvard explicaram em outra carta aberta sua decisão de deixar o curso introdutório do professor Greg Mankiw.

No ano seguinte, estudantes da Universidade de Manchester começaram a Post-Crash Economics Society com o lema “o mundo mudou; a apostila, não”. Outro grupo, o CORE-ECON, defende um ensino “como se as últimas três décadas tivessem acontecido”.

Debate

Thomas Piketty, o economista francês que virou a sensação do momento com o livro “O Capital no Século XXI”, diz que a disciplina “precisa superar sua paixão infantil por matemática e por especulação puramente teórica e com frequência altamente ideológica, em detrimento de pesquisa histórica e colaboração com outras ciências sociais”.

Para o americano Paul Krugman, vencedor do Nobel de economia, a teoria keynesiana já trazia as ferramentas necessárias para diagnosticar e superar a crise financeira.

O ensino precisa rebalancear seu foco, sim, mas o problema maior foi que os políticos escolheram seletivamente as teses que cabiam nos seus interesses – como a de que austeridade levaria a crescimento no contexto de uma economia em depressão. 

O manifesto do ISIPE diz que “a mudança será difícil – sempre é”, mas a ideia é que assim como o ensino, o debate ultrapasse os muros da universidade.

Afinal, como escreveu o economista Paul Samuelson, “não me importo com quem escreve as leis de um país ou faz seus tratados, desde que eu possa escrever seus livros didáticos de economia.”

Atualizado 22/05 – 9h30 com o link correto para a Nova Ágora, que havia sido identificada como outra instituição