Opinião: O Reino Unido pode ser uma nova Grécia?

"Na Grécia que não lidou com o déficit, o que acabamos vendo?", disse a primeira-ministra britânica Theresa May recentemente. O que os países têm em comum?

Artigo de Alexander Tziamalis, professor associado de Economia na Universidade Sheffield Hallam

O Reino Unido não é o primeiro país a ficar à beira de sair da União Europeia.

Ele pode até desfrutar de uma economia maior e mais produtiva do que a da Grécia, mas há semelhanças estruturais alarmantes entre as duas economias e que não podem ser ignoradas.

Assim como a ameaça do Grexit, a previsão é que o Brexit prejudique a economia britânica.

E agora, após uma eleição inconclusiva que enfraqueceu a habilidade do governo de governar, outra semelhança com a problemática Grécia foi adicionada. E ela é crítica.

O chanceler Philip Hammond insiste que a economia britânica é “resiliente”. Mas olhe mais de perto e você verá semelhanças impressionantes com a Grécia, um país duramente atingido por uma recessão.

Ambas usufruíram de uma prosperidade movida a dívida. A dívida governamental britânica cresceu ainda mais agressivamente do que a sua equivalente grega.

Governos sucessivos na Grécia rodaram em déficit por muitos anos. Estavam comprometidos com serviços públicos como saúde e educação gratuitas. Ambos os países mantém um exército caro, um serviço civil amplo e gastaram bilhões para sediar os Jogos Olímpicos.

O governo grego recentemente deu conta de controlar seu déficit e atualmente apresenta um superávit estrutural em seu Orçamento. O Reino Unido ainda está esperando.

Indústria e propriedade

Ambos os países viram o declínio da sua indústria nos anos 80, o que levou a uma maior dependência do setor de serviços para o emprego e as receitas tributárias. No Reino Unido, o setor de serviços hoje responde por 78% do PIB; na Grécia, é 85%.

As partes centrais para a economia grega são turismo, setor financeiro e setor imobiliário. É praticamente igual para o Reino Unido, apenas em outra ordem.

Os dois países também compartilham de uma cultura de “casa própria” impulsionada por dinheiro barato, o que tornou o mercado imobiliário central para ambos.

As flutuações agudas causadas por crises financeiras deixaram claros os ricos associados às bolhas nos preços de ativos, mas esta cultura também torna a força de trabalho menos móvel e menos suscetível ao retreinamento, contribuindo para uma ampla falta de habilidades no Reino Unido.

Mãos atadas

O Reino Unido está em uma situação precária ao iniciar as negociações do Brexit com a União Europeia.

No momento, o Brexit significa apenas incerteza no mundo dos negócios, e incerteza é uma ameaça direta à indústria mais lucrativa do país: o setor financeiro.

O perigo é que uma parte dessa indústria seja encorajada (ou até pressionada) pelos antigos parceiros europeus a migrar para cidades financeiras competidoras como Dublin, Paris e Frankfurt.

Também está em risco o papel britânico de porta de entrada para centenas de bilhões de euros de investimento estrangeiro direto na UE, uma área particularmente afluente com a força de 500 milhões de pessoas.

E da mesma forma que os governos da Grécia no início do drama grego estavam amarrados às decisões do Banco Central Europeu, os governos britânicos estão de mãos atadas. A política monetária fez basicamente tudo o que podia.

A queda da libra e a alta da inflação que se seguiram ao referendo do Brexit tornam improdutiva uma desvalorização da libra.

Essa desvalorização iria prejudicar ainda mais o consumo e a renda disponível dos consumidores, e soaria como um grito de socorro para investidores sensíveis.

As taxas de juros já chegaram ao fundo do poço e uma redução extra teria pouco efeito. E a política fiscal? Afinal, a dívida nacional do Reino Unido está no que parecem ser irrisórios 88% do PIB comparados com 181% da Grécia.

Talvez o Reino Unido possa financiar investimentos, turbinar o consumo e financiar seu caminho para longe da incerteza do Brexit e da recessão iminente? A Grécia tentou isso entre 2004 e 2009. Quase uma década depois, as dívidas acumuladas daquela era mantém a Grécia em um coma econômico.

E há mais razões pelas quais usar a política fiscal seria perigoso para o Reino Unido.

Se o país quisesse criar mais dívida, atualmente em 1,7 trilhão de libras, os mercados internacionais de dinheiro veriam o Reino Unido tropeçando nas conversas do Brexit em um momento de fragilidade política enquanto pedem por altas quantias de dinheiro para se refinanciar e ainda manter a política fiscal. Para compensar pelo risco, os investidores procurariam taxas de juros mais altas.

As dívidas então ficariam mais caras para rolar, minando o impacto de qualquer política fiscal exuberante e justificando ainda mais uma visão cética do Reino Unido pelos mercados financeiros. A Grécia o dirá como isso termina se você avalia errado o equilíbrio.

Fraca e instável

No fundo de tudo isso está a final e talvez mais crucial semelhança. As eleições no Reino Unido no dia 8 de junho entregaram um governo paralisado.

Uma maioria estreita e a heterogeneidade de qualquer governo de coalizão significarão um governo que não pode se mover nem para a direita nem para a esquerda, nem para frente nem para trás sem perder um precioso apoio e provavelmente colapsar.

Os governos gregos da década anterior à crise que atingiu o país são o exemplo perfeito de como o medo do custo politico pode levar a uma desastrosa falta de ação na economia.

Além de desafios estruturais profundos, produtividade baixa e uma montanha de dívida a ser paga, o Reino Unido agora ainda enfrenta a perspectiva de um acordo ruim com a UE, expectativas negativas dos negócios, opções de política monetária e fiscal esgotadas e ameaças graves para seu lucrativo setor financeiro.

Mesmo uma decisão decisiva e efetiva de um governo britânico com um mandato claro acharia difícil conduzir a economia para longe de um caminho perigoso.

Para o governo paralisado e ineficaz que surgiu das últimas eleições britânicas, a tarefa pode se provar impossível: a confiança pública vai minguar e a confiança do mercado vai afundar.

A Grécia nos ensinou a não navegar em direção a ventos contrários se pudermos evitar. A perspectiva de novas eleições pode não parecer palatável, mas certamente supera confiar o futuro de uma geração ou mais para um governo que mal merece esse nome.

Traduzido por João Pedro Caleiro com permissão do autor

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