Onde o crédito continua a bombar

Apesar dos sinais de retomada econômica, só devem ter uma expansão robusta neste ano os empréstimos para a compra de imóveis e veículos, para financiar a educação e o consignado

Os maiores bancos brasileiros anunciaram nas últimas semanas medidas agressivas que pareciam sugerir que o crédito já havia destravado no Brasil. Após um longo período de empréstimos raros e caros, o surgimento de linhas de financiamento para a compra de imóveis com pagamento em 30 anos e para a aquisição de veículos em 80 meses só podia mesmo ser considerado um grande avanço.

A queda da taxa básica de juros da economia brasileira para o patamar inédito de um dígito também contribuiu para criar a impressão de que os bancos imediatamente direcionariam parte dos recursos aplicados em títulos públicos para o mercado de crédito.

Especialistas ouvidos pelo Portal EXAME afirmam, no entanto, que esse será um processo gradual, que a taxa de crescimento do crédito será equivalente à metade dos anos anteriores e que esse resultado só não será pior devido ao bom desempenho de quatro linhas específicas de financiamento.

“Os bancos não vão sair correndo atrás de clientes só porque a Selic caiu para um dígito. É preciso que os instrumentos para a concessão de crédito com segurança estejam mais arraigados”, afirma Fernando Manfio, diretor da Witrisk, consultoria especializada em risco de crédito.

Tanto isso é verdade que três dos quatro tipos de crédito que devem apresentar maior crescimento neste ano possuem algumas das menores taxas de inadimplência: os empréstimos para a compra de casas, para a aquisição de veículos e o crédito consignado.

Crédito educativo

Já o quarto segmento de crescimento vistoso deve ser o de financiamento para mensalidades escolares. Ainda pouco exploradas pelos grandes bancos brasileiros, essas linhas permitem que estudantes paguem por cursos depois de sua conclusão. Estimativas do mercado apontam que só 7% dos estudantes utilizam financiamentos para custear a educação no Brasil – contra 85% nos Estados Unidos. Países mais maduros no processo de estabilidade econômica como o México e o Chile também já possuem uma ampla rede de financiamento estudantil.

Os bancos brasileiros nunca tiveram muito interesse por esse segmento porque é difícil avaliar se, após a conclusão do curso, o aluno terá um emprego que lhe garanta o rendimento necessário para pagar o empréstimo. Historicamente o Brasil tem uma taxa de desemprego maior do que a de países desenvolvidos – o que dificulta a entrada das jovens no mercado de trabalho. Além disso, a educação é um bem intangível e, ao contrário de um imóvel ou um carro, não pode se retomado pelo banco em caso de inadimplência.

O que tem garantido o crescimento do crédito educativo é a recente expansão do ensino universitário no Brasil. Uma das pioneiras nesse segmento, a Ideal Invest viu o número de interessados passar de 2.000 em 2007 para 100.000 em 2009. O crescimento despertou o interesse das grandes instituições financeiras. O Itaú-Unibanco e o Santander já possuem linhas de financiamento para ensino superior.

Para o diretor-financeiro da Ideal Invest, Carlos Furlan, a melhora no mercado de trabalho brasileiro e o desenvolvimento de ferramentas para a liberação de crédito educativo explica o crescimento desse segmento. “Nossa experiência mostra que os níveis de inadimplência em cursos de graduação podem ser previstos e administrados”, diz Furlan.

A maior aposta das empresas do setor, porém, está na educação continuada (pós e especializações). Além de prazos de financiamento mais curtos do que os de uma graduação – até 36 parcelas – quem busca esse tipo de crédito já está empregado e, em geral, não desiste do curso, o que reduz o risco de inadimplência por evasão ou desemprego.

A expansão do crédito tem contribuído para encher salas de aula pelo país. O diretor do Grupo Ibmec Educacional, Américo Matiello, diz que apenas 2,8% da base de alunos da Veris Faculdades – que pertence ao grupo Ibmec – utiliza financiamentos para estudar. Em 2006, no entanto, essa taxa era de apenas 0,5%. “Nossa projeção é de que, em três anos, o percentual seja de 7%”, afirma Matiello.

O principal financiador da educação no Brasil, no entanto, não é um banco privado. O governo federal possui dois grandes programas de bolsas de estudo e financiamentos a custos baixos para a população de baixa renda: o ProUni e o Fies. Para o ano letivo de 2009, foram concedidas 156.000 bolsas integrais ou parciais pelo ProUni – ou 10,6% do total de novos alunos que ingressaram em universidades particulares. Para ter acesso às bolsas integrais, o interessado precisa comprovar que possui uma renda per capita familiar máxima de três salários mínimos.

Já o Fies é operado pela Caixa Econômica Federal e libera crédito para os estudos da população de baixa renda. Nos últimos dez anos, foram beneficiados 520.000 estudantes de 1.500 instituições de ensino. A vantagem do Fies em relação aos demais financiamentos é a taxa de juros de 6% ao ano – bem inferior à cobrada pelas instituições privadas.

O sonho da casa própria

O segmento de financiamentos imobiliários também segue aquecido e confiante. Segundo dados do Banco Central, em maio o crédito destinado à habitação manteve a tendência de expansão acelerada e registrou aumento de 40,4% em relação a igual período do ano anterior.

Por um lado, o forte crescimento pode ser explicado pela base de comparação ainda incipiente. No entanto, o diretor-executivo de relações com investidores da Brookfield Incorporações (antiga Brascan), Luiz Rogélio Tolosa, diz que a estabilidade econômica e a queda dos juros ressuscitaram o sonho da casa própria. “Esse novo cenário permite que o brasileiro tenha chances reais de adquirir um imóvel”.

O segmento também conta com um forte apoio do governo. O programa “Minha Casa, Minha Vida” prevê à construção de 1 milhão de moradias para famílias com renda de até 10 salários mínimos. Outro aspecto que incentiva a oferta de crédito imobiliário é o risco de inadimplência baixo quando comparado a outros segmentos. Em caso de não-pagamento, a legislação atual permite a retomada do imóvel em apenas de três meses. Isso possibilita que os bancos sejam mais agressivos. Segundo Tolosa, a expectativa do setor é de que em breve os bancos passem a financiar até 80% do valor do imóvel.

“Antes de 2007, quando os prazos para financiamento se alongaram de 15 para 30 anos e os juros caíram, era necessária renda de 14 salários mínimos para a aquisição de uma propriedade de 80.000 reais. Hoje, esse valor caiu para seis salários mínimos. Isso representou um aumento de 7 milhões de potenciais compradores”, diz Tolosa.

Crédito para veículos

Outro motor do crédito neste ano deve ser o financiamento para veículos. A redução do IPI sobre carros e caminhões aqueceu as vendas das montadoras, que bateram o recorde histórico em junho. A compra da maior parte desses carros foi financiada.

Segundo a Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef), a queda dos juros também contribuiu para a expansão do crédito nesse segmento. A taxa média caiu de 23,87% ao ano no final de 2008 para 20,84% em abril. Com isso, a carteira de leasing das instituições financeiras cresceu 64,8% em abril na comparação com o mesmo mês do ano anterior.

Os juros para a compra de veículos estão entre os mais baixos entre as linhas voltadas para pessoas físicas devido à baixa inadimplência. De acordo o presidente da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito) e diretor-executivo do Banco PanAmericano, Adalberto Savioli, embora a inadimplência no segmento de veículos tenha passado de 2,5% para 5,2% nos últimos cinco anos, o percentual ainda é equivalente a um terço do apurado pelos financiamentos destinados a aquisição de bens duráveis como linha branca (geladeira, fogões), móveis e eletroeletrônicos.

Crédito consignado

Segundo Savioli, da Acrefi, o crédito consignado tende sempre a crescer em momentos de crise por expor menos os bancos ao risco. Dados do Banco Central mostram que as operações com crédito consignado registraram elevação de 3,1% em maio na comparação com o mesmo mês do ano anterior. No entanto, a expectativa é de que esse segmento tenha forte aceleração nos próximos meses porque em março o governo ampliou de 20% para 30% o limite de comprometimento da renda dos aposentados e pensionistas do INSS nos empréstimos com desconto em folha.

Desenvolver outras inovações como o crédito consignado para reduzir as perdas dos bancos é imperativo para que o mercado de crédito tenha no Brasil o mesmo tamanho observado em países mais desenvolvidos. Para Fernando Manfio, da Witrisk, a criação do cadastro positivo pode ser a grande alteração no mercado de crédito brasileiro neste ano.

Se aprovado no Senado, o cadastro positivo vai permitir que as varejistas e os bancos brasileiros tenham o histórico de crédito dos bons pagadores. Em tese, essas pessoas terão acesso a taxas de juros menores ao tomar novos empréstimos. Manfio alerta, entretanto, que no curto prazo o cadastro positivo vai levar ao aumento da inadimplência.

“Até que os bancos e as lojas aprendam a usar o cadastro positivo, muitos erros devem ser cometidos. Mas no longo prazo a expectativa é de que essa seja mais uma ferramenta para o desenvolvimento do mercado de crédito”, diz.