O que é a crise espanhola e como ela pode afetar o Brasil

País deverá receber uma ajuda de 100 bilhões de euros para restaurar a saúde de seus bancos, mas isso pode não ser o suficiente

São Paulo – A Espanha é, definitivamente, a bola da vez. Há mais de um ano que o país figura entre o “baixo clero” das potências europeias, os chamados PIGS (grupo de países em dificuldades formado por Portugal, Irlanda, Grécia e, mais recentemente, Espanha).

Porém, ainda que as dúvidas sobre a solidez do país fossem muitas ao longo dos últimos meses, o mercado precisou ver o fato consumado para conseguir acreditar. O ministro do Tesouro da Espanha, Cristóbal Montoro, chegou a afirmar categoricamente que a Espanha “é grande de mais para quebrar”, ou seja, que a Europa não terá condições de promover um resgate na península Ibérica, tal como fez na Balcânica.

Quando a Comissão Europeia anunciou um empréstimo que pode chegar a 100 bilhões de euros para salvar os bancos espanhóis em dificuldades, os investidores tiveram a certeza de que a situação era mesmo crítica e se mostraram descrentes na capacidade do país de conseguir se levantar.

O resultado disso é que, ainda que a Europa tenha reafirmado que não deixará os bancos espanhóis sucumbirem, os juros sobre os títulos da dívida espanhola atingiram novo recorde. E, quanto mais altos são os juros da dívida total do país, mais o governo espanhol terá de desembolsar para financiá-la, ao mesmo tempo em que a economia não cresce. Assim, o círculo vicioso se perpetua.

O site de VEJA preparou uma série de perguntas e respostas sobre a crise espanhola para mostrar o que ela realmente representa para a Europa, e se ela pode, de fato, afetar o Brasil.

Saiba mais sobre a crise na Espanha

Por que a Espanha precisou ser resgatada?

O empréstimo que a Espanha receberá da União Europeia, que pode chegar a 100 bilhões de euros, não é oficialmente chamado de resgate. O dinheiro será transferido do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) e do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEDE) para o governo espanhol. Na Espanha, ficará depositado no Fundo de Reestruturação Ordenada bancária (FROB) – a agência de reestruturação bancária do país, e será direcionado aos bancos em dificuldades por meio desse mecanismo.


Esse dinheiro servirá para, entre outras coisas, ajudar os bancos a cumprirem com os níveis de reserva de capital que foram exigidas pela Europa a partir do final de 2011.

A Espanha chegou a afirmar que esse dinheiro não pode ser considerado um endividamento do governo. Porém, tanto as agências de classificação de risco quanto os investidores já enxergam o valor como uma dívida contraída pelo poder público.

A Espanha corre o risco de quebrar, assim como a Grécia?

São problemas diferentes. Enquanto a Grécia teve de ser resgatada porque não tinha condições de arcar com o pagamento dos juros de sua dívida (que estava em 166% do PIB), o endividamento público da Espanha é um dos mais baixos da zona do euro. Atualmente, está em 68,5% do PIB, enquanto o da Itália, por exemplo, está em 125% do PIB.

O problema é que o empréstimo feito ao estado espanhol passa a ser avaliado pelo mercado como uma dívida do governo, já que a Espanha tem o papel de garantidor desse empréstimo. Desta forma, se os bancos não conseguirem honrar o pagamento do aporte bilionário, a situação fiscal da Espanha ficará comprometida e poderá culminar, no médio prazo, em um problema de insolvência.

Além disso, num caso de “calote” da dívida, a União Europeia tem prioridade como credora. Assim, os credores menores assumem mais risco quando compram os títulos da Espanha. E todo esse contexto associado aumenta o temor do mercado em relação ao país.
Esse, contudo, é o cenário mais pessimista e está fora de cogitação no curto prazo. Se ele se tornar real algum dia, significará que a Europa (e a Alemanha) falharam em conseguir retomar o crescimento na Europa.

Por que os bancos espanhóis precisaram ser resgatados?

A crise no sistema bancário espanhol ocorreu devido à expansão desenfreada do crédito, logo após a criação do euro. As caixas econômicas emprestavam dinheiro a juros baixíssimos para clientes com contratos de hipotecas na aquisição de imóveis. Mas, com o desemprego e a desaceleração econômica ocasionados, em parte, pela crise financeira de 2008, os contratos de hipotecas deixaram de ser honrados pelos clientes, fazendo com que as caixas tivessem de reaver os imóveis, que se desvalorizavam rapidamente. O aumento da inadimplência deixou as instituições em alerta.


Com o cenário recessivo que se seguiu após a crise, as instituições não conseguiram se recuperar. Houve aperto no crédito e o desemprego impossibilitava os espanhóis de tomarem novos empréstimos, resultando num círculo vicioso que culminou com a atual crise. Desta forma, o aporte bilionário servirá para recapitalizar os bancos dentro dos novos parâmetros exigidos pela Europa.

De onde está vindo o dinheiro para financiar a recuperação dos bancos espanhóis?

Muitos pensam que a Alemanha está financiando tudo, mas não é. O dinheiro vem de todos os contribuintes dos países da zona do euro, que mantém, por meio do pagamento de impostos, o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) e o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEDE).

Há algum outro país europeu que corre o mesmo risco que a Espanha?

O sistema bancário espanhol é, de longe, o mais sensível da zona do euro. Contudo, o ceticismo que impera no mercado faz com que todos os países da zona do euro sejam alvo de desconfiança, com exceção da Alemanha. Entre os mais problemáticos, além dos PIGS, estão Itália, França e Reino Unido, devido ao tamanho de seu endividamento.

Se a Espanha conseguir se recuperar, significa que a maior parte do problema europeu estará resolvida?

Não. O grande problema da Europa é o alto nível endividamento de seus países e a dificuldade que a zona do euro tem em promover o crescimento econômico. Ainda que a Espanha consiga recuperar a solidez bancária e não sucumba a uma crise fiscal, o problema do crescimento permanecerá. Nos demais países da zona do euro, reformas estão sendo discutidas – e colocadas em prática, em alguns casos – para reduzir os gastos públicos. Contudo, o bloco ainda não encontrou um caminho para estimular o crescimento.


A crise na Espanha prejudica o Brasil? Como?

Indiretamente, sim. “Sempre que a Europa é ameaçada por uma possibilidade de crise sistêmica, a aversão ao risco é a primeira reação dos investidores”, afirma o professor Mauro Guillen, da Wharton School, na Universidade da Pensilvânia. Desta forma, ainda que os BRICS (grupo de países emergentes do qual o Brasil faz parte) tenham uma situação fiscal sólida, perspectiva de crescimento e mercado interno forte, os investimentos acabam migrando para títulos do tesouro dos Estados Unidos ou da Alemanha, além de outras aplicações seguras. Isso faz com que os investimentos estrangeiros no país diminuam e também pode acarretar em queda da confiança dos empresários na própria economia brasileira.

No setor bancário, os efeitos também são pequenos. Isso ocorre porque os bancos brasileiros se financiam no mercado doméstico, por meio de depósitos de clientes, e dependem muito pouco de fundos externos. “Não é que o sistema bancário seja imune, mas tem plenas condições de encarar uma eventual piora”, diz o economista Alexandre Schwartzman, ex-diretor do Banco Central.

O Santander, banco espanhol, pode ter sua operação afetada no Brasil caso as coisas não se resolvam na Espanha?

As chances são remotas. Segundo economistas ouvidos pelo site de VEJA, os bancos estrangeiros no Brasil têm de funcionar como entidades independentes, isto é, com sua própria base de capital, de modo a permanecer em condições de funcionamento mesmo em caso de problemas na matriz. Os níveis de capital exigidos pelo BC são, inclusive, mais conservadores do que na Europa.

Apesar disso, a agência de classificação de risco, Fitch, reduziu nesta quarta-feira a nota de crédito do Banco Santander no Brasil de BBB+ para BBB, e a perspectiva caiu de estável para negativa. A agência alegou que não considera que o banco seja completamente independente da matriz.
O que o banco pode fazer no curto prazo – e que altera o mercado local – é vender sua subsidiária brasileira para levantar recursos para direcionar à Espanha. Essa alternativa, contudo, foi negada pelo presidente e fundador do grupo Santander, Emilio Botín.