Desglobalização é pesadelo, diz economista britânico

A globalização tirou pessoas da pobreza, mas agora se desgasta após a crise financeira de 2007, o Brexit e a eleição de Donald Trump, segundo economista

A história do processo de globalização da economia poderia ser resumida em dois indicadores que confirmam o inegável avanço social e econômico que ela provocou nos últimos 70 anos – a melhoria da renda per capita mundial, que quadruplicou no período, e o feito notável de ter tirado mais de 1 bilhão de pessoas da pobreza.

Se para muitos a globalização consolidou-se como o modelo definitivo de integração econômica mundial na era pós-Guerra Fria, a crise financeira de 2007 e recentes guinadas eleitorais no Primeiro Mundo – entre elas, o Brexit, plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia, e a vitória de Donald Trump, um líder populista e protecionista, na eleição americana – fizeram soar o alerta para o seu desgaste.

Ou seja, não só a globalização como dois dos valores fundamentais que a sustentam – a democracia liberal e o capitalismo de livre mercado – estão sob ameaça.

Em linhas gerais, essa é a mensagem passada pelo economista britânico Stephen D. King em Grave New World: The End of Globalization, the Return of History (“Sombrio Mundo Novo: o Fim da Globalização, a Volta da História”, numa tradução livre).

O título é uma referência irônica aos livros Brave New World (“Admirável Mundo Novo”, em português), utopia distópica escrita em 1931 por Aldous Huxley, e O Fim da História e o Último Homem, de Francis Fukuyama, de 1992, no qual o cientista político americano decreta, com o fim da União Soviética e da Guerra Fria, a vitória definitiva do capitalismo como modelo econômico global.

O tom pessimista que o livro de King suscita está longe de significar um veredicto sobre a globalização por parte do autor – que atua como consultor sênior do HSBC, um dos bancos mais globalizados do planeta. Serve, no entanto, como um excelente ponto de partida para entender a crise que a globalização atravessa atualmente, comparando-a a outros processos de integração econômica ao longo da história, além de apontar possíveis cenários futuros.

King aborda várias nuances da economia mundial e tem o mérito de produzir uma obra sobre um tema complexo sem ser enfadonho ou presunçoso, com uma narrativa acessível e recheada de dados. Segundo ele, o ordenamento político e institucional que deu início ao atual processo de globalização começou a ser esboçado após o fim da Segunda Guerra pelos países ocidentais, Estados Unidos à frente, por meio da criação de instituições internacionais voltadas para dar suporte ao desenvolvimento do comércio mundial.

Além do Plano Marshall – por meio do qual os Estados Unidos injetaram 130 bilhões de dólares, em valores atualizados, para ajudar a reconstruir os países europeus devastados pela guerra – surgiram o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e as primeiras rodadas do Acordo Geral de Tarifas (Gatt), mobilização entre os países para desmontar o protecionismo vigente na primeira metade do século 20 e percursor da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O resto da história é conhecido: depois da abertura da China ao mundo, em 1979, o fim da Guerra Fria e a adoção da economia de mercado pelo antigo bloco soviético, já no início dos anos 90, deram o impulso definitivo para a expansão da globalização. Para se ter uma ideia, o volume de comércio no mundo mais que quintuplicou desde então, passando de 3,5 trilhões de dólares em 1990 para 19 trilhões de dólares em 2015.

Paralisia econômica

Foi justamente em meio ao rápido crescimento do comércio global nesse período que começaram a surgir zonas cinzentas de paralisia econômica nos países do Primeiro Mundo – os mais prejudicados com a migração de suas indústrias para economias emergentes, com mão de obra mais barata.

Só nos Estados Unidos, a indústria fechou de 6 a 7 milhões de empregos desde o ano 2000. Em contrapartida, os países em desenvolvimento acabaram beneficiados ao se integrar à cadeia de comércio global.

Numa mostra da rápida expansão dos emergentes, as economias mais avançadas concentravam 64% da renda mundial em 1980, enquanto países em desenvolvimento e subdesenvolvidos somavam 36%. Em 2015, os papeis se inverteram: enquanto os países ricos detinham 42% da renda, os emergentes e demais países somavam 58% — boa parte devido ao crescimento monumental da China, cuja classe média viu sua renda per capita mais que dobrar no período.

Embora os números reforcem a redução do fosso econômico que separa o Primeiro Mundo dos emergentes, King adverte para um efeito colateral da globalização que está na raiz da sua atual crise: o aumento da desigualdade interna nos países desenvolvidos.

Trata-se de uma tendência difícil de reverter sem mexer no modelo vigente de integração global, baseado justamente na livre circulação de bens, capital e trabalho. Segundo ele, a questão central se resume a uma contradição: para a globalização avançar, os países devem aceitar uma redução de soberania na elaboração de políticas fiscais e monetárias, o que impacta diretamente na questão do emprego.

King aponta a zona do euro como uma das mais afetadas por essa redução de soberania por incluir 19 países com realidades econômicas diferentes.

A insatisfação nos Estados Unidos e na União Europeia causada pela perda de empregos qualificados e a queda do padrão de vida, problemas agravados com a crise financeira de 2007 e o aumento do fluxo migratório, facilitou a ascensão de líderes populistas em democracias maduras, como no Reino Unido, Dinamarca, Itália e Estados Unidos.

A vitória do Brexit e a eleição de Donald Trump, para ficar em dois exemplos, confirmam a impressão no Primeiro Mundo de que a globalização é cada vez mais vista como benéfica apenas para uma minoria. Uma pesquisa recente do instituto Pew revela que apenas 30% dos americanos e 23% dos britânicos acreditam que a próxima geração terá uma renda melhor que a de seus pais – certeza apontada por 85% dos chineses consultados.

O futuro sombrio citado por King no título do livro inclui o temor de a economia globalizada mergulhar num período de conflito e desintegração, com os países recorrendo a medidas protecionistas e fechando o cerco à imigração. Essa perspectiva inclui a tendência de enfraquecimento das instituições internacionais que ajudaram a dar suporte ao avanço da globalização, como o Banco Mundial e o FMI.

“A globalização não é impulsionada apenas pelo avanço tecnológico, mas também pelo desenvolvimento – e desaparecimento – de ideias e instituições que ajudam a impulsioná-la”, escreveu.

Na prática, isso já vem ocorrendo. A criação, capitaneada pela China, do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) – um banco de fomento mais atento ao potencial de desenvolvimento dos emergentes que o Banco Mundial – começa a delinear uma nova versão de globalização, com seu eixo deslocando-se em direção à Ásia e sem o pressuposto da democracia liberal para expandir.

Outras duas obras recentes acrescentam novos ingredientes ao debate, mostrando que não há soluções simples nem fórmulas prontas para lidar com a crise da globalização. Em The Fate of the West: The Battle to Save the World’s Most Successful Political Idea (“O destino do Ocidente: a batalha para salvar a ideia política mais bem-sucedida do mundo”), o jornalista e consultor britânico Bil Emmott discute a ascensão do populismo nos países desenvolvidos e seu impacto a longo prazo na economia globalizada.

Ex-editor-chefe da revista The Economist, Emmott faz uma análise minuciosa da situação econômica e social de vários países, apontando possíveis medidas fiscais e monetárias para corrigir erros de rota. Ele cita Suíça e Suécia como exemplos de países que conseguiram se reinventar.

Mesmo sem se juntar à União Europeia, a Suíça avançou na integração econômica com o bloco, mantendo intacta sua política de acolhida de imigrantes. Já a Suécia obteve crescimento econômico abrindo e desregulamentando parte de seu sistema produtivo sem abrir mão da política de bem-estar social.

Em From Global to Local: The Making of Things and the End of Globalisation (“Do global ao local: a criação das coisas e o fim da globalização”), o britânico Finbarr Livesey, professor de Políticas Públicas da Universidade de Cambridge, aborda com profundidade o impacto da revolução digital no processo de globalização da economia. Segundo ele, o avanço tecnológico facilitou a migração das indústrias de produção intensiva de mão-de-obra para onde os salários são baixos.

Esse processo, iniciado nos anos 90, está entrando agora numa nova fase: a da deglobalização, causada justamente pela inovação digital. Livesey diz que os robôs estão se tornando cada vez mais eficientes e de baixo custo, substituindo até trabalhadores baratos.

Assim, a tendência é de que as indústrias façam o caminho inverso – voltando a instalar sua linha de produção para mais perto de onde os produtos são consumidos, nas economias avançadas. “Distribuir a produção por todo o planeta já está fazendo cada vez menos sentido econômico”, diz Livesey. A má notícia é que o provável retorno da linha de montagem para os países ricos não significa a prometida recuperação dos empregos, pois a produção volta automatizada.

King também adverte que a tecnologia pode tanto estimular como destruir a globalização tal qual a conhecemos. Mas insiste que, a despeito de todas as ameaças que rondam o processo de integração econômica – e a constatação de que ele falhou em levar prosperidade para todos –, a globalização deverá permanecer associada a aumentos sustentáveis de padrão de vida para uma grande parcela da população mundial.

A opção protecionista, avisa, é pior para todos. Para reforçar, King contradiz o pessimismo reinante em seu livro parafraseando a clássica definição do ex-primeiro-ministro britânico Wiston Churchill sobre a democracia: “A globalização é a pior forma de ordem econômica, com exceção de todas as outras”, escreveu.

Serviço

Grave New World: The End of Globalization, the Return of History (“Sombrio Mundo Novo: o Fim da Globalização, a Volta da História”, em tradução livre)

Autor: Stephen D. King

Editora: Yale University Press

304 páginas