O NAFTA foi realmente o pior acordo da história dos EUA?

A postura contra o acordo de Trump levou México e Canadá a procurarem novos parceiros econômicos, e o Brasil pode se dar bem nessa história

São Paulo – “Um desastre” e “o pior acordo comercial da história”: foi assim que o presidente americano Donald Trump classificou o Tratado Norte-americano de Livre Comércio (NAFTA) em sua campanha eleitoral vitoriosa no ano passado.

Ele acusou o México e Canadá, os outros membros do acordo, de “roubar” empregos do seu país e ameaçou abandonar o tratado celebrado em 1994.

Além disso, o México também é ameaçado com a construção de um muro na fronteira com os EUA. Nesse contexto, entre a vitória inesperada de Trump e sua posse, um período de dois meses e meio, o peso mexicano perdeu um quinto do seu valor frente ao dólar.

Durante uma visita a Washington em abril, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, defendeu o livre comércio e lembrou Trump que o Canadá é o principal mercado para os exportadores americanos.

Em maio, o governo americano informou ao Congresso que vai começar uma renegociação formal do NAFTA.

“Muitos capítulos estão desatualizados e não refletem os padrões modernos”, afirmou o representante comercial dos Estados Unidos, Robert Lighthizer, sobre o acordo.

Antonio Carlos Alves dos Santos, professor de economia da PUC-SP, afirma que um dos pontos positivos do Nafta é sua superficialidade. Segundo ele, o acordo pode ser facilmente ajustável, estando longe de criar impasses que possam levar ao seu fim.

Mas afinal, o NAFTA tirou ou não empregos dos americanos? Segundo Otto Nogami, professor de economia do Insper, o acordo de fato transferiu vagas, sobretudo para o México.

A mão de obra barata e os custos operacionais mais baixos são grandes atrativos para as companhias norte-americanas, que formaram um cinturão de produção no norte do México, próximo à fronteira.

As exportações mexicanas para os EUA se multiplicaram mais de sete vezes entre 1993 e 2016, e foram triplicadas com o Canadá.

Desde o início do NAFTA, o comércio do México com seus parceiros quintuplicou e atingiu 516 bilhões de dólares ao ano, segundo números oficiais do governo.

As facilidades oferecidas do outro lado da fronteira levam as empresas dos EUA a produzirem com menor custo e entregarem produtos mais baratos para o mercado americano, o que ajuda a manter aquecido o consumo, de longe o maior motor da economia do país.

De acordo com a secretaria do NAFTA, os primeiros 15 anos de vigência do acordo criaram 40 milhões de empregos, 25 milhões deles somente nos Estados Unidos.

As exportações dos Estados Unidos para o México subiram de 42 bilhões de dólares em 1993 para 212 bilhões no ano passado, segundo dados do governo americano.

Renegociação

Nogami ressalta que um possível rompimento do NAFTA traria implicações sérias não só na economia, mas também na política, e todos os países-membros sairiam perdendo, cada qual à sua maneira.

A avalanche provocada com a chegada das empresas dos Estados Unidos e do Canadá no México após o Nafta fez com que o setor industrial fosse construído com base nas vantagens do acordo e dominado por estrangeiros.

Se o acordo acabasse e as cadeias de valor fossem rompidas, o México poderia ser deixado isolado com uma indústria nacional sucateada.

Mesmo em meio à renegociação, o governo do Canadá deu sinal verde para novas parcerias internacionais visando a redução de sua dependência econômica dos americanos.

Nos últimos meses, o primeiro-ministro Justin Trudeau lançou novos canais de formação e fortalecimento de alianças com a Europa e com os países da Otan.

Para Antonio Carlos Alves dos Santos, o professor da PUC-SP, o fechamento e isolacionismo de Trump pode ter um efeito oposto e acabar levando o Canadá e o México a uma abertura comercial maior, o que beneficiaria mercados como a Europa e até o Brasil.

O governo brasileiro iniciou neste mês uma nova rodada de negociações para ampliar um acordo com o México, o que pode impulsionar setores como a agricultura.

Os dois países já discutem o aumento dos embarques de milho brasileiro para o México em substituição ao produto americano.