Recife – Fiat, Boticário e Walmart estão entre as grandes empresas que resolveram, nos últimos anos, expandir as atividades ou começar a produzir na região Nordeste

A tomada de decisões em cada uma delas, porém, obedeceu a prioridades e critérios próprios, indo além da básica busca de incentivos fiscais e acesso direto ao mercado consumidor.

Durante as discussões do primeiro EXAME Fórum Nordeste, nesta segunda-feira, empresários e especialistas apontaram o que há de bom nesses estados que supera os crônicos déficits em infraestrutura e mão-de-obra (problemas que, embora mais profundos, não são exclusividade da região).

Os diálogos reproduzidos abaixo incluem  ainda as avaliações de presidentes de empresas regionais que, por meio de aquisições, fizeram o percurso contrário: expandiram seus negócios do Nordeste para o restante do país. 

É o caso da Alesat, distribuidora de combustíveis com origem no Rio Grande do Norte, e do grupo 3Corações, que mantém o nome do café mineiro, apesar de ser ter sido fruto de joint venture comandada pela nordestina Santa Clara.

Veja abaixo seis motivos para o empresariado se animar com a região, e mais dois, ao final, que servem de alerta para quem tiver pensando em expandir os negócios.

Ambiente favorável em alguns estados

Antonio Sérgio Melo, diretor de Assuntos Institucionais da Fiat
“O ambiente de negócios em Pernambuco é importante. Existe o Porto Digital. Você tem o Porto de Suape. Qualquer empresário que vem aqui tem a percepção de que pode estar estar perdendo oportunidades. E quando se acompanha a gestão do Estado, a seriedade como são tratadas as questões. Não há descontinuidade, o que dá segurança e previsibilidade. Em regra, se atribui sempre a vantagem tributária como fator decisivo (para vir ao Nordeste). E é, mas tem prazo de validade, porque o incentivo termina. Nossa indústria aqui vai produzir 250 mil veículos, teremos 4,5 mil empregos na planta”.

Exportação e proximidade com consumidores

Artur Grynbaum, presidente executivo do Grupo Boticário
“Primeiro, não se pode negar que as condições de exportação via Pernambuco são excelentes. É ainda um mercado que tem grande possibilidade de crescimento e que nos permitirá alçar voos maiores. Mas nosso foco é poder estar próximo dos consumidores e prestar um melhor serviço aos franqueados”.

Pedro Lima, presidente do Grupo 3Corações
“Estamos presentes no Norte e Nordeste porque queremos estar perto do consumidor”.

Compreensão do mercado

Artur Grynbaum, presidente executivo do Grupo Boticário

“Tínhamos uma linha splash para pós-banho. Lançamos para ser um sucesso enorme no Nordeste, com fragrância bem acertada. E foi um fiasco. O que fizemos de errado? As pessoas daqui gostavam da lavanda, como colocamos, mas a conheciam como alfazema. São pequenas coisas. É importante aprender o produto, mas também as peculiaridades do lugar”.

Incentivos fiscais

Tânia Bacelar, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
“Fiat e Ford (empresas que têm fábricas no Nordeste) não teriam vindo sem o pacote de incentivos. Só com os incentivos, é verdade, elas não viriam, mas a decisão final foi fortemente influenciada pelo bloco de incentivos, que ainda têm um importante papel para trazer negócios ao Nordeste. Mas nosso sonho é que tenha cada vez menos importância. O Nordeste precisa ter outros fatores de competitividade e o tempo da guerra fiscal está acabando. E precisa acabar”.

Turnover baixo

Vijay Gosula, diretor da Mckinsey 
“Os números que levantamos no setor público e privado sobre o talento local é de fato de uma mão de obra com qualidade menor, mas também o turnover é 25% menor que em São Paulo, Curitiba ou Rio. O investimento se paga de forma muito mais clara que em SP, onde o treinado vai embora seis meses depois. Aqui se veste a camisa, o que ajuda muito a compensar o desafio da qualificação baixa. Claro, o desemprego é de 30% na faixa dos jovens. Se tivesse pleno emprego, teria uma rotatividade muito maior."

José Rafael Vasquez, vice-presidente do Walmart no Brasil
“Nós temos uma rotatividade no Nordeste mais baixa que nas demais regiões do Brasil. A perspectiva de carreira e formação é maior que no Sul e Sudeste. O empregado entra e se sente parte do time a vida inteira”.

Potencial de mercado no interior

Marcelo Alecrim, diretor presidente da Alesat Combustíveis
“Pegue por exemplo um posto pequeno na praia da Pipa (RN). Com um milhão, você consegue fazer um, e ele vende 100 mil litros. Na capital, Natal, ele venderia 400 mil litros, mas custaria 10 milhões de reais. Nas periferias, a rentabilidade é maior que nas capitais".

Logística ruim (mas possível de ser administrada)

Américo Pereira Filho, presidente da FedEx Express no Brasil
“Você tem uma problemática de distribuição interna no Nordeste que não agrega valor. Entre os próprios estados, você acaba parando em barreiras fiscais. Às vezes, é muito difícil explicar para quem está fora. Dentro do país, a mercadoria tem que ficar parada? Mas o processo de empreendedorismo tem crescido bastante na região, sendo muito forte na Bahia e no Ceará. O mundo passou a enxergar o Nordeste como um grande mercado. No nosso caso, abrimos em Suape um terminal alfandegário porque acreditamos que a atividade vai se intensificar. E estamos investindo na Bahia com um novo centro de distribuição".

Pedro Lima, presidente do Grupo 3Corações
“Nossa plataforma logística havia sido criada 20 anos atrás. Vimos que não tínhamos um plano no Nordeste e fomos criando. Hoje nossa logística aqui é própria, desde o caminhão ao motorista, com centros de distribuição em todos os estados. Estamos presentes em mais de 300 mil pontos de vendas no Brasil. No Nordeste, você tem que ter uma boa operação logística. Quando recebemos o 3 Corações (em 2005), era tudo terceirizado. Hoje é tudo estrutura própria e com custo bem mais baixo".

Futuro ainda é incerto 

Tânia Bacelar, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
“Uma macrotendência é o crescimento do setor de petróleo e gás. E a cadeia produtiva está na região Sudeste, que tem a grande massa crítica para captar esse novo fluxo de investimentos. O Nordeste pôs freio no setor. Tínhamos uma presença histórica, hoje temos apenas uma refinaria e duas anunciadas, é muito pouco para o que o Brasil vai ter nesse século. Quando olhamos a indústria automotiva, outros estados do Brasil é que estão sendo escolhidos. De parque automotivo, o Nordeste tem apenas duas fábricas, uma na Bahia e outra se instalando em Pernambuco. E quando vejo o mapa das novas empresas, elas estão olhando mais o Sudeste e o Sul”. 

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