São Paulo - Hoje é impossível falar de "desigualdade" sem falar de Thomas Piketty e seu bestseller "O Capital no Século XXI", mas há economistas que estudam o tema há décadas.

O mais importante deles talvez seja o britânico Anthony Atkinson, professor da Universidade de Oxford que está sempre entre os mais cotados para o prêmio Nobel. 

Mentor de Piketty na criação de um banco de dados mundial de renda e riqueza, Atkinson quer agora "ampliar a imaginação das pessoas" mostrando o que pode ser feito em relação ao problema.

Seu novo livro "Desigualdade: O Que Pode Ser Feito", lançado no Brasil pela editora Leya, é um chamado à ação que inclui ingredientes tradicionais (como tributação mais progressiva sobre herança, renda e propriedade) e outros bem mais polêmicos.

Atkinson defende que o Estado deve oferecer emprego público com salário mínimo para quem o procurar, além de um tipo de herança mínima para todos que atingirem a idade adulta.

Ele conversou por telefone com EXAME.com sobre alguns temas do livro. Veja a seguir:

EXAME.com – Por que devemos pensar na desigualdade como um problema em si e não apenas em reduzir a pobreza e melhorar as condições de vida para todos?

Anthony Atkinson – Primeiro porque não dá para separar pobreza e desigualdade. Se você quer reduzir a pobreza, precisa pensar na distribuição dos resultados, porque eles estão interconectados.

Cito uma frase do [economista inglês] Richard Tawney: "O que os ricos ponderados chamam de problema da pobreza, os pobres ponderados chamam de problema da riqueza".

Segundo porque quando falamos de bem-estar, a maioria pensa em algum tipo de igualdade de oportunidade e chance de desenvolver seus talentos. E é impossível ter igualdade de oportunidade com desigualdade excessiva de resultados.

A desigualdade de renda e riqueza significa que não temos um um campo de atuação equitativo. As pessoas podem ir para a mesma escola, mas ir com ou sem café da manhã faz a diferença se elas vão se beneficiar daquela educação.

EXAME.com – Você diz que uma das armas contra a desigualdade é a tributação. Os Estados Unidos chegaram a ter uma taxa máxima de 90%, mas isso não seria muito mais difícil hoje, com a mobilidade do capital?

Atkinson – O livro é sobre o século XXI. Estou levando em conta a importância da globalização, e ela limita mesmo o que pode ser feito.

Mas o nível existente hoje (certamente no Reino Unido e em muitos outros) é baixo e fruto de razões ideológicas. Quando os países aumentam suas taxas - não diria para 90%, mas algo como 60% - isso não tem efeito negativo na receita.

EXAME.com – Você menciona a América Latina no começo do século como um exemplo de redução da desigualdade, mas estudos mostram que pesquisas de domicílio não revelam a riqueza no topo. Nossa desigualdade não pode ser ainda maior?

Atkinson – Sim. Informações de vários países mostram que é muito difícil capturar o que está acontecendo no topo do topo através de pesquisas, e por isso usamos outros registros.

Talvez a redução da desigualdade não tenha sido tão grande, o que também revela a atuação dos muito ricos para sua real posição não ser revelada.

EXAME.com – O Brasil está em uma recessão profunda. O que a história mostra sobre o efeito de crises e contrações sobre o nível de desigualdade?

Atkinson – Primeiro, eu separaria crises de recessões. Crises de várias formas frequentemente iniciam recessões.

Eu diria que muito da recessão mundial, por exemplo, foi resultado não da crise, mas das políticas feitas em resposta a ela. A Europa está em recessão principalmente por causa das respostas macroeconômicas falhas, não pela crise em si.

Se você perseguir politicas macroeconômicas que só focam em reduzir déficits do governo e inflação e não o emprego, isso tem no geral um efeito negativo para a maioria da população em termos de mais desigualdade.

EXAME.com – Você diz no livro que a tecnologia não deve ser vista como algo que simplesmente vem do céu. Mas não podemos partir do pressuposto de que a automatização vai sempre matar empregos

Atkinson – Não. A tecnologia deixou as pessoas muito mais produtivas, então eu tenho uma visão muito positiva dela. O que eu eu enfatizaria é quais partes da economia estão tentando melhorar com a tecnologia.

Por exemplo: os governos dos EUA e a Europa estão gastando muito para desenvolver carros sem motorista, o que provavelmente vai matar empregos como os de motoristas de táxi.

Uma alternativa para gastar esse dinheiro seria melhorar a tecnologia robótica que faz com que pessoas não precisem sair de casa para ter tratamento. Isso vai junto com o avanço do trabalho, porque você teria pessoas entrando para fazer o acompanhamento.

É um exemplo de como beneficiar os consumidores e ainda criar empregos. Ao escolher financiar os carros ao invés do tratamento domiciliar, nossos políticos fizeram escolhas que tem implicações para o nível de trabalho.

EXAME.com – Até que ponto a alta da desigualdade nas últimas décadas é reflexo da ascensão da China e de um mercado de trabalho globalizado?

Atkinson – A resposta padrão de um economista seria de que isso beneficiou o trabalhador qualificado em detrimento do não qualificado.

Eu não estou convencido, porque uma grande parte do aumento da desigualdade vem do topo da distribuição. Não é o graduando que está se beneficiando, é o 1%, o 0,5% mais rico. E ninguém fica rico assim só por ter um PhD.

Precisamos ver o que está gerando isso, como o aumento forte da compensação aos presidentes de empresas. Se você olhar o que eles ganhavam 20 anos atrás para fazer o mesmo trabalho, é uma fração do que é hoje, e é difícil de entender o porquê.

EXAME.com – Mas não há forças que estão fora do nosso controle – como o fato de que as pessoas geralmente conhecem seus parceiros na faculdade e casam com quem tem nível de renda parecido?

Atkinson – Há um elemento disso, mas não diria que 2 pessoas que juntas ganham 200 mil dólares por ano vão entrar na lista da Forbes ou algo assim. Isso não é a chave; já a herança é, sim, um elemento bem mais importante.

Mas onde as duas coisas se juntam é na igualdade de oportunidade. Os filhos desse casal vão ser duplamente favorecidos em seu acesso à educação, por exemplo.

EXAME.com – Mas nem sempre é fácil avaliar os efeitos de uma determinada política. As universidades públicas brasileiras, por exemplo, são dominadas por estudantes que vieram de escolas privadas. Mas eliminá-las acabaria de vez com a possibilidade dos mais pobres terem ensino superior.

Atkinson – É difícil pegar uma coisa isoladamente, é preciso olhar nas relações. A pergunta é: o que está acontecendo nos níveis mais baixos da educação? Por que as pessoas não estão conseguindo ou querendo tentar o ensino superior?

É difícil abordar um problema sem falar de outros, e isso volta para a questão de um campo de atuação equitativo e aquilo que o economista americano James Heckman enfatiza: o investimento nos primeiros anos da infância. Sem isso, deixamos as pessoas em desvantagem a partir de uma idade muito pequena. 

EXAME.com - Das propostas que você cita, qual seria a mais efetiva e qual seria a mais fácil politicamente?

Atkinson – Essa resposta fica com os leitores e será muito diferente de um país para o outro. Não estou dizendo que você deve fazer isso ou aquilo, e sim que se vocês quiserem fazer algo, pode ser feito. É mais sobre criar uma coalizão do que escolher uma política só.

As organizações internacionais sempre focam em uma coisa só, os governos só falam de educação e treinamento, mas há mais que pode ser feito. Eu quis ampliar a imaginação das pessoas.

Tópicos: Carga tributária, Distribuição de renda, Globalização, Impostos, Leão, Pobreza, Europa, Reino Unido, Países ricos, Tecnologia, Economistas, Ensino superior